O mundo de um youkai
[Parte I]
Seus passos ressoavam no chão de terra, as folhas secas protestavam ao seus pés e animais, invisíveis na escuridão da noite, fugiam enquanto ele passava quase correndo, fugindo. Snape lhe dissera: Fuja seu imbecil. Consigo te dar um dia de dianteira. Corra para bem longe.
Ele não queria correr, se sentia mal ao fazer isso, queria lutar, queria enfrentar o maldito Voldemort cara a cara. No entanto, sabia que mesmo que o sangue fervesse e a vontade de lutar fosse enorme, precisava continuar correndo, correndo, correndo. Era a única forma de vencer.
Lembrava naquele momento das histórias que sempre escutara, das histórias de que jamais deveria chegar perto da parte sul da floresta, a parte mal assombrada, diziam que por lá haviam criaturas mágicas, perigosas e estranhas. No entanto, Harry sabia melhor do que ninguém que nem toda a criatura não-humana era má.
Gostava de passear por ali nos dias amenos de verão, nas noites frescas de primavera e nas tardes secas do outono. Vestia sua bela capa vermelha, e se camuflando entre as cerejeiras ele chegava até certo ponto da floresta. Um certo ponto onde sabia ser o território de um lobo muito mau. Um lobo mau que ele amava. Um lobo mau que havia sido morto na batalha contra Voldemort.
Algumas lágrimas fujonas ousaram querer tomar posse dos olhos do rapaz, ele só se deu conta delas quando notou que o próprio rosto estava molhado. Sirius não estava mais por ali. Não havia mais nenhum lobo-mau para ameaçar o Chapeuzinho Vermelho, não havia mais nenhum lobo-mau que salvasse e estivesse sempre lá para ele. E agora, o que faria? Será que ainda havia naquela floresta alguma outra criatura mágica que pudesse ajudá-lo? Será que o medo irracional das pessoas por aquele lugar o ajudaria a não ser imediatamente perseguido?
Sirius sempre dissera que se ele estivesse em grande perigo era só ir em frente, sempre na direção sul. Não que ele soubesse se estava realmente indo para o sul. A floresta começava a ficar densa e os topos das árvores tampavam qualquer pedaço do céu que o pudesse mostrar através das estrelas por onde ir.
“Só não vá muito para o Sudoeste. Lá fica o reino vizinho, eu não sei se eles te receberiam bem…”
Só não vá para o sudoeste… só o sudoeste. EVITE O SUDOESTE! Ele pensava desesperado, em pânico. E não fazia a menor idéia para onde isso era.
oOo
O primeiro a acordar foi Bill. Seus olhos azuis se abriram para o teto de palha da casa, a luz tentava entrar pela janela de madeira, ainda dava para ouvir o ronco sonoro de Ron e Charlie.
Acordou tão cedo pois se sentia levemente angustiado. Ele tinha certeza que fora acordado por algum motivo. Inquieto, se pôs a escutar atentamente a tudo ao seu redor, primeiro dentro da casa, depois lá fora. Não ouviu nada de errado, o mesmo som habitual dos seus irmãos adormecidos, a floresta ainda parecia a mesma. Uma torneira mal fechada pingava continuamente, Arthur havia dito inúmeras vezes para que tomassem cuidado com isso. Aparentemente alguém não o dera ouvidos noite passada.
Bill se levantou, sem sono, pronto para acordar os outros, quando ouviu um barulho fora do comum, um pequeno e quase inaudível barulho fora do comum. Antes de se alarmar olhou para todas as camas à sua volta. Contou seis pessoas deitadas. Não poderia ser nenhum dos seus irmãos.
O primeiro passo seria acordar Arthur e avisa-lo. Só que a curiosidade e a intuição falaram mais alto. Pé ante pé ele foi saindo do quarto. O barulho das pedrinhas de cascalho do lado de fora da casa o diziam que o intruso não poderia ser alguém querendo o mal. Fizera muito barulho, como alguém estivesse apenas tentando se ajeitar enquanto senta.
Só por garantia, pegou uma picareta encostada à parede. Um homem prevenido valia por dois. Abriu a porta da frente agradecendo à Percy por ser um cretino irritante e fresco que havia recentemente colocado óleo nas dobradiças de todas as portas dizendo que o barulho o desconcentrava.
Não precisou de muito esforço para enxergar quem produzira o barulho que o acordara. Na varanda em frente de casa, aparentemente se protegendo do frio, havia uma pessoa enrolada em uma capa vermelha.
A primeira coisa que Bill sentiu foi medo. Porém, logo percebeu que pelas roupas e pela forma como estava jogado no chão, não havia o que temer, a criatura parecia desmaiada de cansaço.
Cheio de precaução, se aproximou, tentando não chegar muito perto, cutucou o corpo caído com a ponta da picareta. A pessoa murmurou qualquer coisa e voltou a pegar no sono. Bill viu seu rosto. Murmurou zangado algo sobre aquilo ali não ser uma hospedaria, mas já havia sido vencido. O rosto do jovem era extremamente inocente (apesar de terrivelmente sujo e de ser marcado por uma cicatriz curiosa na testa), Bill sentiu de cara que precisava ajuda-lo.
Voltou para dentro de casa e foi acordar Arthur.
oOo
Harry acordou e sentiu-se estranhamente calmo. Pareceu por um momento que voltara ao seu amplo quarto e estava deitado na cama de dossel grande, quente e confortável. A ilusão demorou o tempo dele perceber que o travesseiro não era delicado como o de penas de ganso, o colchão era duro e cheio de calombos e o lençol que o cobria, apesar do cheiro bom, era fino e áspero. Seu corpo doía. Se pudesse, nunca mais em toda a vida voltaria a se mexer.
“Olha, ele acordou!”
Seus olhos se abriram em choque ao ouvir a exclamação. O que ele estava fazendo ali? Onde estava? De quem era aquele quarto? Estaria cativo?
Levantou-se de um salto, a mão foi direto para a cintura, em busca da habitual bainha da espada.
“Uho, cara. Você acorda sempre assim, tão animado de manhã?”
“Quem é você?” perguntou desconfiado para o rapaz à sua frente. Parecia ser tão jovem quanto ele, mesmo sendo uns bons centímetros mais alto. Segurava uma pilha de roupas no braço, como se estivesse indo guarda-las ali, os cabelos por debaixo do chapéu pontudo eram ruivos e o rosto pontuado por sardas. Fez uma cara zangada ao ouvir a pergunta mal educada.
“Eu é que deveria estar te perguntando isso” murmurou passando direto por ele e começando a distribuir as peças de roupa por cada uma das muitas camas do quarto. “Aparece caído na nossa varanda, atrapalha nosso trabalho, cuidamos, damos roupas limpas e uma cama. Ainda por cima a minha!” murmurou zangado lançando mais um olhar feio na direção dele. “E ainda acorda zangado perguntando quem sou eu…”
Harry se sentiu desconfortável. O ruivo estava certo. Relaxou um pouco mais de sua pose de luta, se alguém naquela casa o quisesse morto, já o teria feito quando o encontrara desmaiado à porta.
“Meu nome é Harry…” ele disse, não sabendo se poderia confiar naquele garoto o suficiente para dar mais informações sobre si. “O-obrigado por ter me ajudado e cedido a sua cama.”
“Ron não fez isso porque quis. Hoje cedo ele não parecia nem um pouco feliz em tê-la de ceder para você.” Harry se virou e viu à porta outro rapaz ruivo, quase da mesma altura que o tal do Ron, contudo, parecia mais velho e tinha os cabelos compridos presos em um rabo de cavalo. “Como foi mesmo que ele disse? ‘Acho que deveríamos no máximo deixa-lo na cozinha’ isso claro depois de sugerir ‘Por que não levamos ele de volta para a floresta e o jogamos por lá? Assim ele não acha nossa casa de novo!’”
Harry encarou o rosto irônico do jovem à porta e olhou para Ron, que estava mais vermelho do que Harry se lembrava de um humano ser capaz de ficar.
“E-eu só achei que pudesse ser um bandido…” comentou com a voz fraca, em tom de desculpas.
“Não tem problema. Você está certo, ninguém gostaria de acolher um estranho em casa, é pela própria segurança de vocês” Harry tentou apóia-lo, sentido que de certa forma precisava fazer isso.
O jovem à porta riu.
“Então, quem é você, jovem compreensivo?” perguntou interessado.
“Meu nome é Harry” respondeu inseguro, ainda indeciso se revelava mais sobre si ou não.
“O meu é Bill, e esse aqui é meu irmão, Ron. Bem vindo à Toca, lar dos irmãos Weasley.”
oOo
Harry se esforçava para lembrar quem era. Um fugitivo, um príncipe, um guerreiro, alguém que deveria lutar para derrotar Voldemort. Ainda assim, ainda que eventualmente se lembrasse de onde viera e o que tinha que fazer, era suplantado pela rotina e pelos serviços nos quais ajudava os Weasley. Era tão novo e tão bom poder se sentir alguém normal, que ele se deixava enganar pelo conto de fadas que criara, fingindo não ser ninguém além de um Weasley que nascera moreno.
A rotina era bem simples, contudo, o suficiente para deixar-lhe ocupado.
De manhã acordava com o delicioso cheiro do café da manhã preparado por Arthur. Quando todos terminavam de comer e saiam para trabalhar na mina de diamantes, Harry ficava responsável por lavar os pratos, arrumar as camas e separar as roupas sujas, que seriam lavadas aos sábados. Depois, saía com o arco e flecha na direção da floresta para caçar. Se o dia fosse bom, voltava com dois ou três lebres de carne macia. Embora habitualmente só conseguisse mesmo umas aves de pequeno porte. Se ainda tivesse seus cães de caça do castelo, poderia até almejar trazer algum cervo - símbolo da família Potter. E se ainda pudesse caçar com Sirius, o que eles trariam de volta era o menos importante. A diversão seria a caçada em si.
Ao voltar com a janta garantida, pegava o machado e ia até perto do rio, onde ficavam as melhores árvores para a fabricação de lenha, abatia alguns galhos grossos e os levava para A Toca, onde cortava tudo em toras. Uma parte seria usada de noite e a outra guardada como reserva para o inverno que se aproximava.
Quando a hora dos Weasley voltarem à Toca estava quase chegando, Harry escalpelava o animal que tivesse caçado - se fosse lebre deixava a pele para ser curtida, se fosse ave guardava as penas para refazer os travesseiros da casa, que pareciam se desgastar com uma velocidade absurda. E assim seus dias foram passando, estava sempre atarefado com afazeres do cotidiano.
Recebia a chegada da família com um grande sorriso. Adorava comer com eles, ouvir suas vozes e saber do que se passara ao longo do dia. No começo, vez ou outra Arthur tentava lembra-lo de que era um príncipe, que não deveria fazer esse tipo de atividade doméstica, que eles vivam muito bem antes dele chegar e que Harry era um convidado. Mas Arthur era terminantemente ignorado, Harry insistia dizendo que se não fizesse nada por eles se sentiria inútil e um peso morto, até que esse assunto parou de ser tocado. Harry já era completamente da família.
Os dias seguiam tranqüilos e amenos, o céu começava a ser menos azul e algumas nuvens despontavam brancas e soltas, para logo começarem a se espalhar, anunciando que os tempos calmos teriam fim. Estavam perto da época de tempestades.
oOo
Draco estava nervoso. E estava decidido. Talvez, na verdade estivesse decididamente nervoso. Ou nervoso de forma decidida. Droga, será que ele era a pessoa mais azarada do mundo?
Não era culpa dele se seu pai havia decepcionado o Lorde. Não era culpa dele o maldito príncipe Harry ter fugido. Não mesmo. Mas agora era ele que pagava o preço dos erros alheios. Era ele, que nervoso e morrendo de medo, tinha que entrar na parte sul da floresta.
Conseguira escapar do serviço a muito custo durante algum tempo. Mas agora, lá estava ele, vestido com aquela roupa ridícula de andarilho, a passos dos pés de cereja, a passos do perigo e do desconhecido, a passos da entrada sul da floresta. Droga! Por que logo ele tinha que ir atrás do maluco filho dos Potter? Não era culpa dele se o imbecil resolvera se refugiar num dos locais mais mal assombrados e perigosos. E ainda assim, era ele que tinha que ir atrás, explorar o inexplorado, enfrentar as maldições que pairavam por aquelas bandas, e sozinho! Tudo só porque ele era o que mais morria de medo da área sul da floresta?
Sentiu os olhos do Lorde sobre si, lá de cima da torre. O olho que tudo vê, pensou com um tremor. Mediu por um momento o que tinha mais medo: da ira do Lorde ou de enfrentar os monstros da floresta?
Com um suspiro pesaroso, sem coragem de olhar para trás, ele deu um passo para a frente. Depois outro. De passo em passo chegaria lá, certo?
Sentiu os grandes olhos alaranjados do alto da torre sobre a sua cabeça. A raiva de Voldemort era quase palpável. Melhor ele se apressar. Correu.
Se não corresse, não teria conseguido seguir em frente. Pela minha vida, pela minha mãe, pelo meu pai! Pensou em desespero, e as lágrimas logo eram suas companheiras pelo caminho solitário.
oOo
Aquele havia sido um dia normal como outro qualquer. Porém, Harry estava particularmente feliz e satisfeito. Conseguira capturar três lebres bem rechonchudas e uma andorinha incauta que parecia ainda não ter migrado. Isso sim era ter sorte. E boa pontaria, claro.
Estava imaginando o quanto Ron ficaria feliz com a comida em excesso enquanto depenava a andorinha, quando ouviu batidas na porta da frente.
Achou um pouco estranho. Tirando eventuais caçadores do reino vizinho (que ficava bem próximo dali) e algumas criaturas da floresta um pouco mais excêntricas, quase ninguém passava por ali, e muito menos parava na Toca.
Limpou as mãos no avental e foi ver quem era, despreocupado, abriu a porta. Viu ali parado um rapaz, aparentemente nervoso, assustado, olhando de um lado para o outro como se esperasse ser atacado.
“Me deixe entrar. Vamos!” e dizendo isso o empurrou para longe e entrou na casa, fechou a porta assim que passou.
“O qu…” Harry ia perguntar zangado o que ele achava que estava fazendo de forma tão prepotente, quando o jovem suspirou aliviado e abaixou o capuz.
“Eu tenho medo dessa floresta” disse em tom de justificativa.
“Então não ande por ela!” exclamou Harry zangado, o estranho não parecia nem um pouco interessado em pedir desculpas.
“M-mas eu tenho. É o meu trabalho… Senhor” a palavra ‘senhor’ pareceu sair forçada em um tom quase desdenhoso. Afinal, quem era aquele cara? Harry se lembrou que havia colocado a faca de escalpelar no bolso, não era a melhor arma do mundo, mas serviria para se defender. Olhou rapidamente em volta e encontrou o machado encostado na parede mais a direita. Se acontecesse algo, ele poderia dar uns dois pulos largos e alcança-lo.
“Eu sou um vendedor!” Acrescentou o estranho em um tom levemente desesperado, como se tivesse lido os pensamentos de Harry. Mesmo tendo dito isto em tom de defesa, o movimento que fez ao apoiar a mão na lateral do corpo não escapou de Harry, que o encarava cada vez mais desconfiado.
“E o que você quer aqui?”
“Vender” ele afirmou sarcástico, como se estivesse respondendo algo desnecessário e Harry não fosse muito inteligente.
“Pois eu não quero comprar nada, então, pode ir embora, por favor.”
“Quer dizer que você vai se recusar a me dar abrigo por uma noite? Vai me soltar na floresta quando está tão perto do sol se pôr e dos animais perigosos saírem de suas tocas?”
“Isso pouco me importa, você que não andasse por aí tão tarde” respondeu Harry, embora já não estivesse muito seguro. Não poderia negar um teto a alguém que poderia estar na mesma situação que ele. Contudo, algo naquele rapaz o desagradava imensamente. Talvez seu ar sarcástico e esnobe, como alguém que não respeita e se sente superior aos outros. Havia um alerta que ecoava silenciosamente pela cabeça de Harry avisando que deveria mandá-lo embora imediatamente. Entretanto, aquele esnobezinho esfarrapado não oferecia perigo algum a um guerreiro treinado como Harry. E também, logo os Weasley estariam de volta, então poderiam decidir em conjunto o que fazer com o visitante inoportuno.
Sentindo que vencera a batalha, o estranho se afastou da porta e estendeu uma mão.
“Meu nome é Draco.”
“David” respondeu aceitando a mão e usando o nome falso que os ele havia combinado de usar com os Weasley, para não chamar a atenção de curiosos que pudessem delatar quem ele era de verdade e onde estava.
Os olhos do rapaz chamado Draco se estreitaram, como se o avaliassem por um instante, pareceu se fixar por um longo tempo na cicatriz que Harry carregava na testa.
“Acidente ao derrubar uma árvore” ele explicou sem ser perguntado, apenas porquê aquele olhar o incomodara sobremaneira, como se o outro soubesse muito bem a história verdadeira daquela cicatriz.
“Ah, claro.”
Harry não conseguiu perceber se havia ou não sarcasmo na voz do outro, por tanto, preferiu não dar crédito a sua imaginação ao supor que Draco só não estava interessado e não usando uma ironia deslavada.
“Bom, já que estamos aqui, que tal eu te mostrar algumas das minhas mercadorias?”
“Não tenho dinheiro” respondeu Harry de mau-humor pensando na perda de tempo. Ele deveria estar na cozinha terminando de depenar a andorinha, mas não confiava no tal vendedor para deixa-lo sozinho na casa e sem ter os dois olhos bem fixos nele.
“Eu não quero seu dinheiro” os sentidos de Harry novamente apitaram, aquela frase pareceu-lhe cheia de significados ocultos. Se perguntou se andava paranóico demais “Digamos que esse seria um pagamento por sua hospitalidade…”
Sem ter nada melhor para dizer, ainda que desconfiado, Harry deu de ombros. Se ele quisesse pagar pela hospitalidade, problema dele. Ainda assim, certificou-se de não deixar a mão muito longe do bolso do avental, onde estava a faca.
Draco abriu as vestes desbotadas e surradas que usava, revelou em seu interior as mais variadas coisas, incluindo um belo punhal pendurado na cintura, como Harry desconfiara.
“Tenho tudo o que você precisar” ele disse sádico. “Colares, bebidas, pentes – e desses eu acho eu você precisa – maçãs tão belas que dizem terem vindo diretamente do Éden, flores que seriam capazes de fazer qualquer dama se apaixonar por você…”
Harry passou a mão instintivamente no cabelo. Nunca ligara muito para a própria aparência, já que sempre tivera alguém para se preocupar por ele… será que estava tão lastimável assim? Deveria ter aceitado quando Charlie se oferecera para cortar seu cabelo.
“Mas eu sugiro que você pegue o pente. Ou a maçã. Você é magrelo, parece que precisa de comida.”
Harry o olhou feio. Nunca vira antes um vendedor tão esnobe e mal educado.
“Então me dá logo essa maçã de uma vez e pare de me amolar” respondeu por impulso.
Draco sorriu. Harry não gostou nem um pouco daquele sorriso. Viu-o retirar lentamente a maçã de um dos bolsos do casaco, como se ela fosse feita da mais delicada porcelana.
“Será que você vai ter coragem de comê-la? Muitos antes de você não tiveram a fibra necessária” ele disse irônico, em tom desafiador.
“Me dá logo essa porcaria” disse Harry arrancando a maçã da mão dele e dando uma grande mordida. “Viu? Nada de m…”
Harry sentiu como se sua garganta se fechasse, o ar desapareceu subitamente de seus pulmões e tudo ficou escuro. A última coisa que ele viu foi o olhar irônico e vitorioso de Draco. Então subitamente ele se lembrou, aquele rosto pontudo não lhe era estranho, era uma característica típica da família Malfoy, que apoiavam Voldemort. Céus, como ele fora imbecil em aceitar aquelas provocações…
“Não achei que fosse ser tão fácil. Bem que o Lorde disse que você seria uma isca fácil se eu o desafiasse” disse para si mesmo enquanto observava o outro caído no chão. Terminantemente morto.
Ao invés de se sentir vitorioso - como imaginava que seria se fizesse tudo certo-, Draco sentia um terrível peso no peito. O arrependimento se abateu sobre ele com ferocidade. Não devia ter feito aquilo, não devia ter sido tão fácil! Por que aquele idiota do príncipe Harry caíra na dele tão rápido? Não houve nem tempo de pensar no que estava fazendo. Céus, matara mesmo uma pessoa? Olhou para as próprias mãos desesperado, como se elas estivessem sujas de sangue. Aquilo era tão… repugnante.
Com nojo de si mesmo, ele saiu daquela casa, sabendo que os Weasley logo voltariam. Droga, ele não queria ter tido de matar. Mas era isso ou ser morto. Voltou a correr, sentiu algumas lágrimas escaparem por seu rosto, amaldiçoando a própria sorte e as coisas que tinha de fazer, como fugir pela floresta à noite, como tirar a vida de outro garoto, como se tornar um monstro.
Draco se sentiu tão arrependido, e sua vontade de matar era tão inexistente, que aconteceu algo que nem o Lorde Voldemort poderia prever. O feitiço sobre maçã não funcionou como devia. Era necessário o real desejo de morte. Coisa que Draco não tinha e por isso, sem perceber, salvara a vida de Harry. O príncipe não estava morto, apenas eternamente adormecido.
oOo
O inverno chegara e passara. Deixando para trás pequenos montes esparsos de neve. A floresta ganhava nova vida, as folhas começavam a renascer nas árvores e a grama passava lentamente a ser verde novamente.
Mas o fim do inverno não trouxera de volta para aquela casa os sons costumeiros da alegria pela aproximação da primavera. Além dessa perceptível mudança, havia agora no jardim da pequena casa uma grande armação feita com os mais límpidos e delicados diamantes em formato de redoma, dentro podia-se ver um jovem ricamente vestido, um arranjo de flores adornava seus cabelos negros e uma capa suntuosamente vermelha fechava o conjunto. Ele parecia dormir tranqüilamente em um sono imperturbável, as maçãs levemente coradas do rosto e os lábios ainda rosados eram os únicos indícios de que ele vivia, afinal, sua respiração era escassa ao ponto de não ser visível.
Junto com o jovem, toda a alegria e animação dos Weasley havia adormecido. Em volta daquele monumento de beleza e respeito, criara-se um santuário de flores. A grama ali parecia crescer mais verde, passarinhos pousavam sempre sobre a superfície lisa e cantavam homenageando o belo adormecido, consolando o seu triste sonho. As flores eram sempre renovadas, e todo o local exalava carinho e esmero.
“Ron… não acha que já tá na hora de parar de colocar orquídeas no túmulo do Harry?”
Ron se virou irritado para Fred.
“Não é um túmulo! Ele não está morto! E… Harry gosta de orquídeas.”
“Sabe que elas não são as flores mais bonitas que têm por aí, não é?”
“São as únicas que eu pude achar no inverno” respondeu zangado, voltado a andar na direção do príncipe adormecido. “E eu acho que ele se acostumou com elas…”
Ron era dali o que menos se conformava com o que havia acontecido. Passara semanas acordando mais cedo que todos e indo se sentar ao lado de Harry, solitário, triste. Não derramou uma lágrima, não na frente dos outros, mas sua apreensão e consternação eram palpáveis.
Quando o inverno ficou tão gelado a ponto de não poderem sair, o menino convencera Arthur a trazer Harry para dentro. Todos ali desconfiavam que o príncipe não morreria de frio, seu sonho era mágico, e só magia poderia mata-lo ou desperta-lo. Porém, a redoma ficara a maior parte do inverno em pé na sala. Ron sentava ao lado dela por longas horas, não fazendo questão de ficar, como os outros, perto da lareira.
Quando o inverno deixara de ser tão rigoroso, e todos concordaram que Harry poderia voltar a fica do lado de fora, Ron passou a buscar em seus horários livres algo para enfeitar o local. Era triste ver o amigo, sempre tão cheio de vida e com um sorriso simples nos lábios sérios, agora deitado ali, como uma estátua.
Os gêmeos conseguiram com um mercador do reino vizinho uma roupa que pertencera a um nobre, juntaram suas economias para comprar tudo do bom. Ron tinha que confessar que o príncipe ficara muito mais apresentável daquele jeito, as roupas pareciam naturais nele. Mas aquilo não era o suficiente. Nem aquilo, nem a capa vermelha reconstruída por Arthur, nem o arranjo de flores que Bill fizera. Ron fazia questão que o lugar no qual Harry adormecia estivesse sempre cheio de vida.
Por muito tempo buscou o que poderia ser essa coisa, até que viu a primeira orquídea florida. Não era a flor mais bonita nem delicada, porém, foi o que ele pode achar. E assim, por todo o resto do inverno criou o hábito de quase todo dia buscar uma nova flor para colocar perto da redoma, dando sempre a impressão de que havia muita vida no local. Já que afinal, realmente havia. Harry estava ali, e ele ia acordar um dia. Ron tinha certeza.
“Ele não vai passar a gostar de orquídeas só porque você sempre as trás para ele!” insistiu George.
As narinas de Ron se dilataram, mas ele não respondeu aos gêmeos.
“Eu vi que algumas margaridas começaram a nascer nos campos perto do rio. Por que você não vai lá e pega algumas ao invés de…”
“Eu já disse que não!” insistiu enquanto limpava o local, retirando as flores mais murchas e pondo as mais vistosas na frente. “Eu quero orquídeas. Elas são como o Harry, nunca deixarão de existir… nem no inverno mais frio.”
Os gêmeos não insistiram no assunto. Ron fizera novamente aquela expressão. A expressão que parecia fora do padrão, um olhar triste e tão profundo que desconcertava os outros Weasley, acostumados com os sentimentos geralmente rasos do caçula. Os dois em pé trocaram um olhar preocupado e sentiram um pedacinho da dor do irmão mais novo… aquilo era tão errado.
Os três desejaram em silêncio que Harry acordasse logo. E a força dos sentimentos novamente entrou em ação.
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