Conversa de bar - Capítulo 1

[Conversa de bar]

Eu olhei nos olhos dele. Azuis. Apenas levemente mais escuros que os meus. A pele visivelmente mais bronzeada e os cabelos ruivos que costumavam ser igualmente mais escuros que os meus, estavam agora em um tom desbotado, graças ao sol.

As mãos dele, grandes e quadradas, brutas e calejadas pegaram o copo a sua frente, ele tomou um grande gole de cerveja amanteigada e sorriu com aqueles lábios levemente ressecados, que ainda assim lembravam os macios e róseos lábios que ele sempre teve por toda a infância. Ele passou a outra mão pela gola do casaco e coçou as costas - sempre torneadas e bronzeadas - e eu pude ver brevemente a tatuagem de dragão.

Sorri enquanto pegava o meu próprio copo e tomava um longo gole, meus olhos ainda nele.

“Eu lembro quando você apareceu com essa tatuagem em casa.”

Por um momento ou dois ele me encarou, tentando entender do que exatamente eu falava, logo um sorriso, um daqueles largos e convidativos, surgiu no rosto dele.

“É, mamãe não gostou nem um pouco.”

“Eu achava que você ia esperar até sair de casa para fazê-la. Eu nunca duvidei que um dia enfim realizaria o sonho antigo, mas eu achei que fosse ser mais cauteloso.”

Ele riu novamente.

“Você sabe que eu nunca me importei com muitas coisas.”

“E sempre foi um impulsivo cabeça-dura” acrescentei eu acompanhando-o na gargalhada.

“Bom, ela sobreviveu, não é?”

“Aposto que ganhou muitos cabelos brancos antes do tempo.”

“Mas ela sobreviveu” disse ele fazendo um gesto vago com a mão, como se só isso importasse.

Um silêncio calmo e espontâneo surgiu entre nós. Quando duas pessoas pareciam se conhecer tão bem quanto nós, palavras passam a ser um pouco menos necessárias, elas só trazem a um nível palpável aquilo tudo que nós já sabemos dentro de nós.

“Como vai o trabalho?” Perguntei após um tempo, querendo apenas poder ouvir a voz dele. A voz grossa e profunda, risonha e leve.

“Você sabe, dragões, essas coisas. Tudo na mesma” eu ri de seu comentário despretensioso.

“Oh sim, lidar com dragões, um tédio só. Imagino.”

“Ah, você não quer ouvir sobre dragões, assim como eu não quero ouvir sobre runas nem galeões” disse ele tomando mais um gole de cerveja.

“Ok, então vamos falar de algo menos chato para nós dois” eu disse tomando também um gole, e o encarando com um olhar pretensioso. “Vamos falar sobre a vida pessoal. Como vai a sua?”

Como eu esperava, ele engasgou, rapidamente se recompôs, sorriu sem graça.

“Você sabe que eu não gosto de falar sobre isso…” coçou a cabeça, meu sorriso aumentou.

“Por que não?” Perguntei dissimuladamente.

“Bom, da última vez que eu tentei ser sincero com você sobre a minha vida pessoal, acabamos expulsos do bar por causar uma briga.”

“Sim, mas você tinha me pego desprevenido” eu apontei sem deixar o sorriso morrer em meu rosto. “Agora, eu tive tempo para pensar no assunto, e não vejo problemas em ouvir o que você tem a dizer.”

Ele riu. Talvez não como sempre, não tão naturalmente. Ele estava apreensivo, e eu estava disposto a consertar as coisas do passado, por mais que tenhamos fingido por anos que esquecemos.

“Vamos, podemos ter essa conversa” insisti.

Ele suspirou, passou a mão pelos cabelos ondulados que estavam mais compridos e rebeldes do que nossa mãe aprovaria. Pareceu pensar por um ou dois instantes. Tomou novamente um gole da sua bebida, pôs o copo sobre a mesa, me encarou nos olhos. Tentei parecer firme, embora quisesse rir de toda a indecisão dele. Às vezes ele podia ser um tanto quanto dramático.

“Bem, se você prometer que não vai começar a discutir comigo nem sair brigando…”

“Ah, vamos lá, eu não tenho mais 19 anos!” disse já perdendo um pouco do meu bom humor. Estava sendo mais difícil do que eu pensava.

Ele riu da minha irritação. Às vezes ele parecia ser o mais velho, não eu.

“Ok, o que você quer saber da minha vida pessoal?”

Percebi de repente que todo o meu corpo estava tenso. Respirei fundo, me ajeitei na cadeira, tomei o resto da cerveja de um gole e balancei a cabeça, relaxando o pescoço. Voltei a sorrir, me senti melhor, ainda que a tensão latente na minha espinha indicasse que minha irritação não desaparecera de todo.

“Eu já disse, conte-me como vai a sua vida pessoal. Como diria mamãe, conte-me por que você ainda não achou uma boa garota e se casou?”

Ele riu, eu sorri, relaxei um pouco mais.

“Bom, se você fosse a mamãe, eu te diria que meu trabalho vem em primeiro lugar. Não tenho tempo para relacionamentos.”

“Mas a verdade é…”

“A verdade é que, bem, eu acabei de sair de um relacionamento ruim.”

“Por isso,” eu disse apontando minha caneca para ele antes de tomar um gole “você está aqui.”

“É, de certa forma.” ele me encarou com uma sobrancelha levantada “Digamos que estou… matando dois pufosos com um avada só.” apoiou o copo na mesa ao dizer isso, seus olhos ainda em mim, os meus nos dele.

Não sei se tratava-se unicamente de um olhar que tenta me dizer alguma coisa ou um olhar avaliativo, esperando a minha reação. De qualquer forma, eu não ia ferrar tudo novamente.

“O quê, então não estava bom o suficiente para você?” perguntei displicentemente com um sorriso. Eu sabia que nada seria bom o suficiente para ele. Charlie sempre foi como eu, e às vezes até mais. Ele queria ser o melhor, fazer as coisas melhores, ter o melhor. Não que nós soubéssemos isso desde sempre, mas estava de alguma forma no nosso sangue.

“Nem todos temos a sua sorte, de encontrar o ‘melhor’.” eu pude captar sarcasmo na voz dele, mas preferi ignorar.

“Sabe que no meu casamento havia muitas primas veela… Se não me engano, alguns primos também.”

Ele riu desse meu comentário, mas eu continuei sustentando o seu olhar.

“Você sabe que eu não vou seguir seus passos. Nunca o fiz, e não vou começar agora.” ele ainda estava risonho, mas as palavras dele eram duras.

“Você sempre foi mais longe não é?” eu perguntei contemplando meu copo vazio exceto por um resto de espuma. “Eu fui o melhor aluno do meu ano em feitiços, você foi em feitiços e transfigurações. Eu fui monitor, você foi monitor e capitão do time de quadribol. Eu consegui um emprego fora do país dois anos depois de me formar, você conseguiu assim que saiu de Hogwarts.” não, eu não estava ressentido, inveja nunca foi o meu forte. Estava apenas atestando alguns fatos. “Eu casei com uma das mais belas, inteligentes e perfeitas mulher que deve existir nesse mundo, mas você sempre esteve um passo na minha frente…” eu estava pensativo. Será que apenas uma vez eu o tinha ultrapassado?

“Ah, e eu continuo à sua frente. Eu sou gay” o sorriso dele era tão largo, tão sincero e divertido com a conclusão que chegara que eu tive de sorrir junto.

“Então aí estamos. Você está me dizendo que ser gay é ser melhor?”

“Acho que sim” ele bebeu mais um gole do copo, sorvendo até a última gota. “Palavra de quem já experimentou os dois lados da moeda. Você já?”

Eu ri. Meu irmão podia ser sempre divertido, mesmo quando ele falava sério.

“Não, como eu disse, você está sempre um passo à minha frente.”

“Bom, não vejo porquê essa condição tenha de ser eterna” e ele me encarou com aqueles olhos azuis apenas alguns tons mais escuros que os meus, e por um momento me senti absorto e perdido em algo que eu não esperava. Havia de repente na minha frente uma charada, como runas prontas a serem decifradas, quando interpretadas corretamente me levariam às respostas certas e eu acharia o tesouro. Bimblom. A sineta soou, eu ganhara o prêmio.

“Ah não. Acho que já é um pouco tarde demais para mim” e com um sorriso entre o conformado e o divertido, eu ergui minha mão esquerda e mostrei a ele a aliança. “Como eu disse, estou sempre um passo atrás” pisquei.

Aproveitei o breve silêncio e pedi mais uma rodada de cerveja para nós dois. Continuamos em silêncio até as cervejas estarem em nossa mesa e a atendente ter desaparecido novamente.

“Você sabe que essa aliança não significa que você foi morto e enterrado, não é?” Ele disse se inclinando na minha direção e falando em tom de sussurro, como se estivéssemos confabulando algum plano secreto ou algo que não pudesse ser dito em voz alta.

“Bem, não estou morto, mas não há a menor chance de trair a minha esposa. Seja com homem ou mulher” eu disse em tom de segredo também. Na verdade, não levara, nem por um segundo, a afirmação do meu irmão a sério. Ele sempre foi brincalhão.

“Então continue sem saber para sempre o que é melhor” disse ele sorrindo relaxado e brindando a alguma coisa que eu não compreendia. Ainda assim ergui o meu copo e com um olhar confuso sorri, participando do brinde a nada.

Um silêncio se instaurou novamente, e dessa vez meu cérebro não me deu paz. Eu fiquei pensando. Pensando no que Charlie havia acabado de me dizer. Seria uma proposta? Uma idéia, uma indireta ou ele só estava jogando um verde? Meus olhos foram até ele, encararam seu rosto largo ainda risonho olhando aparentemente concentrado o próprio copo. Meu irmão mais novo – agora nossa diferença de idade parecia simplesmente irrelevante – sempre conseguira ser o que ele queria e ainda assim orgulhar todos a sua volta. Eu não tinha por quê me sentir mal ou algo do tipo, eu sempre fui feliz sendo apenas eu. Além de amar meu irmão incondicionalmente, desde sempre. Eu era um dos que sentiam orgulho dele. Sorri.

“Obrigado por perguntar” ele disse quebrando o silêncio. Eu me perguntei como podia ter esquecido o quanto a voz dele era tão macia, boa de ouvir.

“Pelo o quê? Por perguntar pela sua vida pessoal?” Eu sorri enviesado, ele não tinha nada do que se sentir grato. Eu estava sendo apenas um bom irmão, como deveria.

“Bom, contando com a última vez que eu fui sincero com você…”

“Você nunca vai esquecer, não é?” Perguntei pela primeira vez me sentindo levemente envergonhado e triste.

“Já esqueci” ele ergueu o copo e sorriu. “Como vai a Fleur?”

“Bem. Ela está feliz de ter voltado com seu emprego no Gringotes.”

“Ela já aprendeu a aprimorar o sotaque?” e ele riu. Eu sorri torto de novo.

“Eu desconfio que ela tem a intenção de continuar com ele por um bom tempo. Eu disse uma vez para ela que achava charmoso.”

“Ah!” ele disse rindo novamente “Isso explica muita coisa.”

“Bom, eu não sabia que ela manteria o sotaque só por mim.” e eu ri também. Fleur era uma pessoa definitivamente romântica, eu sempre gostei disso. “Mas você enrolou e ainda não me contou como vai a sua vida.”

“Bem, eu já disse, acabei de sair de um relacionamento ruim.”

“Ruim em que sentido? Preciso ir tirar satisfações com esse cara por ter mexido com meu irmão mais novo?” Na verdade, eu tinha a intenção de falar irmãozinho, contudo, embora Charlie fosse mais baixo que eu, era consideravelmente mais largo, e não tinha nada de “inho”.

“Não se preocupe. Sabe, eu sei me defender sozinho” apesar do rosto sério, eu podia ver seus olhos sorrirem, eu sempre achei esse efeito fantástico. Acho que nunca conseguiria fazer apenas meus olhos sorrirem.

“Ah, eu imagino. Quem consegue desacordar um dragão não deve ter problemas com um cara.”

“Hahahahahaha. Quem dera fosse tão fácil” e o sorriso em seus olhos pareceu se apagar por um breve momento.

“Coração partido não é fácil” eu suspirei. “Mas sempre temos os irmãos para nos apoiar” eu pisquei e bati no ombro dele.

“Sabe Bill, senti a sua falta.”

Aquilo me pegou desprevenido. Eu pisquei algumas vezes ainda com a boca na borda do caneco.

“Bom cara, eu também” dei de ombros. Infelizmente eu me acostumara à ausência dele. Ainda que apreciasse sua presença.

Bebemos mais um pouco e dessa vez o silêncio perdurou até nossos copos estarem novamente vazios. Eu encarava o bar a minha volta e eventualmente Charlie, que parecia concentrado em seu próprio copo e em olhar por algo sobre o meu ombro. Quando as cervejas acabaram, meu irmão pareceu cansado de algo tão fraco quanto aquilo e pediu duas doses de uísque de fogo.

“Isso,” disse ele erguendo o copo “é bebida de verdade.”

Brindamos novamente a nada, eu tomei um gole grande de uísque. Senti o calor percorrendo a minha garganta e aquecendo-me por inteiro, como se eu ganhasse de repente um novo ânimo.

“Sabe, você tem razão” disse eu após terminar a primeira dose e pedir a segunda. “Ser gay é bem melhor. Se você briga e fica zangado, pode simplesmente dar um soco na pessoa, entende? Não tem que tentar compreender os sentimentos confusos e desconexos dela.”

Charlie riu.

“Estamos falando de um relacionamento romântico Bill, não de uma amizade, você ainda tem que entender os sentimentos da outra parte.”

“Ah, mas entender um cara é mais fácil, não é?” Perguntei tendo a noção de que soava meio ridículo.

“Quem dera” e Charlie pareceu ficar de repente melancólico. Eu não o via assim há muito tempo, acho que me acostumei a vê-lo sempre risonho e alegre. Antes que eu percebesse já havia arrastado a minha cadeira para o lado dele e passado meu braço pelos seus ombros.

“Você é um ótimo irmão. O irmão perfeito. Tenho certeza que o problema é o outro cara, aquele idiota” eu xingava e nem ao menos sabia quem, só tinha certeza que a culpa não podia ser de Charlie, não havia outro coração tão grande quanto o dele no mundo todo.

“É fácil ser seu irmão, Bill” ele sorriu, ainda que tivesse um ar melancólico.

“Não seja hipócrita” eu disse fazendo um gesto vago com a mão que estava sobre os seus ombros largos “Se eu fosse um bom irmão teria te apoiado desde que você resolveu me contar que gostava de caras, mas eu não apoiei, não é?”

“Você está apoiando agora, é o que importa” dizendo isso ele bateu de leve na minha coxa com a mão, tomou mais um gole de uísque. Não consegui desgrudar os olhos dele por um tempo, simplesmente não sabia o que estava se passando. Minha mente ficou vazia por uns instantes, meu coração acelerado e meu estômago parecia pressentir algo perigoso, já que havia fugido das minhas entranhas. Um calor estranho subiu para o meu rosto e me dei conta da minha boca tolamente aberta, meus olhos ainda fixos no meu irmão. Encarei o copo em minha mãe e terminei a bebida em um longo gole, fiz uma careta quando senti a garganta queimando em protesto. Sacudi a cabeça afastando pensamentos que eu não queria, fiquei tonto com o movimento, ainda assim, pedi mais uma dose.

“Desse jeito você vai chegar em casa bêbado” ele comentou me olhando de esguelha com um sorriso.

Eu ri sem jeito, sabendo que as palavras dele eram verdade. Porém, de alguma forma eu me sentia seguro com a bebida naquele momento. Talvez ela me salvasse de mim mesmo e me fizesse esquecer. O que eu queria esquecer ainda era uma pergunta sem resposta. Tomei mais um gole de uísque, assim que ele chegou, dessa vez tentei ser comedido.

“Quanto tempo você vai ficar mesmo?” eu perguntei, e tinha a leve impressão de que era a terceira vez que fazia essa pergunta.

“Não sei, tirei dois meses de férias que eu juntei durante algum tempo. Vou ficar o quanto precisar.” sua voz tinha ainda um tom melancólico.

Céus, quem poderia ser esse cara que simplesmente transformara o meu irmão sorridente e vigoroso naquela porcaria triste e deprimida?

“Vou gostar de ter você por perto durante tanto tempo” eu disse com sinceridade, sabendo que mesmo sendo até uma frase corriqueira, naquele momento ela soou estranha. Ele riu.

“Eu também” e não se importou em se acomodar mais perto, meu braço ainda no seu ombro. Eu senti o calor do meu irmão, minha mão pousada sobre a sua pele áspera, tomei mais um gole da bebida e percebi que o cabelo dele tinha um cheiro interessante. Nada realmente fabuloso. Algo que lembrava óleo sereiano e um cheiro levemente chamuscado, uma combinação estranha que não era de todo ruim. Analisei o meu copo como se ele fosse a coisa mais interessante do mundo. Do nada – ou não tão do nada assim – veio a minha mente uma lembrança inusitada.Antes que me controlasse já tinha virado para ele, encontrando seus olhos me encarando pensativamente. Aquilo era um aviso, uma parte de mim sabia: devia ficar calado. Talvez se eu não tivesse bebido tanto, pudesse ter me contido. Talvez eu nem deixasse aquela lembrança vir a tona. Mas a verdade é que eu estava bêbado e me deixei levar.

“Lembra quando a gente tinha 14 anos?”

“Ahn… tem dois anos de diferença entre nós.”

“Sim, eu sei” revirei os olhos, por que às vezes as pessoas pareciam querer as coisas tão minimamente explicadas? “De qualquer forma, eu tinha 14, você 12… só não me lembro se já estava quase fazendo 13…” eu meditei por algum tempo, mas a resposta não me veio, e ele riu. Provavelmente do meu ar meditativo, aposto.

“Sim, e o que tem?”

“Ah, você tem que lembrar!” eu disse rindo. Ele fez um semblante indagativo. “Seu primeiro beijo, oras!”

Seu semblante ficou automaticamente nublado, me surpreendendo.

“Por que você resolveu falar disso? Eu achei que era algo que já tivéssemos superado desde muito tempo.”

Eu o olhei sem entender.

“Ué, superar já superamos, mas não sabia que isso significava se tornar um tabu.”

“Você está bêbado” ele constatou com um sorriso querendo brincar em seus lábios, mas eu conseguia quase tocar a sua falta de humor.

Eu o encarei. Qual era o real problema dele? Eu simplesmente não conseguia entender. Estreitei os olhos e me aproximei, como se encará-lo tão fixamente fosse me fazer ver por de baixo de todas as sardas, pele e osso enxergar o que seu cérebro pensava. A única coisa que eu consegui na verdade foi que ele parecesse repentinamente incomodado, retirou meu braço dos seus ombros e se afastou um pouco.

“Você não está ajudando” ele disse em um resmungo.

“Ajudando a…?”

“Ajudando. Só isso” ele bebeu o resto do seu copo num gole e colocou algumas moedas sobre a mesa. Entendendo o que ele queria, terminei também o meu copo - ainda que tenha me sentido tonto depois de um gole particularmente grande - e coloquei minhas moedas também na mesa.

“Como eu poderia te ajudar?” Perguntei sentindo minha cabeça rodar um pouco quando levantei. Ri daquilo.

“Tentando evitar os assuntos incômodos.”

“Nosso beijo é um assunto incômodo? Ouch! Eu não sabia que beijava tão mal assim…” eu comentei entre o revoltado e o divertido. De repente senti novamente que Charlie era mais novo que eu. Meu irmão menor e menos experiente.

“Bill… você está pisando em ovos” ele disse repentinamente sério demais.

Eu olhei para baixo assustado. Mas na saída do bar, nem na frente e nem atrás não havia sinais de ovos no chão ou qualquer coisa do tipo.

“Não vejo ovos nenhum” comentei mal humorado ainda observando meus sapatos. Olhei para Charlie em tempo de vê-lo rodando os olhos.

“Deixa pra lá. Apenas não falemos disso.”

Andamos alguns passos e eu fiquei em silêncio. Meu cérebro trabalhando sem parar, ficar calado parecia incômodo. Eu estava em um humor verborrágico, queria ouvir a voz de Charlie.

“Qual o nome dele?” Eu tenho certeza que a intenção era soar levemente curioso e desinteressado, contudo, eu mesmo quando ouvi meu tom me dei conta de que parecia… ciumento, abrupto, irritado.

Charlie me olhou de lado, percebendo tanto quanto eu o tom que usei. Ainda assim, ele me respondeu, descontraído.

“Joshua Leden” ele percebeu que só isso não me satisfaria, por isso continuou. “Ele trabalha comigo na Romênia, no setor de preservação da reserva. Ele cuida da parte de manter os trouxas longe e as espécies de plantas mágicas que se proliferam graças à presença dos dragões sob controle.”

Andamos alguns passos em silêncio, eu sentia o sangue pulsando no meu ouvido, a garganta seca. Charlie resolveu continuar falando. Eu sentia que ele precisava daquilo, ele precisava botar para fora e contar para alguém.

“A gente se conheceu, claro, no trabalho. Mas só conversamos de verdade nas festas. Ele é um cara engraçado, bonito e inteligente. Na verdade, ele nem parecia gay visto a distância. Foi ele que chegou em mim. O sexo com ele era maravilhoso” Charlie riu, e eu percebi que doía. “Bom, ele pedia sigilo sobre o nosso relacionamento, e por mim não tinha problema Você sabe que eu sempre gostei de ser discreto e nunca quis ninguém comentando o que eu faço ou deixo de fazer, por isso achei razoável…” ele suspirou, percebi que me encarava. Tentei relaxar meus ombros e parecer tranqüilo, mas eu não estava tranqüilo, jamais poderia estar enquanto meu irmão parecia sofrer. Ele continuou a falar, desviando o olhar. “Eu fui tão idiota, Bill. Tão imbecil.”

Senti vontade de negar o que ele dizia, Charlie poderia ser tudo, menos idiota. Porém, meu irmão continuou a falar e eu permaneci em silêncio.

“O problema todo foi que eu acabei me apaixonando perdidamente por ele. Adorava passar as tardes sentado ao lado dele, ou as noites abraçado, os dias conversando - mesmo que sobre trabalho. E então eu cometi a estupidez de me entregar completamente a ele. Sempre disse para mim que amor era coisa de pessoas burras, e logo eu, exatamente eu que nunca quis me envolver demais com ninguém, estava literalmente de quatro por ele” Charlie riu da própria piada e eu me vi obrigado a acompanhá-lo, ainda que o comentário tenha me incomodado. “Sabe qual foi o problema, Bill?”

Ele voltou a me encarar e dessa vez eu correspondi o olhar, sem saber o que responder apenas sorri sem graça e levantei os ombros.

“É, você não sabe qual o problema, porque você afinal está casado e feliz. Você sempre foi bom em relacionamentos e nisso - se você quer realmente saber - você me ganha.”

“Ah, eu sabia que eu tinha que ser melhor que você em alguma coisa!” Comentei antes de conseguir me conter. “Mas… qual o problema, então?”

“O problema é que só eu me apaixonei ali, Bill. E quase um ano depois que começamos, ele resolveu que estava na hora de buscar algo sério. Agora ele está noivo de uma colega da área de herbologia” encarei-o chocado e ele fez um sinal de conformidade. “Mas o que me fez… tirar essas férias, não foi só isso. Joshua me disse que não queria terminar, gosta de… da nossa relação, a noiva é só em nome da carreira, em nome dos herdeiros que ele pretende ter. Imbecil” a voz de Charlie tremia enquanto falava, parecia estar querendo cuspir algumas coisas engasgadas na garganta. “Seria fácil mandar ele para o lugar que merece, se… se como eu disse, não tivesse ficado tão envolvido. E eu fiquei por quase um mês inteiro sendo amante dele. Amante. E vendo-o com a noiva… aquilo não me parecia nem um pouco com uma obrigação. A forma como ela olha ele, toca, fala, beija… Isso é loucura, eu não vou ficar envolvido com alguém que vem atrás de mim apenas pelo sexo. Tudo bem que eu não fico por aí dizendo a Deus e o mundo sobre a minha sexualidade… mas enganar as pessoas por causa… por causa da carreira ou algo assim?! Porra!”

Eu não podia ao menos acreditar que alguém… qualquer um, uma pessoa, um ser, um imbecil, poderia ter feito algo com o meu irmão. Ninguém jamais deveria ter em mãos os sentimentos dele! Principalmente alguém que não fosse guardar esses sentimentos com cuidado e ternura, zelar por eles de uma forma que eu nunca consegui fazer, por ser egoísta. Charlie merecia muito mais da vida.

Então eu vi uma lágrima escorrendo pelo rosto do meu irmão. Eu não o via chorar desde os 13 anos. E não o abraçava espontaneamente desde os 15 - quando ele disse que eu tinha de parar com esse tipo de coisa. E agora, tantos anos depois, eu pela primeira vez desrespeitei o limite que ele impusera. De fato, o cheiro do cabelo de Charlie era afrodisíaco assim, tão de perto. Meu maxilar roçava na pele do rosto dele, na pele áspera com a barba por fazer. Senti um espasmo de prazer.

A princípio ele apenas se deixou abraçar. Nem afastou, nem se aproximou. Eu estava prestes a libertá-lo, me sentindo levemente ridículo e pela primeira vez consciente de que eu havia bebido um pouco demais, quando Charlie levantou um braço e encostou a mão nas minhas costas. Um ato tão pequeno e simples que me fez querer abraçá-lo ainda mais apertado. Contudo, me contive antes de passar dos limites. Eu conheço Charlie bem o suficiente para saber jamais se deveria tentar prendê-lo, mesmo que em um abraço, ou ele fugiria, escorregaria por entre meus dedos e iria embora. Eu não queria isso.

“Você é um bom irmão” ele repetiu.

“Não sou. E você sabe disso. Posso ser um bom irmão para todos os outros, mas não para você. Nunca fui.”

“Eu já te perdoei há muito tempo, Bill.”

“Eu nunca me arrependi para merecer o seu perdão.”

Charlie estremeceu, então relaxou um pouco mais após um suspiro, seu outro braço foi até as minhas costas, nosso abraço estava completo.

“Você é tão estranho” a voz dele era baixa, cansada. Eu ri.

“Só com você.”

“Por que?”

“Porque você vai ser sempre meu primeiro irmão mais novo” essa frase soou completamente errada. Principalmente com os eventos que a sucederam. Eu me afastei do abraço, Charlie também. Ficamos um de frente para o outro. Então Charlie afastou uma mecha do meu rosto, um ato tão… inusitado, tão estranho. Algo tão pessoal e íntimo que ele não fazia desde nossa infância. E eu aproximei meu rosto, próximo demais, os lábios se encontraram e houve o beijo. Duro, seco, maravilhoso.

Era a segunda vez que fazíamos aquilo.

A primeira fora há muitos e muitos anos, quando éramos duas crianças tolas, e eu um irmão mais velho particularmente relapso, que achou que seria divertido provocar o irmão mais novo até que houve uma briga. Empurrões, chutes, pontapés, rolamos pelo chão, algo tão normal e corriqueiro… E logo eu achei que uma boa forma de vencê-lo ela imobilizando-o com a única coisa que ele não gostava: beijos.

Eu achei que seria bem engraçado, ri assim que vi que minha tática havia dado certo. Foi a partir daquele momento que Charlie nunca mais foi o mesmo, e algo se quebrou entre nós. Éramos tão novos, e todos acharam que nosso afastamento era natural. Continuamos grandes amigos, cordiais, divertidos… Mas ele não era mais o meu irmão inseparável. Nunca mais foi.

Quando a idade foi passando, eu resolvi reatar o assunto, colá-lo contra a parede, foi quando ele me revelou que por culpa minha, pelo que eu tinha feito, ele havia se tornado gay. O que foi um argumento ridículo, e por isso caímos em uma briga desesperada. Ele queria me ferir, não só fisicamente. E eu queria atingi-lo, destruí-lo e afastar de mim a culpa de qualquer coisa. Claro que depois, como bons irmãos que éramos, nos reconciliamos ao poucos. Cada um pediu desculpas e desmentiu o que havia dito de cabeça quente. As verdades daquela briga nunca mais foram citadas. Ficaram enterradas no passado, junto inclusive da revelação da sexualidade do meu irmão.

Mas eu queria evoluir. Eu queria seguir em frente, eu queria provar para ele que não era minha culpa, eu queria mostrar que sabia lidar com o assunto. Até eu dizer aquela última frase, até eu me dar conta que… Droga! Eu não podia evitar sempre o meu irmão mais querido, mais amado, apenas porque… apenas porque… ele tem o mesmo sangue que eu.

O peso dessa constatação caiu sobre os meus ombros como um quilo de realidade. Eu dei um passo para trás, assustado.

Houve um momento de silêncio. Nós nos encaramos, eu sentia medo, nojo, raiva – e não sabia a que exatamente cada um desses sentimentos se referia. Charlie parecia tão ou mais confuso. Eu sentia que naquele momento ele era um espelho de mim.

Até essa imagem ser quebrada, ele estava um passo a frente, sempre. Mais uma lágrima escapou dos olhos dele, escorrendo por aquele rosto de maxilar largo, expressão dura, olhos vivos e jeito forte. Aquela pequena lágrima rachou o espelho e mostrou ao mundo as nossas diferença gritantes. Quando aquela pequena gota atingiu o chão, eu senti o meu coração caindo junto com ela, se despedaçando em milhões de pequenos pedaços.

“Charlie… desculpa” mentira. Uma grande mentira. Eu não queria pedir desculpas! O gosto amargo da falsidade escorreu pela minha boca, percorreu o chão e subiu pelo corpo de Charlie, até atingir seu tórax, fazendo-o estremecer.

“Bill…”

“Não. Retiro o que disse. Não me desculpo.”

Charlie me olhou parecendo perdido. Eu não podia culpá-lo, meu mundo parecia girar em um caleidoscópio alucinado. Eu já não sabia que parte daquilo era culpa da bebida e que parte eram meus próprios sentimentos confusos.

“Você não pode retirar uma desculpa” ele sorriu irônico. Seu sorriso parecia quebrado, em pedaços no chão ao lado do meu coração. Eu pus a mão nos ombros dele, Charlie se encolheu levemente, mas não fugiu.

“Vamos para casa. Você fica no quarto de visitas.”

“Não. Eu para A Toca.”

“Não seja idiota. Fleur está viajando.”

“E exatamente por isso eu vou ficar na casa dos nossos pais. Se quiser, me visite lá” ele foi duro, direto, e sua voz baixa gritava nos meus ouvidos, espancando-os com sua frieza. Desvencilhou-se de mim, e andou em frente.

E eu fiquei para trás. Porque Charlie estava sempre um paço à minha frente em tudo. Eu não era melhor em relacionamentos do que ele, ou não estaria ali, perdendo meu irmão. Meu melhor amigo. O cara que eu mais amei nesse mundo. Me senti um merda, mas não fui atrás dele. Eu sempre estive um passo atrás, não tinha coragem de ser o que bem queria. Desculpe Charlie.

Mas eu sabia que logo voltaríamos a nos falar normalmente, como sempre. Catei os pedaços do meu coração no chão, sabendo que com certeza pelo menos um pedaço acabaria ficando para trás, e fui para casa. Eu sempre estive um passo atrás, era um covarde. Desculpe, Charlie, mas eu te amo.

E fui em frente, para casa, para a segurança da normalidade. Os pedaços do meu coração ainda na mão. Desculpa mesmo.

FIM


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