O mundo de um youkai
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[Festejando]
“Ah não…” foi o primeiro pensamento de Harry.
Era quarta-feira. Uma maldita quarta-feira. Será que ele tinha mesmo que ir para o colégio? Não poderia matar aula de alguma forma?
Ok, eram seis da manhã, seus tios não o deixariam ficar em casa. Ele tinha algum lugar para ir àquela hora da manhã? Bom, ele poderia encontrar um lugar para ficar esperando até as nove horas, que era o horário que o shopping abria… Oh céus, o que ele iria fazer durante essas três horas?
Tá, ele não tinha real opção. Além do que, não adiantava nada ficar fugindo dos fatos. Ele dera um safanão em Draco Malfoy, ponto. Não havia pra quê chorar sobre o leite derramado, precisaria apenas estar de cabeça erguida e não entrar em pânico se Draco apenas o ignorasse completamente e não desse demonstrações de querer mais nenhum tipo de relação com ele , mesmo a relação profissional que estabeleceram durante o trabalho de química. Tá, pânico talvez fosse uma palavra forte demais, ele tinha que ficar com a cabeça erguida e não se desesperar caso Draco o deserdasse como amigo. Sim, desespero era melhor que pânico, afinal, com quem tiraria fotos ultra insinuantes? Como iria ficar seu flog sem Draco?
Harry levantou da cama se arrastando. “Lá se vai mais um fatídico dia de aula” pensou.
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Draco ouviu a música usual de Red Hot Chilli Peppers tocando. Abriu os olhos vagarosamente, a vontade de se levantar perdida em algum lugar escondido e inacessível do seu ser. Ficou um tempo apenas ouvindo a música e encarando o teto, pensativo. Será que aquele emo maluco ainda estava violento e iria partir pra cima dele com um bastão de baseball assim que o visse?
Bom, dessa vez Draco não iria deixar a psicose do outro o atingir tão fácil assim. Nem que tivesse que andar o dia todo na cola do Severino¹, que parecia a única criatura que Harry respeitava o mínimo, e Draco tinha certeza que o professor - que era inclusive amigo íntimo dos Malfoy - não permitiria nenhuma atitude violenta de Harry em sua frente.
Então estava planejado: passar o dia na cola de Severino. Seria até produtivo para tirar dúvidas e pedir algumas dicas para o trabalho de química, só não seria a quarta-feira mais divertida da vida de Draco. Melhor isso do que um olho roxo!
Com esses pensamentos positivos em mente Draco enfim desligou o despertador e levantou da cama, desejando que Harry simplesmente viesse falar com ele educadamente e pedisse desculpas de joelhos e na frente de Severino. Ah, se isso acontecesse seria tão divertido…
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“…Então eu espero que vocês não esqueçam essa matéria até a próxima segunda, porque eu estou pensando seriamente se já não é hora de termos um teste.” houve um gemido coletivo da classe ao ouvir essa frase. “Bem,” continuou Severino se sentando na cadeira de professor a um canto e ignorando os rostos amargurados dos alunos “creio que, dado o tempo que já passei o trabalho, a maioria de vocês já o está terminando…”
Silêncio. Nem Harry e Draco - que Harry considerava estarem bem adiantados comparados com o resto da turma - estavam tão próximos assim de terminar o trabalho. Ainda mais agora, com essa briga.
Olhando de uma forma que só ele - e a professora Minerva nos seus piores momentos - sabia olhar, o professor Severino encarou a turma, passando o olhar de aluno em aluno, encarando seus rostos culpados.
“Eu esperava, nem que fosse um pouco mais, de vocês. Embora já com alguns eu não me surpreenda…” disse encarando na última frase Harry e Neville, que novamente sentavam juntos.
“Mas fessor… A gente tem outras atividades a fazer, outros trabalhos também. Semana que vem tem prova de biologia e…” tentou argumentar uma das meninas da sala.
“Não me interessa que outras matérias vocês possam ter. Se estão nesse colégio é porque vocês, ou seus responsáveis, prezam pela excelência de ensino, e como professor eu não posso exigir menos que o mínimo para este colégio ter o número de cabeças de vento reduzido.” Severino novamente dirigiu seu olhar na direção de Harry e Neville, “Se vocês não estão dispostos a esse esforço, então peço que continuem com suas ‘outras atividades’ e simplesmente saiam desta escola.” ele apontou para a porta da sala, logo em seguida deu um sorriso bem sádico, que fez Harry lembrar-se de Draco, embora este não tivesse nem o nariz adunco, nem os cabelos oleosos, nem a cara macilenta do professor. “Agora, creio com bastante certeza que seus pais ou responsáveis concordam plenamente comigo ao exigir de vocês um pouco de disciplina. Ou será que não?”
Silêncio novamente.
“Por hoje os senhores estão liberados. Espero que segunda já tenham tomado consciência dos seus deveres como alunos.” e assim que ele terminou de falar o sinal tocou.
Harry suspirou exasperado. Severino era um mala, um grande mala. Dava para apostar que ele só passara aquele discurso todo para não liberar a turma antes do sinal bater. O jovem tirou os óculos e esfregou os olhos, cansado de ter de prestar atenção a aula de química, pois se não prestasse, levaria uma bronca do professor, que se estivesse de mau humor ainda faria questão de dar uma advertência para levar pra casa.
O menino pôs os óculos de volta no rosto a tempo de ver Draco sair da sala, olhando diretamente para ele. Ficou surpreso, no rosto do loiro parafinado não havia nem raiva nem desprezo, ele apenas o observava com a cara de sempre. Quando Harry olhou-o de volta, Draco simplesmente desviou o olhar, como se nada tivesse acontecido. Harry ficou apenas observando o metido a surfista se distanciar, conversando com Severino.
“Harry… Harry?” a voz de Neville se fez ouvir, o garoto se virou para o colega “Tava no mundo da lua?” perguntou Neville com um sorriso. Harry puxou a cadeira para mais perto da mesa, dando espaço para o outro poder passar. “Obrigado.” disse Neville seguindo com os outros alunos para o intervalo.
Harry não estava interessado em sair naquele momento. O que exatamente havia sido o olhar que Draco o lançara? Não era raiva, rancor ou ódio; também não era carinho, compreensão ou qualquer outra coisa bonitinha. Draco simplesmente o encarara e ele não sabia exatamente porquê ficara mexido com isso. Como se tivesse encontrado algo que procurava… Algo bom. Só que, pensando bem, no olhar de Draco não parecia ter nada de mais, apenas um olhar casual.
Mas, pera aí! O importante era: Draco não demonstrara nada semelhante a raiva ou rancor. Dane-se o palpitar estranho que Harry sentia, agora ele sabia que seria mais fácil se reaproximar do outro! Sorriu com a idéia, e teve a leve consciência de que devia parecer meio bobo com o sorriso que dera.
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“Por hoje os senhores estão liberados, espero que segunda já tenham tomado consciência dos seus deveres como alunos.” e assim que ele terminou de falar o sinal tocou.
Draco sorriu com o que o professor falara. Só ele tinha esse poder com a turma, ganhava de longe de qualquer outra pessoa.
Severino rapidamente juntou os papéis e pegou a sua pasta sobre a mesa, dirigindo-se à porta. Draco lembrou-se imediatamente do plano de proteção à sua integridade física e correu para não ficar muito atrás do professor.
Quando alcançou a porta, logo atrás do mestre, seu olhar foi naturalmente atraído para uma das carteiras em frente à saída. Harry tinha os óculos em uma das mãos enquanto esfregava os olhos de forma cansada. Draco continuou encarando-o, até que o outro pôs de volta os óculos e olhou diretamente de volta para ele. No rosto do emo um misto de surpresa e curiosidade. Draco desviou o olhar.
“Professor, tem algumas coisas que gostaria de falar com o senhor.” disse se dirigindo a Severino. Não pôde evitar sentir o rosto corar levemente por motivo algum. Bom, Harry o encarara de volta sem colocar os dentes pra fora, estalar os dedos ou fazer uma cara maníaca ou uma pose assassina… isso só poderia significar que ele provavelmente não queria ainda matar Draco. Bom, Harry apenas fizera aquela cara de idiota tapado que ele sempre fazia quando ficava surpreso, a mesma cara que fazia Draco ter ânsias de irritá-lo, torturá-lo até ele mudar de expressão. Por que? E isso importava? Claro que sim. Mas por hora era melhor não pensar muito nesse assunto.
Draco passou o intervalo inteiro conversando com Severino, o que foi até agradável, pois conversaram sobre os pais do garoto e sua mais nova viagem. Falaram também do trabalho de química e o professor deu umas boas dicas ao menino, que teve a leve noção de que Severino não as teria dado para mais ninguém. Draco não viu sinal de Harry no primeiro recreio, o que o deixou grato e um pouco desapontado ao constatar que não, a criatura de listrado não iria procurá-lo, ficar de joelhos e pedir desculpas na frente de Severino… Uma pena.
Quando o sinal tocou ele esperou ver o grupo de meninos que sempre jogava futebol na quadra começar a subir junto com algumas garotas que assistiam às partidas e se misturou a eles. Entrou na sala e encontrou Harry cochilando com a cabeça sobre a mão, mesmo com toda a turma entrando em algazarra, ele não acordou, pelo menos não até um dos alunos esbarrar numa carteira e fazendo estrondo. Harry deu um salto na cadeira e despertou, esfregou os olhos por debaixo do óculos e ajeitou-o na ponte do nariz.
Novamente aquilo aconteceu, ele olhou diretamente para Draco, como se já soubesse instintivamente onde achá-lo. Draco foi novamente pego de surpresa pelas íris verdes. Observava Harry e não esperava que o outro fosse encará-lo de volta instantaneamente.
Dessa vez, apesar de surpreso, Draco não desviou o olhar, apenas levantou uma das sobrancelhas em seu típico ato irônico. Em resposta Harry também ergueu as dele, em uma expressão de incompreensão. O outro soltou um risinho sarcástico e desviou o olhar se concentrando em seu material, abrindo o caderno. Bem, a cara de Harry demonstrava algo próximo a uma surpresa suplicante, provavelmente ele estava louco para que Draco o perdoasse. Tendo essa nova constatação em vista, quem sabe Draco não brincasse um pouquinho com o emo antes de perdoá-lo?
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Harry estava cochilando, cansado por não ter dormido muito, já que ficara a noite inteira ruminando sobre como faria com seu flog sem Draco. Cochilava pxelo que pareciam horas quando um estrondo o despertou, aceitando que o intervalo havia terminado e que logo a professora de matemática iria chegar, Harry esfregou os olhos tentando afastar o sono remanescente, ajeitou os óculos e ergueu a cabeça. Seu olhar deu direto com o de Draco, que já estava sentado na própria carteira. Por um momento os dois só se encararam, como se avaliassem um ao outro, até que Draco fez uma expressão irônica. Harry se sentiu surpreso por aquela reação ‘normal’.
Aquilo só podia significar que não havia realmente nada de errado entre eles! Draco não parecia o estar odiando ou algo do tipo. Talvez devesse falar com ele no final da aula, talvez pedir desculpas, ou talvez nada tão extremo, ele podia apenas dizer algo na linha de: “Disposto a esquecer o que aconteceu?”, “Continuamos com nossos planos?” ou talvez “Será que vai fazer sol nesse fim de semana?” Bom… Depois ele pensaria no que dizer, agora era “Hora de matemática!”, como disse a professora Vectro, assim que entrou na sala.
O segundo intervalo do dia chegou, após o tempo duplo de matemática, sem que nada de realmente interessante ocorresse. Draco saiu da sala assim que o sinal bateu, porém, não foi procurar Severino, pois agora sabia que Harry não queria mais agredi-lo, parecendo devidamente arrependido. Resolveu jogar futebol com os outros meninos, fazia um tempo que não praticava o esporte e já estava sentindo falta.
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Harry viu Draco saindo pela porta novamente assim que o sinal para o intervalo tocou e resolveu que também iria descer, afinal de contas, estava com fome e não iria morrer se socializasse um pouco com os outros alunos. Quem sabe, com alguma sorte, ele ainda conseguiria falar com o playboyzinho?
Harry andava com um croissant na mão e um refresco na outra, enquanto conversava com Neville sobre assuntos diversos, até que os pés dos dois os levaram para a quadra de esportes do colégio. Por todo o caminho Harry olhava em volta, tentando localizar Draco.
Ao chegarem à quadra, Harry e Neville se juntaram a Dino e Simas, que conversavam animadamente sobre a partida. Harry se absteve do assunto, virado de costas para a quadra, continuou comendo o lanche.
Até que algumas pessoas gritaram em comemoração e o olhar do menino se dirigiu por curiosidade ao local da algazarra, foi então que ele viu Draco cumprimentando um garoto, que aparentemente fizera o gol. Draco, como que adivinhando, olhou diretamente para Harry. Seu sorriso de felicitação foi se transformando em um risinho enviesado, o qual Harry respondeu sorrindo torto também - mesmo sabendo que o seu infelizmente não causava o mesmo efeito. O surfistinha então desviou os olhar e voltou a jogar como se Harry não estivesse ali.
Ao final da partida, o menino resolveu que esperar Draco na saída da quadra. Era um boa forma para puxar assunto com um tom casual. Quando estavam todos saindo Harry viu que cometera um erro básico, se esquecera que a quadra tinha duas portas, Draco saíra pela outra.
Quando terminou a partida, Draco estava com uma incrível sede e uma necessidade ascendente de ir ao banheiro, então saiu o mais rápido que pôde pela porta da quadra que ficava em frente aos vestiários, correndo na direção do banheiro, que logo ficaria lotado.
Harry bufou exasperado, por que tudo tinha sempre que dar errado pra ele? Custava Draco ter saído pela porta em que ele estava esperando? Não, tudo tinha sempre que dar errado. Sem ouvir Neville ou Dino falando com ele, Harry começou a voltar para a sala de aula, pelo caminho foi chutando tudo que encontrava pelo chão.
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TRIIIIIIIIIIIIM! (n/a: mais uma onomatopéia… tá virando costume isso xP)(n/b: Por que o sinal não pode fazer: MUUUUUUUUUUU? XP)
Sinal para o final das aulas, fim do dia, hora de sair, ir embora, cada um pra sua casa, nada de aulas a não ser para quem tinha atividades extracurricular. Harry demorou um pouco mais do que o necessário arrumando suas coisas. Diferente dos outros alunos, dessa vez ele não começara a arrumar a mochila antes de o sinal tocar. Por isso, quando estava pronto para deixar a sala, a maior parte da turma já havia ido embora, dentre eles Draco. Harry procurou com o olhar, mas não encontrou-o. Sem ligar para o trabalho de química (que eles faziam toda segunda, quarta e sexta), Draco havia ido embora… Será que isso era o fim?
Harry foi na direção da rampa que levava à saída do colégio arrastando os pés. No meio do caminho, percebeu o quanto sua atitude era patética, e inspirado por um ímpeto de dignidade - ou o que sobrava dela - ergueu a cabeça, aprumou a coluna, deixando-a ereta, andou como se nada naquele momento o afetasse e como se naquele dia ele pudesse fazer qualquer coisa.
Draco olhou distraidamente para cima, na direção das pessoas que desciam a rampa, estava parado na porta do colégio esperando pra ver se o emozinho aparecia, pretendia falar algo para ele, talvez: “Desculpe aquilo que eu…” não, isso não, quem sabe: “Vai largar mão de ser mané ou tá acabado essa história de trabalho de química e o acordo que nós tínhamos?”, ou então algo menos forte: “Vamos fazer o trabalho de química hoje ou você prefere nunca mais olharmos um na cara do outro?” quem sabe se…
Foi então que ele olhou mais atentamente para a rampa, e seu olha encontrou Harry. ele descia com a mochila suspensa apenas em um ombro, o olhar perdido em algum lugar na direção do horizonte, o sol refletia dourado nos cabelos negros, o ar de despreocupação quase poética na forma que ele caminhava como não se importasse se o mundo estivesse todo contra ele…
Draco jamais teria reparado nessas coisas idiotas se não fosse pela expressão que Harry sustentava, ele tinha o rosto erguido, um olhar sério, compenetrado, que ele instintivamente associou a alguém forte, corajoso, que enfrentaria o mundo de peito aberto. Só aquela mera expressão displicente parecia encarar um gigante invisível, as sobrancelhas quase se unindo em v, os olhos levemente cerrados, não era um olhar zangado, raivoso, era diferente, diferente de tudo que Draco enxergava no emo, era o olhar de alguém adulto, um olhar quase imponente, embora não arrogante. Um olhar de alguém que vivera muito em poucos anos. Não era o Harry que ele convivia diariamente.
E havia a droga do sol batendo na nuca dele, refletindo-se nos fios despenteados (Draco notou que estavam sem chapinha), a roupa do uniforme parecia posta displicentemente sobre o corpo do outro, como se de repente ela ganhasse um novo sentido, só por estar sendo vestida por Harry, como se Harry mudasse o mundo a sua volta e tudo parecesse com um brilho dourado, que não podia ser só o sol.
Por um instante, um ínfimo e pequeno instante no qual sua mente cogitou a possibilidade dele admirar Harry, Draco pensou ter enxergado uma pessoa diferente. Alguém não tão fútil ou fresco, alguém que não era nem de longe só uma mente vazia ou cheia de titica. Ele pensou ter visto ali a sombra do que a sua mente ligou a um… deus grego. Heróico, poderoso e… belo.
Draco soltou todo ar pela boca de uma vez, como se tivesse levado um soco no estômago. Mal notara que estava prendendo a respiração. Estava quase chocado, admirado, assustado… surpreso. (n/b: esse momento de epifania do Draco é T-U-D-O, totalmente kawai!!!)
Quando Harry chegou ao final da rampa, o sol já escondido pelas pilastras não mais refletia-se nos fios negros. O menino parou, olhou em volta como se procurasse algo, até avistar Draco, que acabara de reparar que ao observar Harry em sua descida (passada em câmera lenta dentro de sua mente) ele mantivera a boca entreaberta em muda admiração. Fechou-a imediatamente. Harry deu um semi-sorriso, a aura que Draco presenciara há pouco ainda presente, por instinto, ou surpresa, Draco se afastou um passo quando o outro veio em sua direção. Sentiu como se fosse pequeno e Harry, uma ameaça, alguém temível. Temivelmente belo. E estranho, ou era ele mesmo, Draco, que era o estranho? Agora não mais sabia.
Harry corou ligeiramente quando enfim alcançou Draco, não sabia o que dizer. Draco se forçou a lembrar que diante dele estava o maldito Harry Potter, o garoto mais emo e bicha do mundo e não uma espécie de divindade ou algo do tipo. Mesmo assim, continuou sentido o rosto quente, perdido entre o envergonhado pelo que sentia e o tímido com o que vira. Harry abriu a boca, duvidoso, tomou ar e:
“Eu…”
“Vamos.” Draco disse de forma simples e direta, se pondo a andar para a saída logo em seguida. Não ousou dizer mais nada, não poderia, sabia que ainda não estava recuperado da espécie de pancada que sentira levar no peito, seu coração ainda batia descompassado, ele ainda achava difícil respirar, e nem sabia por quê.
E também não queria ver Harry dizendo nada, descobriu que não queria mais receber desculpas de qualquer tipo. Sem saber o motivo exato, queria apenas que toda aquela aura maluca e extasiante que cercara Harry instantes atrás não fosse desfeita pela burrice burrice latente dele, que se expressava a cada vez que abria a boca para dizer uma de suas asneiras. Por que não deveria deixar o momento de magia durar um pouquinho mais? Ele sabia que no fundo Harry ainda era só um estúpido mesmo, não é?
Draco sacudiu a cabeça como se espantasse uma mosca, Harry, que vinha atrás dele, sorriu. Afinal, não precisara dizer nada, agora estava tudo certo de novo. Quarta, afinal, não era um dia tão ruim assim. Era dia de trabalho de química… É dia de trabalho de química, nada mudara, tudo entre eles sempre parecia voltar ao mesmo patamar. Harry abriu um pouco mais o sorriso que tentava manter discreto, pois sabia que era um sorriso idiota.
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“Draco… Draco… DRACO!” por que ele teimava terminantemente em ignorá-lo? “Eu estou falando com você!” não agüentando mais puxou-o pelo antebraço.
“QUÊ FOI!?” Draco enfim se virou encarando-o com uma cara muito zangada.
“Eu estou tentando falar há meia hora com você sobre…” Draco virou as costas novamente e continuou andando pelo corredor.
“Cacete, dá pra me escutar!?” impaciente e já descontrolado com todas aquelas esquivas, Harry lançou com toda a força o estojo em sua mão em cheio na cabeça de Draco, que estancou. Harry soltou o ar pelo nariz de forma exasperada. Pelo menos funcionara a tática impulsiva funcionara.
Ainda de costas, Draco se abaixou para pegar o estojo caído logo a frente dele. Harry deu um passo instintivo para trás, quase conseguia visualizar ondinhas assassinas saindo do outro.
“Harry…” a voz dele tremia, Harry estufou o peito, não iria fugir.
Como se seu cérebro processasse mais de um zilhão de dados por segundo, Harry viu Draco dar início ao movimento de virar, no rosto uma expressão maníaca. Mais por instinto do que por raciocínio lógico, Harry se jogou para frente. Draco tacou o estojo com toda a força na direção de onde a cabeça dele estivera instantes atrás.
Harry, em seu movimento de esquiva, acabou por jogar-se em cima de Draco, desequilibrando-o, o estojo passou raspando a centímetros de seu ouvido, e ele quase pôde sentir o estrago que teria feito se o tivesse acertado.
Gritos, som de corpos batendo contra o chão, gemidos, briga e por fim, Harry de joelhos, Draco embaixo dele, os braços retidos no chão por Harry que segurava-os firmemente pelo pulso.
“Sai de cima de mim seu merda seu…” Draco começou uma enxurrada de impropérios a Harry, ainda se agitando e tentando se livrar da posição ridícula em que se encontrava. Quando tacara o estojo de volta, com intenção de destruir a cara do emo, este simplesmente resolvera mostrar algum reflexo motor e se jogara para frente, pulando em cima de Draco, que com o choque, se desequilibrara e caíra no chão, Harry sobre ele. Houve uma curta luta na qual Draco tinha certeza de que acertara um semi-soco em Harry -, até que este o imobilizou naquela posição esdrúxula. “… Me solta pra você ver só seu estúpido, acha que é fácil assim? Seu bosta seu…”
“Draco… DRACO! Dá pra me ouvir droga!?” Draco se calou, e se limitou a encarar Harry com seu olhar mais assassino, sabia que havia perdido, precisava apenas distrair Harry o suficiente para conseguir inverter as coisas…
Harry não se deixou intimidar pelo olhar cheio de promessas vingativas, precisava falar logo de uma vez e já estava de saco cheio das frescuras do surfista parafinado, quando Draco mostrou os dentes e fez menção de atacá-lo novamente, Harry falou “A ÚNIca coisa que eu queria dizer, se você não ficasse me ignorando solenemente,” Harry afrouxou um pouco a forma como segurava os pulsos de Draco contra o chão “é que se você não lembra, hoje é quarta e eu tinha dito…”
“Meninos?” a voz de Maria soou pelo recinto, Harry olhou surpreso para a empregada, Draco se levantou rápida e bruscamente, empurrando Harry, que caiu sentado, com violência de cima dele. O que Maria pensaria ao vê-los naquela posição?
“Que foi Maria?” Draco perguntou num tom falsamente calmo e gélido. Se levantando como se nada tivesse acontecido.
“Ah, eu só… Eu só…” Maria parecia um pouco deslocada, sem saber exatamente o que dizer, Harry não conseguia olhar para nenhum lugar que não o cadarço de seu Allstar verde.
“Dá pra você levantar!?” Draco perguntou brusca e mal educadamente para Harry, que se surpreendeu ao lembrar que estava sentado no meio do corredor da casa de Draco e que Maria o encarava de forma estranha. Harry fuzilou Draco com o olhar pela forma arrogante com que falara. Mesmo assim, levantou-se.
“E, o-que-foi Maria?” Draco perguntou novamente, o tom gelado ainda na voz, agora mal disfarçando a irritação.
“Bem, eu ouvi barulhos e gritos e vim ver o que estava acontecendo, fiquei preocupada…”
“Sim, mas não há nada de errado aqui.” disse Draco impaciente, querendo se livrar o mais rápido possível da empregada.
“Tá tudo tranqüilo Maria, estávamos só batalhando. Coisa de garoto sabe?” Harry ficou admirado por ter conseguido arranjar uma boa desculpa e por ter conseguido mentir tão rápido. Draco olhou-o de esguelha, raiva e desprezo estamparam-se no seu rosto antes de voltar a encarar Maria.
“Foi só isso Maria, agora se não se importa, temos um trabalho a fazer.” Draco disse dispensando-a.
Maria deu uma última olhada nos meninos e enfim se retirou de volta à copa.
“Estávamos só batalhando. Coisa de garoto, sabe?” Draco imitou em tom de falsete a frase de Harry “Você tem o quê, titica no lugar de cérebro?!”
“Eu só estava tentando melhorar a situação.” respondeu Harry revoltado.
“Empregados não precisam de satisfações!” enquanto falava, Draco apanhava os papéis que derrubara quando Harry pulou sobre ele.
“A única coisa que eu queria dizer, se você não fosse um grande cuzão, é que hoje eu preciso ir embora mais cedo. Lembra a festa de aniversário da irmã de um amigo, a qual ce não quis ir?” Harry recolheu seu estojo do chão enquanto falava zangado.
“Ótimo.” respondeu Draco.
“Ótimo…?”
“Sim, ótimo. Vá pela sombra.” disse Draco impaciente caminhando para o escritório e fazendo um tom de dispensa com a mão.
“Bem, então eu vou indo que já tá na hora.” Harry disse caminhando na direção oposta com os lábios crispados e as narinas dilatadas, de tão irritado e disperso, não pôde ouvir Draco murmurando:
“Como se alguém ligasse se você está por perto ou não… Quem quer saber do santo Potter?”
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“Aaaaaaaaaaaah, Harry! Não acredito!” dois braços o puxaram para dentro e sua visão foi coberta por um mar de cabelos cor de fogo. Harry acabara de tocar a campainha da casa de Ron quando Gina atendeu. Ele não tivera nem tempo de dizer ‘Olá’, quando ela o agarrou num abraço. “O Ron disse que você talvez viesse, mas eu não tinha certeza. Nossa, faz muito tempo que não nos vemos!”
“É sim.” Harry sorriu de volta “Você cresceu.” no momento que proferiu essa frase soube que soava idiota. Felizmente Gina riu, e Harry teve certeza de que ela crescera muito bonita.
“Você também está diferente.” a garota entrelaçou o braço com o de Harry, “Agora vamos entrar, tenho que te apresentar para as minhas amigas, já estavam reclamando a falta de meninos bonitos na festa. Agora me chega você, e uow, acho que elas vão adorar te conhecer.” Harry corou quando percebeu que Gina potencialmente acabara de dizer que ele era bonito.
Chegando na sala, Harry pôde encontrar os mais variados gêneros de garotas: gordas, baixas, altas, loiras, morenas, cabelo liso, cacheado, alisado, ondulado, funkeira, rockeira, paty, religiosa, sem estilo e… Hermione.
“Harry!” exclamou a menina feliz e foi cumprimentar o amigo. “Que bom que você veio.”
“Adoro comida de festa.” respondeu o menino, Gina e Mione riram. Harry corou, acabara de perceber que dissera que estava na festa não por Gina, mas pela comida. Se sentiu envergonhado. “Er… Quer dizer…”
“Harry!” foi a vez de Ron.
“Olá, Ron!” ele cumprimentou, satisfeito por encontrar uma distração para sua gafe. Enquanto andava em sua direção Ron deu uma avaliada de cima a baixo em Harry.
“Bem, pelo menos você não está de maquiagem.” disse ele assim que alcançou o amigo. “E nem de chapinha também… Já é alguma coisa.”
“Ron!” reclamou Hermione.
“Mas é verdade, ué! Se bem que essa blusa apertada aí não engana ninguém…”
“Rooon!” Hermione repetiu em tom de aviso, ao que Ron deu de ombros. Mione começou a ralhar com o menino.
“Namorados…” Gina disse de forma divertida “Vem Harry, deixa eu te apresentar para minhas amigas.” e puxou-o para longe do casal.
Seguiu-se uma imensa lista de apresentação, que se Harry lembrasse a metade dos nomes das meninas a ele apresentadas, seria um milagre. Naquele momento, cumprimentando os tipos mais diversos de garotas ele se sentiu feliz em não ter trazido Draco consigo. Ainda bem que o surfistinha-cabeça-de-parafina não quis ir. Quer dizer… Harry só não o queria ali porque… Bem, porque provavelmente ele sentiria ciúmes. Das meninas claro! Porque ele não queria dividir a atenção de todas elas com outro marmanjo. Obviamente era isso…
Depois da extensa lista de milhões de nomes, Gina falou para Harry:
“Senta aí que eu vou buscar algo para você comer.” então empurrou Harry para o sofá e se virou na direção de onde deveria ser a cozinha.
Harry sentiu-se levemente incomodado, podia sentir que alguém o observava, virou a cabeça e seu rosto encontrou duas orbes de uma azul acinzentado que tinham um formato levemente arregalado, dando à menina um ar meio sonhador.
“Você é Harry Potter.” não era uma pergunta.
“É, eu sei.” respondeu Harry para a menina de cabelos loiro sujo sentada ao seu lado.
“Você tem um flog chamado ’scardolll’.” Harry ficou surpreso com essa afirmação.
“É, eu tenho, como você sabe?”
“Eu vi dia desses…” respondeu com um ar sonhador “Você e um menino loiro, com cara de nojento.” ela não disse nojento em tom de ofensa, e Harry conclui que esta era uma menina realmente estranha.
“É o Draco.” Harry disse com um sorriso.
“Seu namorado.” também não era uma pergunta.
Harry abriu a boca, em choque, sem saber o que responder. Gaguejou uma resposta, mas o que ele diria? Negaria, claro. Porém, o que ela disse era verdade não era? Quer dizer, eles tinham um trato, no qual Harry se passaria por seu namorado certo? Sim, e daí, era só mentir para ela. Claro, faça uma cara de revoltado e negue… Anda!
“Aqui Harry.” Gina se sentou do outro lado do menino e lhe ofereceu um prato cheio de comida “Eu não sabia o que você queria, então peguei um pouco de tudo, tem aí todos os salgadinhos da festa, cachorro quente e batata frita também.”
“Ah, obrigado.” Harry se sentiu grato pela nova interrupção que o salvara, de alguma forma sentiu que queria estar o mais longe possível da garota de olhos arregalados.
“E aí, conversando com a Lu?” perguntou a ruivinha.
“Lu?” Harry perguntou de volta, com a boca já cheia de salgadinho de festa.
“É, Luna Lovegood.” No entanto, não foi Gina que respondeu, e sim a menina com que conversara há pouco. Harry engasgou, se sentiu um pouco sem graça, ele fora apresentado a ela também, mas no meio de tantos nomes femininos acabara não guardando o da garota.
“Quer um salgado?” perguntou ele tentando se retificar.
“Aceito.” Luna pegou um bolinho de queijo do prato de Harry, e ele sentira que enfim fizera algo certo.
“Mas então, o que você tem feito?” perguntou Gina, voltando a instaurar um tom de conversa “Ron disse que está estudando em Hogwarts, aquela escola inglesa, né? Dizem que é muito boa.”
“Ah, é sim.” Harry respondeu entre uma mordida e outra “Muito divertido, pessoas legais…”
“A Luna estuda em uma escola estrangeira também.” disse Gina, a atenção de Harry foi atraída novamente para a menina do seu outro lado, ela estava com o salgadinho a caminho da boca, entretanto, parecia ter esquecido de completar o movimento e encarava a janela de forma sonhadora, como se tivesse acabado de chegar ali por acaso. “Ela estuda numa escola russa.” continuou Gina, ao que Harry ergueu as sobrancelhas, uma coxinha na boca. “Ela tem uma bolsa lá, bolsa para super-dotados.” As sobrancelhas erguidas de Harry combinaram com seus olhos recém arregalados.
“Como foi que você conheceu ela?” perguntou Harry.
“Concurso de vôlei intercolegial.” foi Luna que respondeu.
“Você joga vôlei?” Harry fez a pergunta para o vento, sem saber se dirigia-se a Gina ou a Luna em específico.
“Sim.”
“Não.”
Tico e Teco entraram em conflito. Quem afinal tinha dito sim ou não?
Gina riu.
“Bem, eu jogo vôlei. A Luna não. Houve uma competição intercolegial sediada na escola da Lu, e foi lá que a conheci.” O jovem ainda não entendia direito como as duas haviam ficado amigas, percebendo isso - o que deixou-o surpreso - Luna completou:
“Gina ia jogar contra a minha turma, eu sou a representante de classe, ela a capitã, por isso tivemos que ser apresentadas e discutir alguns detalhes. E aí foi…” terminou ela de forma distante, como se estivesse sendo desligada.
“Ah.” Harry não tinha muito mais o que dizer, até porque agora tinha metade do cachorro quente na boca.
“Vivi²! Não prenda tanto esse menino aí com você, traga ele pra cá!” disse uma menina que Harry conseguia descrever apenas com uma palavra: grande. Não exatamente gorda, ou altíssima, mas ela era definitivamente, grande. Gina riu com o comentário da amiga e olhou para Harry como que pedindo a opinião, ao que ele deu de ombros.
“Pode ser.” disse por fim.
E lá estava ele, no meio de várias meninas sorridentes que inicialmente ficaram sondando-o, querendo saber da onde vinha, onde morava, o que fazia, quais os hobbies, e sempre que uma delas tinha algo em comum com ele (mesmo que fosse só gostar de milkshake de Ovomaltine) ela anunciava isso para todas a sua volta. Ele estava constrangido, e estava de saco cheio. Na verdade, estava quase desejando que não tivesse saído do lado da Luna, pelo menos ela não ficava dando aqueles risinhos nem enchendo-o de perguntas… Embora ela soubesse demais, por isso, era potencialmente perigosa.
“Harry! Harryzinho!” enfim ele reparou que uma das meninas mais cheia de risinhos o estava chamando, sem reparar ele estivera encarando Luna, que observava a janela de forma sonhadora. Que menina estranha… “Harryzinho, a gente tem uma pergunta pra te fazer.” Harry tremeu, não parecia que ia sair nada legal dali. “Qual de nós você…”
“Hey, Harry. Dá uma chegada aqui.” sem nem pensar duas vezes e nem pedir desculpa para as meninas, Harry se levantou e foi na direção de Gina, que o acabara de chamar.
“Sim, pois não?” perguntou ele ao alcançar a aniversariante.
“Quer refrigerante?” ela ofereceu, e Harry não pensou duas vezes em aceitar. Tomou o primeiro copo num fôlego só.
“Elas estão te incomodando muito?” perguntou a menina enquanto enchia o segundo copo. Harry levantou os ombros. “Elas são legais, é só que não sabem se comportar direito perto de um menino bonito, são meio assanhadas…” Gina riu, falava das amigas de forma carinhosa.
“Sem problemas.” Harry respondeu encarando o copo de refrigerante. Ele acabara de ser chamado de menino bonito, suas bochechas ardiam.
“Mas, se eu fosse você, ficava um tempo com o Ron e a Mione, ou então Fred e Jorge, se não da próxima vez não vou conseguir te salvar de lá tão fácil.” Harry sorriu de volta para a menina e foi na direção de Ron e Hermione. Estava se congratulando mentalmente por Draco não ter vindo, provavelmente agora ele estaria muito mal humorado com tanta garota insistente e grudenta… Ou estaria esparramado no meio delas, adorando a atenção…. Harry não saberia dizer qual das opções parecia pior.
“Olá pessoal.” disse ele cumprimentando os amigos.
E assim seguiu a festa. Harry não viu sinal dos pais de Ron, mas tudo ocorreu tranqüilo, ele ficou conversando com os amigos de infância e as meninas ficaram no canto delas, eventualmente lançando um olhar a Harry, uma piscadela ou soltando risinhos quando ele sorria de volta. Fora isso, nada de mais. O bolo estava ótimo, ele comeu dois pedaços.
Quando começou a ficar tarde ele foi até Gina.
“Tenho que ir, se não meus tios me matam.” Gina fez uma cara triste, e deu um abraço de despedida em Harry.
“Vê se não some de vez.” disse ela.
“Tudo bem, agora eu tenho seu msn.” Harry sorriu enquanto era conduzido em direção a porta. “Tchau pessoal.” disse ele dando um cumprimento geral para as meninas reunidas a um canto, já que se despedira anteriormente de Rony, Mione, Fred e Jorge.
“Tchau Harry.” elas cumprimentaram quase em uníssono, muitas soltando risinhos. Ele acenou uma última vez, e se virou para Gina.
“Ah… Se você puder, por favor, não passa meu msn para mais ninguém, ok?”
“Pode deixar, seu segredo está seguro comigo.” Gina disse em um tom divertido de cumplicidade.
“Tchau, até a próxima!” disse ele descendo para as vielas do morro. Ron não morava propriamente em um barraco, mas sim bem no pé do morro, em uma casa até grande, que só não tinha o reboco retocado há um tempo.
No meio da descida o menino encontrou uma figura com cabelos loiro sujo e mal cortados parada no meio do caminho olhando para o céu.
“Luna?” perguntou ele reconhecendo a figura que banhada pelas fracas luzes da viela parecia quase um fantasma. Atendendo ao chamado a garota se virou, e Harry foi mirado por duas orbes sonhadoras, a garota parecia que chegara ali por teletransporte.
“Ah, olá Harry.” respondeu ela com um ar de quem falava de outro mundo.
“Você já saiu faz tempo, o que está fazendo aqui?” ele perguntou alcançando ela.
“Estou perdida.” respondeu a menina como se falasse de uma bobagem.
“E você pretendia ficar aí parada no meio da favela?!” ele estava assustado com a reação displicente da menina.
“Eu estava apenas analisando o céu, não dá para ver muitas estrelas daqui.”
“É… Bem… Estamos no meio de uma cidade grande não é?” perguntou Harry.
“É…” respondeu ela com um ar vago.
Um tiro. Naquele momento eles ouviram o som de um tiro, o coração de Harry pareceu deixar de existir por um momento. Luna não se alterou nem por um instante.
O primeiro pensamento que passou pela cabeça do menino foi se atirar no chão e rezar a todos os santos de todas as religiões por salvação, mas então ele encarou as orbes curiosas de Luna e percebeu o quanto sua reação deveria ter parecido ridícula, talvez Draco estivesse certo em o chamar de estúpido.
Outro tiro. Novamente Harry achou que seu coração havia parado de bater, só que ao invés de se acovardar ele pegou Luna pelo pulso, sentiu a adrenalina jorrando por cada célula do seu corpo, não era hora de pânico, era hora de ação.
“Vamos.” foi só o que disse.
Alguns outros tiros esparsos, vindos de outras direções, a cada tiro ele achava que havia sido acertado, porém, mesmo assim continuava a andar firme segurando Luna pelo pulso e a guiando para a saída.
Em algum momento, quando ele tinha certeza que já estavam praticamente fora da favela, Luna enfim se pronunciou.
“Isso é um tiroteio.” de novo, não era uma pergunta.
“Eu sei.” disse ele de forma ríspida, sem parar de andar.
“É perigoso.” nem de longe Luna parecia alarmada.
“Sim, é por isso que estamos andando rápido.”
Por sorte deles a casa de Gina ficava perto do final da favela, local que não era nem de longe tão perigoso como dentro desta. Chegaram à rua São Clemente, onde havia pouco antes, ainda na calçada do morro, uma pracinha que estava apinhada com alguns carros da polícia e homens vestido de coletes a prova de bala com armas na mão.
“Armas…” mais uma vez Luna tinha um ar sonhador. Harry acelerou mais o passo, chegaram na rua e por sorte havia um ônibus parado no sinal logo a frente, Harry correu puxando Luna pelo braço.
“Sabe…” começou ela no meio da corrida “Esse ônibus não passa na minha casa.”
“Não importa!” ele quase gritou com raiva.
Pegaram o ônibus quando este estava quase saindo.
Após entrarem arfantes e cansados no ônibus e pagarem a passagem Harry se jogou em um banco.
“Ufa, essa foi por pouco!” disse ele limpando o suor da testa na munhequeira que usava.
“Eu moro na Barra.”
“Uhn.” Harry fez um muxoxo sem entender ao certo que nexo aquele comentário podia fazer.
“Esse ônibus vai para Niterói³.”
“Ah…” Bem, eles podiam hipoteticamente saltar em qualquer lugar… Se aquele ônibus passasse ou no Leblon ou em Ipanema eles estavam salvos.
Harry se levantou e foi até o cobrador, de fato, o ônibus passava pelo Leblon, o que deixaria Harry perto de casa e Luna em um local cheio de ônibus para Barra.
oOo
Draco pretendia ter ido dormir cedo. Ele detestava acordar amarrotado e cheio de sono para ir para o colégio no dia seguinte, mas algo o impediu. A insônia. Não era exatamente raro ele ter disto, todavia, já fazia tempos que não ficava revirando na cama sem sono.
O que ele fez? O que sempre fazia nessas crises, foi assistir um pouco de televisão. No meio do que quer que estivesse assistindo cairia no sono, quase sempre funcionava.
Lá estava ele passando os canais distraído, eventualmente soltando uns bocejos quase sempre forçados, quando resolveu parar em um canal que passava um programa humorístico (n/a: sorry, não tenho TV, nem sei a programação do que tem numa quarta de noite :X), Draco resolveu ficar naquele programa porque achava programas humorísticos um saco, quase nunca ria das piadas.
Porém, o programa acabou e ele continuava acordado, entediado, mas acordado. Então começou o noticiário da madrugada, algumas notícias bobas, umas manchetes chatas… Até que foi anunciado:
“E agora a noite noite, teve início em uma das favelas do Rio, um tiroteio. Policiais dizem que é devido a um desentendimento interno entre facções. Mais informações ao vivo direto do Morro Dona Marta.”
Draco piscou um pouco menos entediado. Dona Marta? Não era a favela que Harry ia numa festinha de criança regada a funk? Draco se levantou um pouco e prestou atenção no que a repórter que falava perto do morro estava dizendo.
Será que Harry ainda estava lá ilhado pelo tiroteio?
Draco coçou o nariz tentando se distrair. Que diferença fazia isso? Tinha tiroteio no morro o tempo todo e nem por isso morria todo mundo não é? Será que…
Harry entra no morro de forma saltitante e serelepe com seu jeito gay e emo, obviamente ele chama atenção de todos por conta de sua emozisse ridícula. Um traficante resolve ver qual é daquele moleque estranho, Harry o responde com toda a sua idiotice, acaba desrespeitando o traficante e toda a sua ordem estipulada no mundo da favela. Mas então, aparece o tal amigo de Harry, chefe da outra facção ali existente, ele tenta salvar o emo. Porém, para isso precisa ‘soltar bala’ nos outros traficantes. Harry fica no meio do fogo cruzado e na confusão é preso pela facção inimiga, vira a arma deles contra a outra facção que continua atirando, aproveitando a confusão para tentar tomar a boca dos outros traficantes. No tumulto, Harry fica encolhido e chorando enquanto os traficantes abusam psicologicamente dele, assustando-o tremendamente. No entanto, na hora da algazarra, quando enfim o amigo de Harry consegue invadir aquela boca onde ele estava preso, o resgata e Harry o abraça longamente enquanto este continua dando tiros nos outros traficantes que ousaram molestar Harry. Ele então é levado para uma das bocas seguras de seu amigo traficante e enquanto suspira extasiado pela coragem do amigo, ele espera na boca de fumo que pode ser atacada a qualquer momento, aquilo vira uma guerra de facções por mais pontos de venda de drogas, e Harry está lá no meio, podendo ser morto a qualquer momento e cada vez mais se apaixonando pelo amigo traficante-musculoso-corajoso-e-cheio-de-testosterona.
Não… Quer dizer, ele nem sabia como era esse tal amigo do Harry! Provavelmente era só outro emo idiota, gay e afeminado. E na verdade, talvez - ou provavelmente - esse tiroteio não teria sido culpa de Harry, ele nem deveria estar mais lá a essa hora! Já devia estar em casa dormindo tranqüilo abraçado com seu ursinho emo de pelúcia… Será?
Draco se corroeu por dentro, embora seu lado racional o estivesse xingando com bastante ênfase por ser tão idiota. Mesmo assim, quando enfim, pegou no sono. Sonhou com Harry e o traficante-musculoso-corajoso-e-cheio-de-testosterona e o quanto ele fora idiota de deixar o emo maluco-bicha-nada-importante-para-ele ter ido naquela festa sozinho. Idiota!
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