Amizade, Amor e Fraternidade - Capítulo 1

< Anterior | Menu | Próxima >

[I - Fim e começo]

Não houve primeiro amor, assim como não houve primeira respiração, primeiro toque ou primeiro olhar. Ele amava ninguém e a todos ao mesmo tempo. Afinal, o primeiro indivíduo que amara fora a si mesmo.

- James, já pensou… pensou se fossemos morrer amanhã?
- Uhn… - coçou levemente a cabeça. - Não, não pensei. Sabe, não passo meu dia filosofando sobre minha possível morte amanhã. Prefiro viver o agora.

E como ele se amou… Se amou tanto que viu a aterrante necessidade de ser diferente de todos a sua volta. Não queria ser como a mãe, o pai, ou como os parentes supunham que deveria ser. Dentro do menino, da pequena estrela brilhante, nasceu um desejo de se destacar. Não da forma como todos naquela família faziam, mas de uma forma que jamais fosse esquecida. Essa necessidade de ser diferente foi o primeiro grande sentimento que se lembraria de já ter sentido. Cresceu desafiando tudo e todos, gostava de lutar, ser bravo ou tomar atitudes contrárias, ainda assim, gostava igualmente de se fingir de adolescente normal para os de fora, fingia tão bem que ele mesmo acreditava em suas próprias falsas verdades.

- James! Pensa comigo, se sua vida terminasse amanhã, você estaria completamente e totalmente feliz?
- Bem, - e ele pensou, ajeitou os óculos na ponte do nariz. - eu acho que sim. Fiz tudo que poderia ter feito de bom até o momento.
- Mas fez realmente tudo?
- Ahahahahahaha! Nem em mil anos alguém pode fazer tudo que é possível. E eu definitivamente não quero viver mil anos - lançou a Sirius um olhar curioso, como se o estudasse.

E no meio dessas falsas verdades ele encontrou uma verdade universal, incontestável e eterna. Ou até que a morte os separe.

- Você pensa muito pequeno. Por que não imaginar logo que vai viver cem… mil… milhões… infinitos anos?! - perguntou com uma voz excitada e divertida.
- Porque talvez eu prefira ser intensa e verdadeiramente feliz em um curto tempo do que passar a eternidade sozinho.

A verdade resumia-se a três pessoas: amizade. Mas a universal, incontestável e eterna pendia-se no único, no especial e no mais efêmero de todos. Pois descobriria que os bons sempre morrem cedo. Os bons e os tolos.

- Urgh James! Você está muito filosófico hoje, estou quase ficando com sono de ter de falar com você - disse apoiando o belo rosto na mão.
- Ahahaha! Eu sei, mas foi você quem trouxe um assunto filosófico à tona.
- Não, eu só fiz uma pergunta interessante para conversarmos sobre desejos adolescentes…
- Oras, se você queria falar sobre isso… por que não foi direto ao ponto? Florear assunto significa esconder segredo… - e lançou ao amigo um olhar esperto. Eles conheciam um ao outro muito bem.

Por um momento, um vago momento ele acreditou que duraria para sempre, que mesmo com aquela guerra tudo estaria bem desde que tivessem um ao outro, desde que houvesse o sorriso, a voz, o olhar, as conversas. A existência. Pois a morte, a morte rouba as pessoas e suas existências, ela é o não existir.

- Ok, sr. Direto-ao-ponto, o que você acha que têm que experimentar antes de morrer, não importando quando isso vai ser?
- Temos realmente que falar sobre morte? - perguntou fazendo um gesto evasivo com a mão.
- Não estou falando de morte, mas de desejo! - exclamou contrariado.
- Bem, sobre desejos… sei lá, acho que no momento o que poderia vir a me preocupar seria esse papo de deixar de ser virgem - respondeu pensativo. Sirius sorriu, chegara exatamente ao ponto que pretendia. James jamais seria completamente imprevisível para ele.

Como descobriria, nunca se pode ser único sem ao menos parecer um pouco com alguém. E ele se amava tanto, mas tanto, que passou a amar também tudo nos outros que parecesse com ele. Foi assim que ganhou um melhor amigo, foi por se amar tanto que ele sentiu-se perdendo uma parte de si quando o outro passou a não existir.

- Então, com quem você gostaria de perder a virgindade? Vamos… escolha qualquer um.
- Eu… acho que… - e James pareceu não notar o uso do masculino no lugar do usual feminino, embora tenha alargado o sorriso. - Não sei, Francis do sétimo ano, ou talvez Evans do nosso ano…

A morte é sempre mais difícil para quem fica. E ele se sentia como um idiota que segue ficando para trás, sofrendo a perda de todos e ainda assim reunindo forças para lutar, seguir em frente. E pelo quê? Por quem também havia ficado, abandonado como ele. Não estava realmente sozinho estava?

- Evans?! - exclamou surpreso. - Nem em mil anos ela vai aceitar sair ou fazer algo do tipo com você. Ainda mais… ela anda com o Ranhoso!
- E daí? Isso prova que ela só pode ser alguém tão incrivelmente legal que mesmo o Ranhoso não consegue assustá-la com toda a sua sebosidade corporal.
- James, você está soando quase como alguém apaixonado - disse como se estivesse atestando uma grave doença terminal ao amigo. - E eu estava falando de sexo, não de casamento.
- Eu sei! - ele riu, Sirius o acompanhou com um sorriso. Eram amigos, os melhores.

Quando se está acostumado a passar todas - ou quase todas - suas tardes na companhia de alguém, se torna invariável apreciar essa companhia, e a risada, e o som da respiração, e o fato de estar sentado ao lado fazendo tudo e nada ao mesmo tempo. No entanto, viviam num mundo de descobertas, todas novas e instigantes, e eram nesses momentos que o mundo podia ganhar novas cores.

- E um menino? Você acha que experimentaria com um menino? - James se retesou, o sorriso abriu mais, pareceu entender. Sirius continuou em sua pose displicente, ainda que por dentro temesse.
- Talvez… - respondeu lentamente. - Mas só se fosse com um de vocês dos Marotos.
Sirius se regojizou com essa resposta.

Ás vezes, quando se descobre o prazer, pode-se acabar de cara com algo maior, algo que não era esperado. Algo tão maior que sufocaria. Sufocaria se não tivesse continuado, sempre e sempre. Contudo, ele estava destinado a amar tanto a si mesmo e às suas semelhanças em outrem, que acabaria ferido. Ferido como qualquer outro tolo se fere por conta do amor. E ferir-se eventualmente o fazia sorrir. Era bom ser lembrado que só ele amava, o dono daquilo que ele considerava uma parte de si, buscava unicamente o prazer. E pensar que tudo começara quase ao contrario.

- Eu acho que experimentaria com você ou com o Moony - disse com um ar meio duvidoso, ensaiado durante noites sem fim.
- É, imaginar algo com Peter é meio… impossível - riram juntos. - Mas o Moony também não é muito imaginável, duvido que ele aceitasse uma coisa dessas. Por isso meu caro, somos só eu e você - e dessa vez foi ele que lançou um olhar esperto a Sirius.

Ele queria apenas um pouco de diversão, alguns momentos de prazer. Tudo se resumia à necessidade de experimentar o novo e de arranjar alguém para ajudá-lo nessa empreitada. E quem não teria sido melhor que a pessoa mais parecida com ele no mundo todo? Os dois, desde que começaram a amizade, haviam compartilhado tudo, dividido quase tudo e descoberto muitas outras coisas juntos. Para ele era natural e óbvio que deveriam desvendar o mundo assim.

- Então… - deixou um silêncio pairar no ar, instigando. - Você acha que deveríamos levar este plano ao fim ou é só uma idéia que veio e vai morrer? - perguntou, fez questão de mandar ao melhor amigo um olhar no mínimo provocativo, displicentemente sexy.
- Sirius… - James voltou a se retesar, pareceu pensar por instantes. - Não sei. Talvez. Mas não agora, sabe como é, vamos dar tempo ao tempo.

Tão natural que ele ficou realmente assustado ao se dar conta de que tão naturalmente como se dera início à amizade, ele começou a se envolver mais do que por prazer. O maior erro de sua vida, seu crime mais profundo e burro: se apaixonar.

- Você é muito covarde. - disse Sirius com um sorriso irônico, jamais desistiria fácil de algo que ele achava que iria diverti-lo. - No entanto, precisaríamos pensar em alguns detalhes - conseguiu prender a atenção de James, que o encarou com um olhar curioso. - Temos de pensar quem ficará por cima.
- Ah! - James arregalou os olhos, abriu levemente a boca.

Ele nunca teria suposto que amar a si mesmo, e a sua imagem refletida em outros, um dia o levaria aquele ponto. Achara que estaria seguro em sua síndrome de Narciso. E pensar que sua própria proteção seria sua perdição. E pensar que ninguém além dele já havia noticiado isso. A dor era solitária.

- Vamos lá James, não seja tão idiota - disse ainda com seu ar displicente. - Esse é o tipo de coisa que tem de ser planejada.
- Você realmente andou pensando no assunto. Por isso estava floreando tanto no começo da conversa! - disse acusadoramente com um sorriso maroto nos lábios. Sirius sorriu de volta e deu de ombros. - Bom, imagino que o melhor fosse nós variarmos. Ou você quer experimentar só de uma forma?
- Variar para mim está ótimo - e ele soube que realmente se amava muito, pois a parte dele contida em James, fazia com que este chegasse às mesmas conclusões que ele. Por isso eram perfeitos.
- Mas ainda assim, não sei se quero descobrir novas coisas agora, o futuro ainda está tão longe…

Ele imaginava se algum dia outra pessoa qualquer no mundo tinha reparado que, mesmo por detrás de um sorriso descolado e sarcástico, ele escondia uma cicatriz profunda, um machucado que ele mesmo se causara. Desconfiava um dia ou outro que a doçura de certas pessoas para com ele eram uma tentativa de amenizar suas dores, sua estupidez em relação ao tão desconhecido amor além do prazer. Lily era sempre doce, sempre.

- Ok, ok James. Contudo, sempre devemos plantar no hoje as sementes que germinarão amanhã - disse com um ar pomposo, fazendo o amigo rir e descontraindo o ambiente.
- Depois você diz que eu é que estou filosófico hoje!
- O quê, Sirius filosófico? Nem em cem anos - disse Remus se jogando na poltrona de frente para o sofá que os dois sentavam. James e Sirius trocaram um leve olhar cúmplice e mudaram de assunto, falando sobre qualquer coisa. Estavam sempre prontos a dividirem coisas com os outros amigos, e igualmente prontos a guardarem outras coisas somente para si. Afinal, eles eram melhores amigos.

Por isso fora até fácil perder o coração, ela era tão doce e perfeita para seu amigo, que ele soube desde sempre que não verdadeiramente perdera James, afinal, nunca o tivera. No entanto, sabia que amar não é querer a pessoa só para si, mas gostar-lhe tanto que no fim só se deseja a felicidade sincera. E James foi por toda a sua vida extremamente e indubitavelmente feliz. Disso ele sabia.


< Anterior | Menu | Próxima >

Leave a reply


Sponsors