Flashes de uma história - Capítulo 2

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[Porco Aranha]

Agora já fazia cinco meses que estavam morando juntos, que dividiam muitas coisas. Poderia até parecer pouco tempo, contando com os anos que já se conheciam, contando com a idade do mundo e com a rapidez como a vida pode passar, mas cinco meses para eles era como uma vida toda. Como eles poderiam ter perdido tanto tempo sem aquilo?

Cinco meses eram como anos e anos em que descobriam fantásticas coisas novas sobre o outro, fantásticas, assustadoras, irritantes, óbvias e mais um monte.

Draco odiava a mania de Harry de nunca tirar as meias. Ele ficava pelado, mas não tirava as meias, só quando fosse tomar banho, então do lado do boxe se formava uma pequena pilha de meias, um hábito horrível! Já imaginou como é ridículo alguém completamente nu… só com meias? Draco odiava.

Harry se irritava com a toalha. No banheiro havia um local específico para as toalhas serem postas, no entanto, Draco insistia em colocar aquela droga no suporte da cortina, o que atrapalhava na hora de usar o boxe. Por isso era comum encontrar as toalhas de grife e bordadas por alguma criatura escravizada de Draco jogadas no chão ao lado da privada. E lá vinha mais briga.
Porém, Draco adorava a comida de Harry. E adorava aulas de culinária. Ele obviamente nunca havia aprendido a cozinhar antes, e nos anos em que estava na pior e tinha que se virar, alimentara-se de gororobas, horríveis por sinal, feitas por ele mesmo. Draco gostava das aulas de culinária de Harry, principalmente a de pratos doces, pois no final sempre terminava coberto de chantilly, sendo limpo por Harry, que lambia todo o corpo do parceiro em busca de resquícios do doce. Eventualmente Draco também terminava limpando oralmente o chocolate do corpo de Harry, ou com o que quer que ele tenha acabado sujo. Era muito bom, e ainda bem que a mesa da cozinha era razoavelmente confortável, e nem sempre ele reparava se o chão estava gelado ou não. Embora sua preferência (e Harry sabia muito bem disso) fosse morangos com mel. Sempre que o companheiro queria agradá-lo inventava uma aula de culinária que envolvesse morangos, e o mel entrava de intruso, porém, Harry com morango e mel era realmente delicioso, só provando para saber. (autora tem um sangramento nasal aqui imaginando a cena) (beta acompanha a autora e tem desejo de comer Harry com morango e mel)

Harry gostava do cheiro de Draco. O cheiro mesmo, não o perfume que ele usava ou algo do tipo. Quando estavam sozinhos, cansados, depois de suarem juntos noite a dentro, Harry se aconchegava no ombro do amante e ficava sentindo o cheiro dele, era como algo afrodisíaco. Se Draco de alguma forma suasse, sendo fazendo alguma tarefa, correndo, por qualquer motivo, e Harry estivesse por perto, se sentia o cheiro, na mesma hora grudava no loiro, Harry odiava perfume, pelo menos Draco com perfume, gostava dele natural e era o natural que o fazia delirar.

x

Draco coçou os olhos cansado ao chegar em casa depois de mais um dia exaustivo de leis e processos mágicos. Jogou sua pasta na mesinha de centro da sala, soltou a capa dos ombros e se deixou cair no sofá. Espreguiçou-se e soltou um longo bocejo.

Foi quando ele estranhou.

A casa estava silenciosa… Isso não era normal. Porque Harry - não importa em que tarefa estivesse concentrado - fazia o barulho de um trasgo bêbado. Mesmo dormindo ele roncava que era uma beleza. E a casa estava simplesmente silenciosa.

O rapaz logo se levantou do sofá e foi procurar o companheiro. Cozinha, banheiros, quartos, biblioteca… Nada dele em qualquer lugar. Será que ele tinha saído? Mas ele nunca mais havia saído, não depois que tirara férias do trabalho. Do jeito que ele conhecia Harry, sabia que se ele tivesse saído sozinho era confusão na certa, o infeliz era um imã de problemas, e o bebê? Ele nunca pensava no próprio filho, achava que um Malfoy podia ser tratado assim? Sim, porque antes de um Potter a criança também era um Malfoy, e Malfoys não corriam riscos desnecessários.

Draco passou a mão pelo cabelo, estava exasperado. Não só pelo sumiço de Harry, também porque não tinha idéia de o que fazer. Maldito metido a aventureiro isso lá era época de sair? Com a barriga daquele tamanho!

O jovem se abaixou e recolheu a capa que largara no chão, iria procurar Harry pelas vizinhanças e depois (com um grande pesar) procuraria a sangue-ruim… Granger e seu marido (ele não ousava dizer seu nome, não ainda) para se certificar de que Harry não os estava fazendo uma visita.

Abotoou a capa sobre os ombros e se dirigiu com passos apressado a porta, abriu a maçaneta de supetão.

- Aaah!

- Ah!!!

Um ser barrigudo e pesado caiu por sobre ele quando abriu a porta, cabelos negros tamparam sua visão, e seu instinto natural de empurrar o que quer que tivesse caído por sobre ele foi reprimido ao reconhecer a criatura.

- Harry! Caramba, como você entra assim? Podia ter caído, me machucado! Amarrotou minha roupa toda! E a barriga! Imagina se tivesse caído de barriga no chão? Você não pensa não, seu inconseqüente?

- Draco… Calma. – disse o moreno se recompondo. Foi então que o outro viu os pacotes em suas mãos.

- Aonde você foi? Não ficou andando no meio desses trouxas nojentos com esse barrigão não é? Eu não posso arranjar problemas lá no departamento. Você não fez esforço né? Lembre-se você está com seis meses, e o que tem aí dentro é um Malfoy, não uma melancia!

Harry fuzilou-o com o olhar.

- Eu… sei. – grifou cada palavra. Dito isso, desviou de Draco, ainda plantado na porta, e foi na direção da escada.

- Grrrr! – o loiro grunhiu com raiva, retirou a capa com brutalidade e a arremessou no chão sem cerimônias. – Maldito Potter! – “Não sei porque ainda me dou ao trabalho de me preocupar! Devo ser um estúpido mesmo!” pensou enraivecido.

A verdade é que Harry fora fazer compras. Não suportava mais ficar em casa sem fazer nada. Nos primeiros dias fora tudo ótimo, ficar a sós com sua barriga e tudo o mais, ele soltava sorrisos bobos, se descobria terminantemente apaixonado por aquela coisinha que ele nunca tinha nem visto. Eram momentos só dele e do filho que estava para nascer. Entretanto, quatro dias depois ele já estava de saco cheio.

Agora já fazia duas semanas, DUAS semanas de clausura. Como se estar grávido fosse um crime e ele tivesse de se esconder do mundo. Hermione eventualmente ia lá, aparecia para uma visita depois do trabalho, em algum dia que não estivesse muito cheia de serviço. Draco chegava bem mais tarde nesses dias. Final de semana às vezes ela vinha almoçar trazendo Ron e seus filhos, Harry gostava, no entanto, seu companheiro sempre arranjava alguma coisa para fazer nesses dias, sumia de casa e só voltava bem de tardinha, por isso Harry não conseguia evitar desejar que as visitas de seus amigos fossem rápidas. Mas quase nunca eram.

Harry subiu e foi logo em direção ao quarto que ele e Draco preparavam para a criança. Harry tinha um péssimo gosto para decoração, Draco não era muito melhor (não quando se tratava de um bebê sem sexo definido ainda), contudo, ele tinha pelo menos noção. Portanto, o moreno deixara a encargo do outro a decoração do quarto. Ele podia claramente perceber que haviam coisas de mais verde e prata ali, mas estava tudo bem diluído, e o outro tinha seus argumentos.

- Verde é uma cor unissex, serve tanto para menina e para menino. Vermelho também é, mas é uma cor muito forte para uma criança, que deve ter um quarto de cores leves e calmas. Confessemos, vermelho claro é rosa, e o que faríamos se for um menino? E prata… Bem, prata é unissex também, diferente do dourado, que além de ser extravagante é uma cor típica para mulheres e pessoas exibicionistas no geral. Mas veja bem, também temos muitas coisas laranja claro, branco, amarelo pálido, e até um pouquinho de vermelho. – disse apontando para os objetos a sua volta. Mas nada escondia o fato de que apesar de ser feito com madeiras coloridas, o forro do berço era basicamente verde claro com detalhes em cinza.

Ok, Draco tinha seus argumentos.

Só que naquele dia, Harry tinha ido inocentemente passear no Beco Diagonal quando passara pela loja de roupa de crianças e encontrara um macacão laranja e vermelho. Aquilo o chamou a atenção, porque achava que seu filho (ou filha) estava com roupas de cores sem graça de mais, não era normal um bebê ter um quarto tão sóbrio (tirando pelo berço colorido – presente de Hermione). Então, aproveitando que ele estava com tempo livre resolvera entrar na loja e comprar algumas coisas. Ele não propriamente confiava no seu gosto, na verdade, tinha certeza que iria transformar aquilo num carnaval… mas, mesmo assim resolveu arriscar, iria dar alguma cor ao quarto que parecia mais de um empresário em miniatura do que de uma criança.

Draco ficara um tempo emburrando no sofá, xingando a droga do Potter e todas as suas gerações passadas até onde conseguia se lembrar. No entanto, estava tudo muito silencioso, e só ele sabia como silêncio naquela casa não era bom sinal. Depois de resistir por um tempo, e ainda de mau humor, ele resolveu averiguar o que a porcaria do Harry estava aprontando dessa vez.

O primeiro lugar que ele procurou foi no banheiro de cima, os únicos momentos que a casa ficava tão silenciosa eram no máximo quando ele tomava um banho demorado de banheira, porém, aquilo lá estava vazio. Quando pôs a cabeça pra fora do corredor novamente foi quando ouviu:

- Aha! É isso! – vindo da porta ao lado do quarto que ele e o grávido dividiam, o som vinha do quarto do bebê. Com uma tromba mais comprida do que se pode imaginar, e ainda assim curioso, ele abriu a porta. E teve um choque.

Harry encarava triunfante o quarto, mãos apoiadas na cintura, um pincel em uma delas, a roupa e as partes visíveis do corpo sujas das mais diversas cores, o nariz estava azul.

Mas não foi por isso que o queixo de Draco caiu. Foi pelo quarto em si. Suas paredes tão primorosamente pintadas de verde claro com rodapés e teto num tom cinza gelo estavam definitivamente estragadas. Por todo canto (menos no teto) havia bolotas irregulares das mais diversas cores, o carpete, de tom bege tão perfeito e caro, estava irremediavelmente sujo. Contudo, aquilo não era o suficiente para Harry, ah não, ele tinha que mexer nas cortinas também! As cortinas, azul escuro, pontilhadas com pingos brancos (que formavam a réplica exata do pedaço do céu onde se via a constelação Draco – Harry não sabia disso) foram trocadas por uma coisa… um pano… laranja e amarelo. E o berço, tão impecável (apesar daquela cores infantis) tinha agora algo colorido e desnecessariamente espalhafatoso pendurado nele, uma espécie de brinquedo para a criança. Ah os armários! Os armários estavam intocados, ainda bem! Pelo menos eles. Madeira de lei, raríssima, pelo menos um ínfimo de bom senso o seu esposo tinha.

Quando o choque de ver tudo que se esforçara para estar perfeito ter sido destruído passou, ou o abandonou o suficiente para deixar a capacidade de falar voltar, sua primeira ação foi:

- O que você fez seu… seu… – segurou no último momento o palavrão que ia saltar, acostumara-se a não correr riscos – seu estúpido!

- Oi? – perguntou Harry se virando, ainda tinha um sorriso de triunfo. – Não ficou maravilhoso?

- Maravilhosamente brega, só se for! Você tem o que na cabeça?! Estragou o quarto! Vamos ter que pintar tudo novamente!

- Não seja imbecil. Assim ficou muito melhor. – disse Harry colocando o pincel sobre uma das latas de tinta que tinham no chão.

- E o carpete! Você estragou o carpete! – Draco gritou acusatoriamente apontando para o chão.

- Uhn… Falando nisso… – Harry sacou sua varinha, Draco acreditou que ele iria apenas usar um feitiço para limpar a bagunça, e qual não foi sua surpresa quando com um movimento de varinha a peça desapareceu por completo, deixando o chão nu.

- O que…? – o loiro estava chocado de mais para completar a frase.

- Me disseram que carpete não faz bem para crianças, pode causar alergia.

- Era um carpete anti-alérgico idiota! – Draco bateu o pé no chão, estava mais contrariado do que nunca.
- Bem, eu sempre o achei feio. – Harry deu de ombros. – E dá muito mais trabalho limpar um carpete.

- Arrr! – a raiva era tanta que Draco quase não conseguia se expressar direito.

- Vamos, precisamos deixar a tinta secar. – disse Harry se dirigindo à porta, que era bloqueada pelo loiro em choque. – Vem, hoje eu vou fazer uma torta de morango e quero que você me ajude…

Durante uns 10 segundos Draco não absorveu completamente o que Harry estava falando. Seus olhos percorriam perdidos e desesperados o quarto arruinado: as paredes coloridas, a cortina desaparecida… Tudo estragado.

- Morango? – seu cérebro processou a informação primeiro que sua consciência.

- É. – Harry sorriu de uma forma nada puritana. – Morangos… Quem sabe com mel…?

Draco encarou Harry e avaliou-o por um momento, parecia dividido entre deixar a raiva se esvair pela oferta irresistível ou continuar irritado e zangado com o estrago no quarto. Obviamente, decidir entre Harry com morangos e mel versus zangar-se por causa de um quarto de bebê não era bem algo que fizesse ele ficar muito tempo duvidoso.

- Morangos… Com mel você diz? – ele respondeu o sorriso nada puritano de Harry com um ainda menos santo. (sangramento nasal II: o retorno. Céos, alguém me proteja da minha imaginação #baba#) (Calma amiga! *trás o chapéu de alumínio*)

x

Draco estava em seu escritório tranqüilamente entediado e atarefado quando houve uma batida na porta.

- Sr. Malfoy? – disse uma voz por trás da madeira.

- Entre. – respondeu Draco sem levantar os olhos da papelada.

- Sr. Malfoy, o Ministro pede para o senhor levar os papéis da petição para ele.

- Estão em cima daquela estante. – apontou sem levantar o rosto – Pode levar.

- Er… Senhor, o Ministro deseja lhe falar em pessoa, disse querer discutir certos pontos… – a pessoa a porta enfim conseguira prender a atenção de Draco, que ergueu os olhos dos pergaminhos e encarou o menino de no máximo 18 anos que tinha só o rosto espinhento para dentro de sua sala. O menino se inquietou. Draco sabia muito bem que ser encarado por seus olhos cinzas e frios por muito tempo não era nada agradável, porém, ele não podia se evitar naturalmente de encarar os novatos, adorava amedrontá-los e este era um hábito quase automático.

- Certo. – disse se levantando, recolhendo as folhas da petição e saindo da sala, o rapaz abaixou a cabeça em sinal de respeito quando ele passou pela porta, e foi o percurso todo atrás de Draco.

Quando chegou em frente a sala do ministro cumprimentou sua secretária cordialmente.

- Ah, sr. Malfoy, o ministro o espera, pode entrar. – disse a senhora com um sorriso. Draco respondeu com um enviesado.

Deu duas batidas na porta e esperou a resposta:

- Entre, entre.

Reuniões com o Ministro eram sempre enfadonhas, discutiam processos legais e outras baboseiras detalhistas. Obviamente Draco era o melhor nesses assuntos… ou pelo menos o segundo melhor, visto que Granger – chefe o departamento de leis bruxas no ministério – era na verdade, considerada a melhor de todos, todavia ela era cabeçuda, e sangue-ruim, por isso nem contava como gente.

Quando saiu da sala, o jovem sentiu como se tivesse corrido uma maratona, o Ministro era muito cabeça dura, e às vezes era difícil o convencer do melhor, por isso, Draco estava exasperado quando caminhava de volta para sua sala, e não foi com prazer que ele viu Granger correndo em sua direção.

- Ah, Malfoy! – os cabelos felpudos dela balançavam de um lado para o outro enquanto ela se aproximava correndo dele. – Vamos! Temos que ir, te explico no caminho pro átrio.

O loiro abriu a boca para protestar, como aquela insolente ousava segurá-lo de forma tão autoritária?! Ah se os Malfoy o vissem sendo arrastado de forma tão horrenda por uma sangue-ruim! Abriu a boca para protestar e soltar impropérios contra ela, porém, foi interrompido.

- É sobre o Harry. – automaticamente a boca aberta para xingar se tornou uma boca aberta em preocupação.

- Harry? O que tem ele? Está tudo bem? – de repente, a mão da sangue-ruim no seu braço não era um mal tão grande assim.

- Sim, aparentemente sim. Tentaram te procurar na sua sala e não te acharam, por isso, foram até a minha, e eu soube que você estava no escritório do Ministro, estava indo te avisar.

- Avisar o que Granger? Desembucha! – Draco sentiu que perdera os órgãos de sua barriga, não sentia mais nada, havia apenas um vácuo dentro dele.

- O Harry, Draco, está dando a luz! – definitivamente, um ataque cardíaco poderia o ter pego naquele instante.

- O QUÊ?! – Draco acelerou o passo, quase correu, Granger teve problemas em acompanhá-lo. – Onde? Onde ele está? St. Mungus? Em casa?!

- St. Mungus! – disse Granger também afobada. – Malfoy, calma! Ele está be…

- Dane-se!!! Eu só quero chegar lá! – ele não teve paciência de esperar o elevador, correu pelas escadas até chegar ao átrio, não fez questão de se certificar se Granger ainda o seguia ou não. Só se deu conta de que ela escolhera outro meio de transporte quando passou correndo pelo elevador no átrio e deu de cara com ela saindo das portas de ouro.

- Malfoy, espera! – tarde de mais, Draco aparatara.

Um segundo depois estava no hall de entrada do hospital St. Mungus, correu para o balcão da recepção.

Ouviu instantes depois o som típico de aparatação e em seguida veio a voz irritada da amiga de Harry:

- Custava ter esperado!? – ela parecia bem mal humorada. No entanto, Draco não estava pra isso. Assim que chegou ao balcão da recepcionista percebeu que o mundo girava de uma forma nada convencional.

- Malfoy… – Granger apoiou a mão no ombro dele, ele quis afastá-la, repeli-la, não precisava da ajuda de uma sangue-ruim… Porém, não teve forças. – Malfoy… Draco, você está branco, tá tudo bem?

Ele forçou ainda mais o peso sobre os braços apoiados no balcão, quis responder algo como: “Não me chame pelo primeiro nome!” Entretanto sentiu que se abrisse a boca, mais do que palavras iriam sair dali. Não podia dar um vexame daqueles, não na frente de uma sangue-ruim, por isso tentou ao máximo que pôde se recompor, pelo menos o suficiente para dizer:

- Harry… onde… – Granger deu um gritinho, havia se esquecido do amigo.

- Sim, por favor, soubemos que nosso amigo, Harry Potter, acaba de dar entrada aqui em trabalho de parto.

- Você é familiar? – perguntou a mulher com uma voz monótona.

- Não, quer dizer, sou a melhor amiga e…

- Só é permitido familiares. – disse a moça apontando para um cartaz atrás de si onde se lia: “Emergência: Permitida somente a entrada de familiares”.

- Mas… – Granger tentou argumentar, só que Draco não tinha tempo para isso.

- Eu… sou o pai. Quero entrar. – Sua respiração ainda estava irregular, mas ele conseguia se agüentar.

- Vou precisar que você assine alguns papéis…

- Meu filho está nascendo! Granger, faça isso! – ele não se importou se sua voz havia saído autoritária, não ligou pra careta que Granger fez ao ouvi-lo, queria apenas ver logo como Harry estava.

- Malfoy, você poderia ao me…

- Vamos, onde ele está?! – havia real desespero na sua voz, talvez por isso a enfermeira resolveu deixar pra lá os papéis por um instante.

- Betty! – chamou com sua voz entediada – Betty, leve este cavalheiro até o sr. Potter, ele é o pai.

- Sim. – respondeu uma jovem, que guiou Draco até a porta da emergência, o rapaz parecia ficar mais branco a cada passo que dava, Granger o acompanhou até a porta, onde delicadamente apertou seu braço e disse baixinho:

- Força. – naquele instante ele crispou os lábios, os olhos quase marejados, sentia que estava mais tonto do que deveria. Ainda assim continuou seguindo a enfermeira, que havia bloqueado a entrada de Granger, que não era familiar. Draco sentiu que suas pernas o estavam ludibriando, e que a qualquer instante ele cairia no chão sem forças ou tropeçaria nos próprios pés. Quando estava mais ou menos no meio do corredor, ouviu um grito, um grito bem alto, que ele reconheceu na mesma hora: era o grito de Harry.

Ele não agüentou mais, o mundo ficou escuro, suas pernas deixaram de obedecer e seu coração parou, de repente o chão estava próximo, aquilo havia sido a gota d’água.

x

A primeira coisa que percebeu é que sua cabeça doía muito, como se um trasgo montanhês o tivesse espancado.

Depois veio um gosto amargo na boca, e então a consciência de que estava num lugar mais iluminado do que era confortável. Gemeu. Foi quando se deu conta das vozes: risos, comemorações, estavam felizes.

A primeira pergunta foi “Onde?”, em seguida “Como?” depois “O que?”. Abriu os olhos de vagar, o que ele estava fazendo mesmo? Tinha ido ver seu filho nascer e…

A memória de tudo que ocorreu voltou como um flash, ele se levantou de um pulo. Se arrependeu segundos depois, parecia que ao se levantar deixara o cérebro caído para trás, doía muito.

- Ahhr – gritou quando a dor da cabeça o apertou.

- Malfoy! Enfim você acordou cara. – A voz mongol do Weasel ressoou em sua cabeça, recebeu um tapinha no ombro, se encolheu com o contato. – Toma, até você merece fumar um. – e o grandalhão enfiou um charuto na mão do outro, que olhou para o objeto confuso. Depois fez uma careta, odiava o cheiro daquilo. Antes que tivesse total noção, o ruivo já o estava arrastando por uma sala, e Draco mal percebera que suas pernas o estavam acompanhando.

- Draco! Ah, que maravilha! – era a voz de Granger. Ela por um instante pareceu que iria abraçá-lo, mas desistiu no meio quando o loiro fez um olhar de terror com a possibilidade de isto acontecer, ao invés disso ela transformou o movimento num aperto de mão.

- Parabéns! – disse ainda com um imenso sorriso no rosto. Porém, Draco ainda se sentia confuso, por isso apenas agradeceu com uma aceno de cabeça desconfiado.

- Draco, olha só! – a voz de Harry! O jovem virou o pescoço tão rápido que sentiu o músculo doer. Num instante entendera tudo, sabia o porquê de estar ali, seu coração se acelerou de uma forma dilacerante.

- Harry. – disse num fiapo de voz. Seus olhos estavam presos num pequeno embrulho nos braços do moreno, sua vista ficou embaçada, ele piscou com força, e as lágrimas caíram, limpando novamente sua visão.

- É um menino! Olha só, ele é lindo. – Draco se aproximou cauteloso, prostrou-se ao lado de Harry, não fez nada para impedir as lágrimas, sim, era lindo… Embora parecesse um joelho… Mas, lindo, de qualquer forma.

O loiro segurou o rosto de Harry e o beijou longamente. Emocionado.

- S-sim, é lindo. – disse quando seus rostos se separaram.

- Já decidiram o nome?

- Sim.

- Não.

Ron olhou confuso, não conseguiu pegar a tempo quem dissera sim e quem dissera não.

- Draco, nós já discutimos isso. Se fosse menino iria se chamar James como o me…

- Não! Não vamos chamar o meu filho de James! Que nome mais vulgar! Porque não algo mais… Impetuoso, talvez… Scorpius!

- Eca, esse nome é horrível!

- Melhor do que James, quem já se viu?!

- Achei que já tínhamos superado esse assunto. – Harry disse fechando a cara.

- Não enquanto você insistir com essa porcaria de nome.

- Era o nome do meu pai!

- E daí? Você não me viu pedindo para chama-lo de Lucius não é mesmo?

- Mas, Scorpius é um nome simplesmente ridículo! – Harry torceu o nariz – Daqui a pouco vai querer chama-lo de Cancer ou Pisces!!!

Ron soltou um riso muito mal segurado.

- Está rindo do que Weasel?? – perguntou Draco cortante.

- Vamos lá cara… Scorpius é realmente meio ridículo.

- É um nome de família!

- Aha! Se você pode chamá-lo com um nome de família, porque não pode ser James?

- Porque James é ridículo!

- E Scorpius é o que?

- Ron… Isso vai demorar. Quer ir à lanchonete por um tempo?

- Quero! – respondeu o rapaz prontamente, adorando a desculpa para sair do meio daquela briga.

Durante muito tempo eles brigaram no hospital, por horas diriam depois Ron e Hermione, uns 10 minutos no máximo desmentiriam os pais da criança, que sempre ria bastante quando a história era contada. Todavia, seu nome não fora decidido naquele dia, e nem nos próximos, demorara quase duas semanas inteiras até que seus pais chegassem a um acordo: Bernard Sírius Malfoy-Potter.

- Oh sim, eu carreguei você durante sete meses. Sete. Isso não é fácil. E ainda tive que te dar a luz, e o seu pai, o que ele fez além de desmaiar na hora mais importante? Nada. Então é claro que o seu último nome tinha que ser o meu.

O menino de cabelos rebeldes e loiros sorriu. Adorava aquela história, mesmo que o pai Draco ficasse muito emburrado quando ela era contada. No entanto, achava divertido ver como seus pais podiam ser briguentos quando jovens.

- E o meu? Como foi o meu papai? – perguntou uma menininha de cabelos loiros arruivados para o pai que contava a história.

- Ah, o seu… – mas, foi Draco quem respondeu – Eu faço questão de contar essa história, afinal, fui eu que te carreguei por oito meses. Veja bem, oito. O que significa que eu sou muito mais resistente que esse aí. – disse apontando Harry com a cabeça, que apenas riu do comentário ácido do esposo.

- Dian Lily Potter-Malfoy – recitou Harry. – Você sabe por quê o Lily?

- Por causa dos meus olhos. Que são iguais aos do papai.

- Sim, mas porque Lily? – insistiu.

- Uhn… Era o nome da sua mãe, que também tinha olhos como o meu, a vovó. – disse a menina sorrindo orgulhosa.

- Exato. Agora, vamos a história… – começou Draco, prendendo a atenção dos filhos em si novamente, enquanto alisava a barriga já proeminente: o terceiro herdeiro.


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