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[Parte II]
“Droga… Droga…” Neville sentia os olhos encherem-se cada vez mais. Fungava eventualmente, zangado e descontente. Tentava evitar que as lágrimas caíssem, pois isto seria como assumir a derrota. “Droga…”
Fazia três malditos dias que tinha saído do castelo, se separado da guarda real e desencontrado o caminho por onde viera. Ele sabia que deveria ter prestado mais atenção nas aulas de Astronomia do Lorde Firenze. Pelo menos assim conseguiria se guiar pelo céu, se pelo menos soubesse para onde ficava o sudoeste…
“Droga” ele quase não tinha mais forças para se lamuriar, estava com fome, com sede (o último riacho que encontrara fora logo no começo da viagem), suas roupas estavam horríveis, sua avó, Rainha Augusta, iria mata-lo por ter estragado a capa que fora de seu pai. E isso, por incrível que pareça, era até um problema bem pequeno no momento.
“Eu quero voltar para casa, Henrique.”
Sua única companhia era o cavalo, que andava de vagar, tão cansado quanto ele. Ainda mais depois da corrida desenfreada da noite anterior, fugindo de uma matilha de cachorros selvagens. Céus, por que essas coisas só aconteciam com ele?
Devia mesmo ter prestado atenção nas aulas de Astronomia. Em silêncio fez a promessa para si mesmo de que se voltasse vivo para casa faria questão de ler toda aquela pilha de livros do Lorde Firenze.
Estremeceu só de pensar nessa promessa, mas sentia a resolução percorrendo cada fibra de seu corpo. Voltaria para casa, mesmo que tivesse de descorar todas as estrelas do céu!
“Ah, Henrique… será que não vamos nunca chegar a lugar nenhum? Se você pelo menos se lembrasse de por qual caminho veio!”
O cavalo seguiu seu passo lento e cansado, ignorando a apreensão do cavaleiro, que fungava cada vez mais, quase não conseguindo segurar as lágrimas.
“Se nós ao menos pudéssemos achar alguém que nos desse a informação correta… alguém que não quisesse roubar as minhas roupas!” reclamou choroso.
Assim, cavalo e cavaleiro seguiam exaustos, sempre em frente – para onde quer que isso os levasse – , de moral baixa e apenas ansiando por encontrar alguém que os pudesse ajudar.
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Ron estava sentado ao lado do invólucro de Harry, a cabeça displicentemente apoiada no diamante, os olhos perdidos no céu. Pensava em amenidades, se perguntava quando as nuvens iriam embora de vez, se faltava muito para o calor voltar, imaginava se já não estava na hora de ir cortar mais lenha e se não deveriam dar um pulo em alguma cidade para comprar alguns utensílios.
Estava tão distraído e entediado que não teria percebido a figura que se aproximava, se ele não estivesse gritando e fazendo estardalhaço.
“Uma casa! Uma casa! Será que tem alguém, Henrique? Mal posso acreditar! Alô! Alguém?!” a voz era levemente esganiçada e chorosa.
Ron virou o rosto e viu por trás da redoma de Harry um rapaz montado em um cavalo que parecia estar quase caindo no chão de tão fraco. Inclinou um pouco a cabeça para o lado, além da redoma, observando atentamente o visitante. Era alguém tão jovem quanto ele, com roupas que pareciam um dia ter sido caras. O rosto corado estava sujo e molhado de lágrimas, naquele momento ele parecia miserável.
Quando ninguém respondeu ao seu chamado desesperado, ele pareceu que cairia chorando no chão, Ron se mexeu inquieto, e o estranho o viu.
A última coisa que ele fez foi sorrir e se deixar escorregar pela lateral do cavalo dizendo:
“Graças a Deus…” e desmaiou logo em seguida, para consternação de Ron.
“Parece que todos os caras nobres do mundo resolveram desmaiar na minha porta” resmungou antes de ir até o desconhecido e tentar traze-lo para dentro de casa.
O que incomodara Ron na verdade foi o sorriso que o desconhecido dera. Um sorriso que Ron só tinha visto no rosto de uma pessoa em toda a sua vida. Um sorriso inocente e puro que tornava inevitável não simpatizar instantaneamente com a pessoa. Um sorriso que só havia visto em Harry.
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Neville acordou sentindo um cheiro delicioso. Cheiro de comida.
Levantou-se mais rápido do que deveria e sentiu a cabeça girar um pouco. O corpo estava todo dolorido da montaria, seus músculos protestavam, contudo, ele sentia a boca seca e a pele macilenta, como se precisassem urgentemente ser preenchida por comida.
Ficou sem jeito ao notar que estava com roupas limpas deitado em uma cama perfumada quando percebia que ainda não havia se banhado. Sua avó o mataria se o visse fazer algo assim.
A fome e a sede venceram a timidez e a dor, fazendo-o se levantar. Deixou-se guiar apenas pelo delicioso cheiro. Ouviu algumas vozes assim que abriu a porta do quarto, a casa era pequena, e dali mesmo ele podia ver a cozinha, cheia de homens ruivos vestidos com roupas simples e chapéus pontudos. Ele achou engraçado que todos fossem tão parecidos e tão diferentes ao mesmo tempo.
Havia um que parecia mais velho, preparando a comida, dois que não saberia precisar a diferença de idade, um mais baixo e troncudo, outro de beleza excepcional com longos cabelos presos em um rabo de cavalo, haviam três fora de sua visão e um quarto que estava sentado, tinha um ar zangado e irritadiço.
A princípio não pareciam más pessoas, no entanto, Neville só teve coragem de ir em frente depois de ver o rosto do homem que cozinhava. Ele usava óculos de armação grosseira na ponta do nariz comprido, era magro o avental o dava um ar frágil. Ainda assim, a aura de quem mandava na casa prevalecia sobre ele, foi seu sorriso bondoso que convenceu Neville de que ele não poderia ser má pessoa. Não mesmo.
A idéia do jovem era chegar de mansinho na cozinha, tentar ser notado ou então dar bom dia. Em seguida agradecer pela hospedagem. Depois, claro, perguntaria como poderia pagá-los e como voltar para casa… será que um deles o escoltaria?
Já estava andando na direção dos ruivos, quando uma cadeira apareceu em seu caminho. E Neville não a viu. Estava tão distraído em imaginar o que poderia dizer que só notou sua existência quando tropeçou por sobre ela e foi cair de cara no chão, fazendo um estrondo que deve ter acordado a floresta inteira.
A casa foi tomada por um silêncio assombroso. Sentiu sete pares de olhos sobre si. Instantaneamente o rosto esquentou e ele se sentiu terrivelmente envergonhado por sua falta de coordenação.
“Bela forma de começar o dia” disse uma voz risonha, em tom de piada. Logo risadas invadiram o local e quebraram o silêncio. Neville riu junto, feliz pelo silêncio ter sido desfeito.
“Desculpa” murmurou se levantando, e recolocando a cadeira no lugar.
“Venha, sente-se aqui conosco” convidou o ruivo mais velho. “Traga essa aí cadeira com você”
Neville obedeceu ainda se sentindo extremamente sem jeito.
“Meu nome é Arthur, essa é a família Weasley” disse o cozinheiro, que parecia ser o líder, limpando a mão no avental e a estendendo para ele.
“Neville, da família Longbottom”
“Você diz, o príncipe Neville?” perguntou um dos ruivos do canto da cozinha com uma voz chocada.
“É” confirmou ele sem jeito, como se o título o deixasse sem graça.
“Vai dizer que você também está fugindo de um Lorde maluco e veio buscar refúgio na floresta?”
“Bem… não” ele olhou surpreso para aquelas pessoas. Não só pela pergunta estranha e inusitada, como pela forma desleixada com que eles pareciam lidar com o fato dele ser da realeza.
“Meninos! Mais respeito com vossa alteza” reclamou Arthur, fazendo Neville corar novamente “O que o Senhor faz por aqui, alteza?”
“Bem… eu… ahn…” Neville estava perdendo a coragem de contar para aqueles estranhos que havia se perdido “Houve um desencontro, então acabei me separando da guarda real, e… bem, estou vagando há três dias… Bem, esse aqui ainda é o Reino do Feneco?”
“Não, é o Reino do Cervo.”
Os olhos do rapaz se arregalaram e ele perdeu a cor. Dessa vez tinha ido realmente muito longe!
“Mas é quase fronteira com o Reino do Feneco” acrescentou o ruivo de cabelo comprido. “Meu nome é Bill” disse ele, como que notando a falta de educação em não se apresentar.
“Desculpe a falta de educação, é só que estamos surpresos por mais um príncipe ter aparecido por aqui” disse Arthur.
“É, deveríamos mudar o nome de ‘A Toca’ para ‘A Corte’. Ficaria mais a caráter” Todos riram do comentário do rapaz que Neville reparara ser perfeitamente idêntico a um dos outros.
Ele não entendeu a piada, mas captou o significado. Havia outro príncipe ali?
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Ao primeiro olhar ele perdeu todo o ar. Não sabia o que o impressionava mais: a redoma de diamante, o fato de ser um príncipe, estar em um sonho mágico, as roupas que vestiram nele ou o rosto extremamente… Neville corou.
“É o príncipe Harry?” Perguntou com um fiapo de voz, ele sabia a resposta, mas achou repentinamente que o silêncio insuportável.
Ron, que o acompanhara até ali, apenas confirmou com a cabeça. Aquilo parecia doer para o jovem Weasley.
“Quem fez isso com ele?” De repente, sentiu que queria vingar o outro príncipe, sentiu que aquilo não era justo e que o culpado deveria morrer. Estava na cara que aquele príncipe era um espírito livre. Neville podia apostar que quando acordado o jovem gostara de cavalgar, caçar e apreciar a vida. Sentiu um aperto instantâneo no peito ao imaginar que jamais poderia ver o rapaz fazer qualquer uma dessas coisas.
“Se soubéssemos quem foi, já teríamos nos vingado” Ron parecia desanimado. “Claro que sabemos quem mandou fazer isso com ele: Lorde Voldemort agora não tem nada que o detenha de ser nomeado Rei. Ainda que um rei impostor. Ouvimos boatos de que na Cidade dizem que Harry morreu definitivamente.”
Neville fechou as mãos em punho. A situação parecia imperdoável. Quando voltasse ao seu lar, convenceria a avó a entrar em guerra contra o tal Voldemort para obrigá-lo a desfazer o feitiço sobre Harry. As coisas não poderiam ficar daquela forma, não mesmo.
“Ahn… Ron, só uma pergunta.”
“Uhn?”
“Por que o príncipe Harry está vestido com roupas de mulher?”
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“EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊS TIVERAM A CORAGEM DE DESRESPEITÁ-LO DESSA FORMA!”
A briga era desigual, isso todos concordavam. Ron era mais alto que os gêmeos, porém, os outros dois eram – além de uma dupla – mais fortes que ele. Ainda assim, era Ron quem parecia estar levando a melhor. Foi ele que precisou ser segurado por Bill e Percy.
“Nós não sabíamos!” Fred gritou de volta, a boca começava já a ficar inchada.
“O mercador só nos disse que as roupas eram de nobres. Os nobres vestem roupas estranhas, como íamos adivinhar que aquilo era um vestido?” Acrescentou George levantando do chão.
“Vocês deviam ter perguntado! Eu disse que tinha achado estranho aquele espaço todo no tórax!”
“Se achou tão estranho, porque não impediu o Harry de se vestir daquela forma?”
“Porque… porque…” Ron parecia prestes a desmoronar, todos olharam atônitos ao perceber que os olhos dele se enchiam de lágrimas. “Porque eu confiei em vocês! E VOCÊS O FIZERAM SE VESTIR DE MULHER!”
Foi preciso quase uma hora inteira para que ele fosse completamente acalmado, e a briga só teve realmente um fim quando Arthur chegou, instaurando ordem na casa com a sua aura.
“Desculpa… Desculpa… Eu não sabia. Desculpa…” Neville repetia as palavras a quem quer que aparecesse em sua frente. “Não queria causar confusão. A pergunta foi só curiosidade, desculpa.”
“Neville…” disse Arthur com um longo suspiro depois de ser abordado pela quinta vez. “Ninguém está te culpando. É apenas que Harry era muito querido para nós, especialmente para Ron. Por isso essa confusão toda.”
“Mas eu não queria criar uma briga, eu só perguntei porque… porque…”
“Hey, não teve problema. A culpa foi nossa por não termos investigado antes de sair vestindo o Harry com qualquer roupa” disse Bill passando o braço por cima do ombro do príncipe. Neville se deixou abraçar pelo Weasley, encostando a cabeça no ombro dele, mordendo os lábios para se evitar chorar.
“Desculpa mesmo.”
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O engraçado era que Neville não achava feio o fato de Harry estar vestido como uma menina. De alguma forma, ficava bem assim. Apesar de não parecer nem um pouco feminino. Alguma coisa dentro de Neville se movia inquieto e ávido enquanto observava o outro príncipe em seu sono mágico. Parava por horas em frente do invólucro de diamantes observar cada detalhe. Depois de um tempo, passou a tentar evitar concentrar suas atenções no colo semi-descoberto e nos lábios rosados de Harry. Alguma coisa muito estranha acontecia com ele prestava muita atenção nessas duas coisas.
Gostava de imaginar como seria a voz de Harry, qual seria a cor de seus olhos, como ele ficaria em pé ao seu lado. Gostava de imaginar também a mão do príncipe se movendo…
Fazia cinco dias que estava na casa dos Weasleys, esperava apenas a chegada da lua minguante para que Charlie o escoltasse de volta para casa. Antes disso havia muito trabalho a ser realizado pelos sete ruivos, alguma coisa sobre lua boa nas minhas e época de colher certas plantas de aparência estranha. Fora que na lua minguante a travessia do rio no meio do caminho ficava mais fácil, pois seria época de maré-baixa.
Então Neville passava os dia sem ter muito o que fazer. Não ousava passear pela floresta para não se perder. Depois de quebrar quase tudo de precioso dentro da casa em apenas uma manhã ao tentar ajudar, fora veementemente proibido de fazer qualquer coisa que envolvesse carregar objetos ou afazeres domésticos. Portanto, só o sobrava como distração ficar observando o príncipe Harry em sua redoma, exatamente como fazia agora.
Neville reparara que Ron sempre trazia flores. Tantas que, ali estava prestes a nascer um canteiro selvagem, cheio de orquídeas brancas das mais simplórias. Não eram ostentativas o suficiente para um príncipe, qualquer pessoa da Cidade sabia disso muito bem. Mesmo assim Neville não se metia, não ousava mais fazer perguntas sobre Harry para Ron. Apenas admirava o outro príncipe através do diamante, como alguém que observa um tesouro imaculado e intocável.
Só não contava ser tão fortemente assombrado por sua imaginação. Imaginava a voz de Harry formando frases que sairiam por seus lábios belos e rosados, imaginava-o umedecendo os mesmos lábios com a ponta da língua. Às vezes ousava imaginar que era a sua língua que fazia isso por Harry… Então começava a imaginar aquelas mão quadradas e retas passando por seu corpo, imaginava tanto, que achava que estava enlouquecendo.
Gostava de ir até a redoma apenas quando estava sozinho na casa. Realizava uma batalha interna entre ser forte o suficiente e não imaginar nada ou se deixar levar e sentir o prazer fluir.
Ele estava agora em um desses momentos de batalha. Encarava o outro príncipe evitando olhar para as partes que lhe eram mais tentadoras. Olhava-o com pretensioso desinteresse, e pensava apenas na conversa sobre nobreza e realeza que teria com ele, falariam de seus reinados, trocariam idéias sobre o sistema de impostos e…
Antes mesmo de olhar para qualquer parte daquele corpo adormecido, antes de imaginar qualquer coisa estranha com o outro príncipe, Neville já se sentia excitado.
Gemeu consigo mesmo apenas por constatar que estava fora de si, estava louco de prazer, louco de desejo. Tudo bem, ele sempre fora muito tímido para ousar ficar excitado daquela forma com alguém conhecido. Mas ali, quando não tinha ninguém o observando, ele ficava maluco, sentindo-se mais homem e mais ousado do que em qualquer lugar. As brincadeiras de seus tios, dizendo que ele deveria virar padre eram infundadas. Neville tinha libido sim. E ali estava a prova mais do que aterrante.
Mesmo que uma certeza absoluta e ousada o invadisse quando ele se entregava aos delírios de imaginar Harry acordado, consigo, sentia uma pontada de pudor, uma pontada de timidez e culpa pelo que estava fazendo. Nas primeiras vezes ele chorara, ao longo do ato inteiro, depois ele chorava só depois que se dava conta do que fizera, e agora não chorava. Mas se sentia pesado, sujo.
Olhou mais uma vez longamente para o príncipe Harry adormecido, puxou um pouco a calça contra o corpo, forçando sua excitação contra o pano, decorou cada detalhe daquele corpo, o formato exato das mãos, a textura aparente da pele, dos lábios e entrou em casa.
Entrou no banheiro e deixou-se cair no chão. Arfando, tremendo, morrendo de prazer. Na sua mente viu Harry acordado – e ele não conseguia imaginar seus olhos, estes estavam sempre encobertos por uma sombra. Ao seu lado, ali no chão do banheiro, beijava Neville por todo o pescoço, segurando com mãos firmes seus braços contra o chão. Então, tirava a calça de Neville, e com os mesmos lábio macios e rosados abocanhava o membro dele. Começava com vontade, pegava nos pontos certos, o fazia delirar. Neville, sem pudores, gemia, desejando muito intensamente que pudesse pagar de volta o favor. Desejava que Harry fosse até o fim, e ele sempre ia, sabia exatamente onde ele queria ser tocado, na hora de gozar, deixava que Neville explodisse em sua boca, para depois lamber os lábios com aquela língua deliciosa. Então Neville ia até ele, e o ajudava a limpar a boca com uma beijo.
Geralmente a fantasia dele durava até o corpo se restabelecer do êxtase e parar de mandar choques elétricos esporádicos. Ele ficava deitado no chão, imaginando Harry ao seu lado, sorrindo para ele com aqueles olhos sem forma definida. Sua imagem perfeita ia se esvaindo e Neville começava a se dar conta de que estava novamente, nu, sozinho no chão do banheiro. Não houvera boca nenhuma a lhe satisfazer, fora apenas a sua própria mão, agora suja com a prova do crime.
Era quando ele começava a se sentir um lixo por fazer aquilo. Um completo depravado horrível. Um animal grotesco que não merecia ser chamado de príncipe. Mas ele não conseguia evitar olhar para Harry e não imaginar. Aquilo se tornara o seu mais novo vício.
Se ele ao menos pudesse de alguma forma despertar Harry… ver seu sorriso, a cor dos seus olhos… Não precisava sonhar que ficariam juntos, precisava apenas sonhar que ele não dormiria para sempre. Será que poderiam ao menos ser amigos?
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Neville viu Ron se aproximando com o habitual carregamento de flores, sempre que o Weasley chegava, ele ia embora. Ambos gostavam de passar seus momentos com Harry sozinhos, e até agora respeitaram o espaço um do outro. Mas naquele dia Neville queria esperar Ron chegar.
O ruivo o olhou feio, mostrando claramente o desagrado por Neville continuar sentado ao lado da redoma de diamante.
“Ron…” Neville hesitava, como pedir aquilo sem parecer estranho?
A princípio foi ignorado, o rapaz dava apenas um vago sinal de que estava ouvindo enquanto arrumava as flores em volta de Harry.
“Ron, onde… onde posso arranjar flores?” Recebeu um olhar muito feio, mesmo assim continuou. “Sabe, queria fazer um arranjo como esse na cabeça do Harry, é bem bonito, sabe. Acho que seria legal fazer um também. Se você não se importar de dizer onde posso arranjar flores bonitas.”
Ron continuou seu trabalho de selecionar as flores velhas e repor as novas. Quando parecia que não ia realmente responder nada para Neville – que o encarava determinado -, ele soltou um longo suspiro e disse:
“Nos campos perto do rio, abaixo, tem um campo de margaridas. Você pode pegar umas por lá” o tom dele era de ‘assunto encerrado, agora vá embora’.
“E como se chega lá?”
Ron olhou-o ainda mais feio, porém Neville não recuou nem mudou de idéia. Ron respondeu a contra-gosto:
“Pede pro George ou pro Fred te levarem lá. Eu estou ocupado.”
“Obrigado” respondeu antes deixa-lo sozinho para ir atrás dos gêmeos.
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Depois que se treinava um pouco, até que aquilo ali não ficava muito difícil. Foram cinco tentativas. As primeiras deram terrivelmente errado. Não fizera arranjos de flores, mas uma massa disforme, despetalada e sem vida.
Bill foi paciente, explicou tudo novamente até que ele gravasse a ferro e fogo a técnica em sua memória. Agora, os movimentos de trançado eram praticamente instintivos, naturais. Ele não pensava, sua mão apenas trabalhava de forma mecânica, indo e vindo sem esforço.
Esta última tentativa – a sexta – não tinha saído ruim. Em suas mãos havia uma delicada – talvez nem tanto assim – guirlanda de margaridas.
Quando finalizou tudo, aparando os pequenos as pontas soltas, ficou satisfeito com o que viu. Sentiu apenas uma leve pontada de culpa por todas as plantas que havia matado e desperdiçado antes de conseguir fazer a coroa perfeita.
Iria embora dali há dois dias, só tinha essa noite para gastar preparando aquele singelo presente.
Neville reparara que Ron só cuidava do jardim que estava criando em volta de Harry, mas não havia dado sinal de querer renovar a guirlanda na cabeça do amigo.
Por isso Neville resolvera deixar uma pequena marca de suas presença para Harry. Algo que ainda o ligasse aquele lugar.
Indignava-o imaginar que um usurpador ocupava o trono do Reino do Cervo enquanto aquele príncipe tão belo e capaz de despertar o amor nos outros continuava ali, aprisionado em um sono eterno, sem poder enxergar a beleza do dia e as flores que Ron colocava com tanto cuidado em volta de seu invólucro. Neville sentia uma necessidade gritante de entrar em guerra, de lutar por Harry e enfim liberta-lo.
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A lua ia alta no céu. No quarto, era possível ouvir todos os sons característicos dos Weasley em sono profundo. Neville se levantou silencioso e cuidadoso como nunca. Pé ante pé foi saindo do quarto. Na sala, enxergando apenas o contorno dos móveis, ele foi até onde havia deixado a guirlanda naquela tarde mesmo. Seguiu então para o exterior da casa. Mesmo sendo uma noite de puro breu, seu corpo sabia exatamente onde encontrar o sepulcro de Harry.
O problema seria abrir a redoma. Ele havia conversado com Arthur sobre o funcionamento daquela redoma de diamante, no entanto, só sabia abri-la na teoria. Desconfiava que na prática fosse mais complicado do que havia sido-lhe descrito. Afinal, Arthur não sabia que ele tinha real intenção de violar o descanso de Harry, mesmo que por um bom motivo.
Ao encaixar os dedos nos locais certos e puxar ou empurrar com a força adequada, Neville conseguiu abrir a tampa, o cheiro de mofo e flores velhas tomou o ar fazendo-o se sentir deprimido. Apesar da bela aparência que os Weasley montaram, Harry merecia mais. Ele merecia estar andando por aí, contente, em cima de seu cavalo, em uma caçada com Neville, ambos lado a lado, rindo juntos.
Na verdade, Harry merecia qualquer coisa que não fosse ficar ali. Não importava se fosse com Neville, não importava se ele soubesse da sua existência ou não. Só queria que Harry abrisse os olhos, que ele vivesse o mundo novamente.
Com cuidado, tirou a guirlanda antiga e a guardou no bolso. Se abaixou para encaixar a nova, então a tentação assumiu posse dele. Estava tão perto… poderia sentir a real textura de Harry, poderia experimentar as mãos dele e saber com precisão como seria se…
Se impediu a tempo de fazer uma besteira.
Aquele não era o momento nem a oportunidade. Se fizesse algo tão baixo, nunca mais poderia se olhar em um espelho ou permitir que o chamassem de príncipe.
“Desculpe-me por ser um inútil, meu amor, mesmo que você estivesse desperto, simplesmente não te serviria de nada, não é?” Neville afastou uma mecha do rosto de Harry. “Desculpe-me por estar aqui, tão perto e tão longe de chegar onde você não está… Mas eu vou lutar para que você possa acordar Harry. E vou desejar intensamente a minha vida inteira que você seja feliz pelo caminho que escolher trilhar” Neville sentiu uma lágrima escorrer ligeira por sua bochecha antes mesmo de notar que tinha os olhos marejados. “Apenas acorde…” Dizendo isso ele aproximou seu rosto do de Harry, e roubou-lhe um beijo rápido, o suficiente apenas para seus lábios se tocarem.
Ficou feliz por perceber que a boca dele ainda tinha calor. Estava vivo.
Neville se afastou com pressa. Não devia ter feito aquilo… não devia ter tocado no corpo imaculado de Harry. Não deveria ter sucumbido. Não deveria sentir o coração disparando tanto, não deveria estar sentindo vontade de correr até não conseguir mais, não deveria estar tomado por uma vontade avassaladora de ir até Lorde Voldemort e mata-lo com suas próprias mãos. Não deveria estar sentindo muitas coisas. E ainda assim parecia-o que poderia sentir o mundo todo. E o mundo era simplesmente vazio.
Quando achou que a consciência pesava uma tonelada sobre os seus ombros, ouviu uma tosse desesperada. Uma tosse rouca de quem não usa a voz há muito tempo. Virou o rosto a tempo de ver Harry se sentar inesperadamente e começar a cuspir algo no chão.
Atônito, Neville não sabia o que fazer. Pensou, que provavelmente aquela era a nova peça de sua imaginação. Sua mais nova fantasia… E que fantasia real. Ele deveria estar ficando realmente louco. Assistiu o Harry imaginário – pois não poderia ser outra coisa – coçar os olhos, confuso, olhar a sua volta. Aquilo era um sonho, só poderia.
“Quem é você?” perguntou com a voz rouca. Não era a habitual voz sensual dos sonhos de Neville. Era grossa, meio arrastada, sonolenta. Tinha um quê de dureza.
Neville permaneceu de boca aberta, sem saber o que dizer. De repente a magia havia se desfeito, o Harry real estava na sua frente e ele não sabia mais o que fazer.
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Neville olhou para cima, para o inimigo. Seu cavalo resfolgava, querendo retroceder, mas ele controlava o animal com firmeza. E a passos forçados avançava na direção do monstro.
O dragão, arma secreta do Lorde Bruxo, olhava para Neville como se o fogo pudesse sair de suas pupilas e não das narinas. Era uma criatura gigantesca e assustadora. Mas o jovem príncipe não tinha medo. Deixara de ter há muito tempo. Nunca mais voltaria a ser aquele jovem atrapalhado e medroso – embora atrapalhado ele ainda fosse um pouco. Os dois anos que haviam se passado desde o despertar do príncipe Harry haviam-no amadurecido e transformado em um homem valente que agora enfrentava sozinho, cara a cara, o dragão Nagini, famoso pelas chacinas que realizava.
Naquele momento a cabeça do príncipe-guerreiro estava vazia, o resto do mundo era apenas o resto, havia unicamente, ele, o dragão, e os olhos em chama.
Beijou o punho da espada – presente de Harry – e gritou, desafiando o monstro que se insinuava enrolado no alto da muralha, impedindo a entrada do exército pelo portão principal.
Um segundo antes de trotar com o cavalo adiante, Neville desejou que a notícia da morte de Harry em batalha fosse mentira. Independente disso, ele tinha uma missão a cumprir. Ele lutaria ali naquele momento e venceria, ou morreria tentando.
“Se algo acontecer comigo, mate o dragão. Prometa.”
Neville esvaziou a mente novamente das lembranças, dos sentimentos. Esporeou o cavalo vigorosamente e com a espada na mão trotou a todo vapor até o monstro.
Nagini abaixou a cabeça, com desdém, pronto para soltar fogo, quando Neville em um movimento repentino se desviou para a direita, segundos antes de o dragão cuspir fogo, e tarde demais para ele mudar a boca de direção. Nagini fizera exatamente o que Neville prevera, houve um lampejo forte e breve, antes que ao menos se desse conta do que acontecia, a cabeça do monstro rolava morro abaixo com a boca escancarada em formato de urro.
O exército não teve tempo de comemorar a vitória, Neville cavalgou para os portões e os homens, ainda atônitos, só tiveram tempo de segui-lo, correndo e gritando. O príncipe mataria Voldemort nem que com as suas próprias mãos. Harry não poderia estar morto. Não mesmo.
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O cavalo de Neville sentia a sua apreensão, resfolegava com a pata na terra, andando ansioso de um lado para o outro. Ninguém tinha permissão de se meter no duelo. Seu papel era apenas garantir que nenhum dos servos de Lorde Voldemort ousasse se aproximar da luta, contudo, sentia uma necessidade urgente de correr para o lado do príncipe Harry, que na verdade, não estivera morto em nenhum momento e agora enfrentava o bruxo frente a frente.
Neville não sabia para onde olhar. Observava atentamente os guerreiros ao longo da costa, não deixando nenhum movimento estranho escapar-lhe a vista, porém, seu maior desejo na verdade era assistir à batalha. Temia por Harry, mesmo sabendo que ele era um exímio guerreiro.
Em algum momento, quando as espadas se batiam mais frenéticas e o som de aço contra aço devia estar alcançando os céus, os olhos do mundo se prenderam na batalha, pressentindo o desfecho. O silêncio total era alarmante. Não havia outras disputas ao redor, ninguém mais falava, muitos prendiam a respiração, os pássaros não cantavam, os cavalos não relinchavam e nem o vento ousava assoviar a sua típica canção.
Harry gritou. Algo que os bardos cantariam como um grito de trovão, sua voz cortou os céus, bem como sua espada a barriga de Lorde Voldemort. O Lorde pareceu de repente ter o corpo frágil como um bambu que se verga à força da tempestade. Em câmera lenta, todos assistiram ainda estupefatos a queda do bruxo, direto para o abismo atrás de si. Harry permaneceu em pé, na ponta do precipício, olhando impassível à queda daquele que o tirara muitas pessoas importantes.
Ninguém conseguia ainda pensar direito quando duas coisas aconteceram simultaneamente: todos homens de Voldemort soltaram as armas no chão, um homem solitário cavalgou desesperado na direção de Harry.
Neville era um turbilhão de sentimentos, ia sem pensar na direção do outro príncipe, ao chegar perto, parou bruscamente o cavalo e saltou quase tropeçando nos próprios pés, correu para Harry e colocou as mãos em seus ombros.
“Harry! Você conseguiu!”
A reação demorou a chegar, Harry o encarou, como se nunca o tivesse visto antes, a dureza da batalha ainda marcada em seu semblante sujo do sangue. Então os olhos dos dois se encontraram, Neville sorria, aquele mesmo sorriso ingênuo e sincero de sempre, as maçãs do rosto coradas, a admiração estampada no rosto não mais infantil. Harry sorriu de volta e puxou o outro príncipe para um abraço caloroso.
“É, eu venci.”
Com uma indescritível felicidade, Neville encostou a cabeça no ombro do outro, sentindo que poderia até chorar de alegria. Mas não o fez, pois deixara de ser fácil chorar. Ele era agora um homem completo.
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Os Reinos do Feneco e do Cervo eram conhecidos por sua estreita relação. As festas, caçadas e eventos em conjunto eram considerados corriqueiros e ninguém estranhava encontrar rei Harry no castelo do rei Neville e vice-versa.
No entanto, o evento mais típico e famoso eram as grandes caçadas. Juntavam-se as duas cortes, seus guerreiros, cães, cavalos, lanças e arco e flecha. Entravam floresta adentro buscando os animais mais exóticos e encantadores. Sempre retornando com um grande prêmio, que era preparado na praça de uma das duas grandes Cidades e o povo celebrava com muita cerveja enquanto no palácio davam-se banquetes regados à vinho e champanhe.
Além das grandes caçadas, os dois reis eram também conhecidos por gostarem de caçar sozinhos. Passavam dias fora, voltavam exaustos e satisfeitos. Havia quem desconfiasse, os mais próximos sabiam que os reis voltavam quase sempre com a mesma quantidade de flechas com a qual haviam saído e nunca havia qualquer carcaça para mostrar. A desculpa era de que comiam o que caçavam antes de voltar. Ninguém nunca os ousava perguntar sobre as flechas intactas.
Às vezes, o sumiço dos dois tinha um motivo bem simples, eles iam até uma certa casa no meio da floresta entre os dois reinos, visitar uma família de sete ruivos que sempre os recebiam animados e calorosos.
No entanto, na maioria das vezes os dois reis sumiam para um local ao norte que só eles conheciam. Um lugar com fama proposital de mal assombrado, onde ninguém, além dos dois, ousava se aproximar.
Era uma casa simples, que algum dia poderia ter pertencido à nobreza. Apesar de aparência exterior decrépita e mal cuidada, por dentro ela era extremamente limpa e arrumada. Havia um serviçal quase tão velho quanto a casa que era pago em ouro para manter tudo em ordem e o encontro dos reis em segredo.
Neville, vestido como um aldeão normal, acabava de voltar da pequena vila ali perto com os suprimentos para os dias que passariam no refúgio. Quando entrou no quarto, encontrou Harry despido da cintura para cima, sentado na cama de costas para ele, a nuca exposta de uma forma irresistível.
Tentou se aproximar silenciosamente da cama, queria surpreender Harry.
“Você é tão silencioso quanto um touro, Neville.”
“É?” Perguntou se deixando cair sobre Harry e o abraçando.
Os dois sorriram. Neville, sem hesitar, se inclinou buscando o pescoço de Harry com a língua, percorrendo lentamente todos os pontos sensíveis: a parte atrás da orelha, o cantinho perto do maxilar, a base do pescoço… Saboreou o gosto do amante como alguém que pela primeira vez experimenta um doce muito peculiar.
As lambidas e chupões se tornaram um beijo, e do beijo, as mãos passearam pelo corpo explorando cada pedaço, um por cima do outro, se deitaram, brincando com seus corpos e sentidos. Logo Harry estava despido e a blusa de Neville no chão, corpo contra corpo, respirações que se encontravam e se perdiam. Eles eram um só, e nenhuma fantasia era comparável com aqueles momentos.
Os dias de fugas solitárias dos dois reis eram sempre assim. Caçavam incessantemente o prazer e a satisfação, voltavam vitoriosos com a presa capturada e vencida estampada em seus rostos. Ninguém ousava reparar quando estavam juntos no castelo, que o contato de seus corpos era mais freqüente que o normal. As mãos que se esbarravam, as coxas unidas o jantar inteiro. Ninguém ousava comentar.
Ninguém também estranhou quando os anos foram passando e nenhum dos reis se casou, rejeitaram todos noivados e alianças. Nenhum deles deixou herdeiros. E ainda assim, após suas mortes, uma história começou a ser contada. Uma história que ninguém sabia por onde teria começado. Algo sobre uma princesa adormecida e um príncipe em um cavalo branco vindo salva-la.
Ron jamais esqueceu de tudo que Harry lhe contara da vida e das aventuras que tivera, e através da memória dos filhos e netos do amigo, os dois príncipes nunca deixaram de existir. Para cada princesa enfeitiçada haveria um cavaleiro montado em um corcel branco. Até o final.
FIM
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