O menino que roubava varinhas - Capítulo 2

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[Capítulo 1]
No qual há apresentações

Desde que eu tenho lembranças sempre soube que meus pais não são meus pais. Digo, papai e mamãe são apenas de criação, nada de sangue nos relaciona. A não ser é claro mamãe, que é prima de 3° grau da minha mãe de verdade. Falando nela, quando era menor, ainda uma criança, não fazia idéia de quem fossem meus pais, sabia apenas que fazer perguntas sobre eles significava castigo, se eu insistisse isso podia significar ficar sem jantar – ou sem almoço, dependendo do horário em que eu cometia tal afronta. Não que meus pais de criação fossem ciumentos e não gostassem de seu filhinho de criação ficar falando nos falecidos pais, isso era o máximo que eu sabia, meus pais estavam irremediavelmente mortos, sem vagas esperanças de que um dia um deles aparecesse e dissesse: “Hey Harry, vim te buscar!”.

Meus pais de criação me castigavam porque havia algo ali que todos faziam questão de esquecer, algo que todos não gostavam de falar e queriam que eu compartilhasse com eles desse desejo. Mas como eu poderia temer ou entender algo que ninguém jamais me explicou? Não que eu já tivesse feito essa pergunta a alguém isso, afinal, chegar a esse ponto era perder um refeição na certa, além de levar um sova que doeria por dias. Quanto a sova, eu já estava acostumado, mas naqueles tempos cada refeição era uma fortuna, já morríamos de fome mesmo quando comíamos os escassos mantimentos, e ficar sem comer só me fez ser uma criança menor e mais magra do que eu já naturalmente seria, sim, como você talvez deva ter imaginado, minha infância inteira incomodei meus pais de criação com perguntas sobre meus pais verdadeiros, afinal, algo tão escondido devia mesmo valer a pena, era por isso, acho, que eu parecia ser tão desnutrido.

Meus pais de criação: Rosa e Walter Hubermann. Ela, uma mulher em forma de armário e cara de papelão, andava gingando, gostava de xingar e de me punir quando perguntava sobre meus pais verdadeiros ou quando ela achava que eu fazia algo errado. Quando criança achava que ela me desprezava, mas quando fiquei grande o suficiente para entender, percebi que ela apenas me amava de verdade e queria a todo custo me proteger da realidade, apenas não sabia como demonstrar isto de uma forma mais carinhosa. Ele, um homem grande, formato de barril, sem pescoço, bigode cujos fios ele gostava de arrancar quando ficava nervoso, o que usualmente era acompanhado pelo arroxeado de suas feições que iam desde o rosa até o marrom em menos tempo do que você acharia humano. Acho que ele nunca gostou de mim, e ele era bem sincero nisso, não era só a forma dele demonstrar seu amor e/ou preocupação.

Minha rua, rua Himmel, uma grande ironia, quase humor negro. Himmel = céu. Céu? Só podia ser uma piadinha infame. A rua Himmel, longe do que pode parecer, não era um inferno, não. Mas passava longe de ser um céu. Rua Himmel era um rua de pessoas simples, muitas pobres, crianças sujas e às vezes (ou quase sempre) esfomeadas. Estas mesmas crianças sujas costumavam passar os dias brincando na rua, mulheres velhas ou não tão velhas interagiam, tanto com insultos (muito comum) como com conversa fiada, e tínhamos claro nossas figurinhas registradas, os esquisitos da rua Himmel, os preferidos das crianças, dos quais não vou falar muito, pois seria, a meu ver, perda de tempo. A rua Himmel, nem sei se existe mais, há algum tempo foi destruída, não sei se a reconstruíram, mas vamos por partes.

Meus amigos da rua Himmel, Ron Weaslmann, ponto. Claro que haviam outros meninos e meninas que eu gostava de brincar ou jogar quadribol com. Mas Ron é o único amigo que nesta curta história eu acho que valha a pena ser citado. Se eu fosse escrever uma biografia, poderia colocar aqui todos os nomes (ou os nomes que eu lembrar), e teríamos uma bela lista, mas não quero escrever uma biografia. Ron Wealsmann tinha a minha idade, ruivo e sardento - assim como todos os seus outros seis irmãos - olhos azuis um pouco esbugalhados, conhecido na rua como maluco. Acho que preciso “perder” um tempo explicando porque ele era considerado maluco, só creio que antes precisarei contextualizar você com o tempo e o local em que vivíamos.

Alemanha, Hitler. Se você nunca ouviu falar de Hitler peço que revise o seu livro de História da Magia, e se mesmo assim ele não estiver lá, peço que reclame com o seu professor, pois você tem em mãos um livro muito incompleto. Eu nasci antes de Hitler chegar ao poder, e cresci com ele ascendendo, até tomar o poder da Alemanha e ser apoiado por mais ou menos 90% da população, mesmo que apoiar ele significasse perseguir os muggel², vale lembrar que muitos alemães apoiavam Hitler fervorosamente, ou apenas se associavam ao partido nazista. Não que houvessem muitas opções naquela época, ou você era do partido, ou você morria de fome sem emprego. Basicamente, muggel e qualquer um que de alguma forma compactuassem com eles era considerado inimigo do povo alemão, o que convenientemente significava ser mandado para um campo de concentração onde haviam duas opções: trabalho forçado, morte. Cada um tinha sua própria opinião de qual das duas opções era mais tentadora, sem ironias. Era fácil viver na Alemanha naquela época, bastava odiar os muggel, amar Hitler e viver sua vida.

E então encontramos o problema de Ron Wealsmann. Não que ele odiasse Hitler, não naquela época. Mas ele tinha uma amiga muggel (no tempo em que ainda não era realmente crime conhecer, conversar ou ser amigo de um).

Hermione Wranger, nascida muggel, estudava na mesma sala que nós, seu pai tinha uma loja do lado da do pai de Ron. No começo acho que ele não gostava dela, implicava e ria da menina, não por ela ser nascida muggel, como se pode pensar, mas por ela ser estudiosa, estudiosa até de mais. Hermione Wranger só sabia falar de livros e passar lições de moral em todos quando era pequena.

Uma coisa que é praticamente de conhecimento geral: meninos pequenos não sabem interagir direito com as meninas, principalmente se gostam delas, e daí surge a implicância. Esse era o exato problema de Ron. Crescer fez bem para ele, começou a conversar civilizadamente com Hermione e sempre ia visita-la na loja do pai, onde conversavam sobre sabe-se-lá-o-que. A única coisa que sei, é que um dia ele achou um pôster. Um pôster de Fussball, esporte trouxa onde há uma bola do tamanho aproximado de uma goles, só que ela quica mais e é chutada no chão. Claro que não é só isso. Mas se eu fosse explicar exatamente como é o Fussball ia precisar escrever um livro só para ele (e acredite muggels têm esse tipo de livro). Basta saber que era um esporte muggel bem diferente de quadribol. O ponto em que quero chegar é, Ron viu o pôster e atrás deste havia uma reportagem sobre um tal de Lêonidas da Silva, um jogador de uma país distante chamado Brasil. Nada de muito interessante tirando um fator essêncial, um ano antes Lêonidas da Silva havia rasgado sua única chuteira em um certo jogo da copa mundial de Fussball, e por isso precisou jogar descalço esta partida, e mesmo assim havia feito gols e sido considerado brilhante. Isso deu uma idéia a Ron.

A idéia de Ron o fez ganhar a fama de maluco, mas foi bem simples. Ele pegou uma goles emprestada, saiu correndo para a quadra de esportes mais próxima e começou a chuta-la de uma lado para o outro, imaginou que era Lêonidas da Silva e que havia uma multidão muggel assitindo seu talento, conseguiu ver a admiração nos olhos de cada um do seu público imaginário, mesmo a torcida adversária o admirava, Fussball era diferente de quabribol, ele não precisava da melhor vassoura, não precisava ser rico, bastava apenas talento, Ron queria que fosse assim com quadribol também… e por isso ele se empolgou e se divertiu, mostrando a sua platéia imaginária que ele podia ser bom, mesmo não tendo nem o melhor sapato, nem o sapato mais caro. Naquele dia, acho que Ron se sentiu a pessoa mais importante do mundo, ou a mais talentosa. Até que as pessoas o viram chutando uma goles no chão e chamaram seu pai.

Herr Wealsmann, pai de Ron, ruivo, alfaiate. Acho que ele era um grande admirador de muggels, lembro-me do olhar admirado dele para as engenhocas que esse povo inventava. Ele ficava abismado como eles conseguiam viver sem magia, as coisas que eles construíam… compensavam a falta de mágica com um cérebro extraordinário. Mas Herr Wealsmann tinha algo mais importante que sua admiração, ele tinha sua família. Por isso sabia muito bem que para sustentar todos seus sete filhos ele precisava se filiar ao partido nazista e fingir que nunca gostara ou sequer se admirara com o brilhantismo muggel.

Foi então que ele encontrou seu filho, Ron, jogando Fussball com uma goles. Obviamente, antes de castiga-lo perguntou: “O que exatamente você está fazendo?” e Ron teve sorte por ter sido Herr Weaslmann a encontrá-lo, e não sua mãe, Frau Weaslmann. Claro que Ron contou a história, e sobre como ele queria ser muggel para poder ser reconhecido unicamente por seu talento. Nem de tênis ele precisava! Nada de vassouras caras, só o talento. Tenho certeza que Herr Weaslmann se comoveu. Mas mesmo assim teve que carregar Ron pela orelha para casa, tinha que mostrar aos outros (aqueles que haviam se reunido em volta para ver o que se passava) que ele merecia estar no partido nazista e não compactuava com as idéias do filho. Naquela noite eu acho que eles tiveram uma longa conversa sobre a superioridade bruxa e sobre como era errado querer parecer com um muggel. De qualquer jeito, uma semana depois Herr Wealsmann apareceu em casa com uma vassoura nova, quero dizer, usada, mas melhor do que a que eles tinham.

Há um fato que eu propositalmente omiti sobre o ocorrido com Ron, e o fato é, eu tive minha percentagem de culpa, afinal, aquela não havia sido a primeira vez que Ron jogava Fussball. Como melhor amigo dele, é lógico que na verdade a primeira vez dele foi comigo.

- Harry! Harry!

Eu me levantei e pus a cabeça para fora da janela sabendo já quem me chamava.

- Ron! O que você quer?

- Vamos, quero te mostrar algo. - disse Ron, os cabelos ruivos despenteados e os olhos azuis um tanto quanto esbugalhados, ou seja, do mesmo jeito que ele sempre estava.

- Eu não sei se posso sair agora Ron… - disse olhando por cima do ombro para dentro de casa, com medo de que mamãe aparecesse a qualquer momento da cozinha mandando-me fazer alguma tarefa.

- Vamos lá Harry, é rápido!

- Está quase na hora de mamãe levar as roupas para os clientes…. - eu disse ainda indeciso.

- Vamos, eu prometo que é muito rápido.

Dando um longo suspiro resignado eu pulei a janela, até porque ficar em casa sempre considerei uma chatisse, e nunca resistia ao cheio de uma aventura, e estava claro que era isso que teríamos. Saímos correndo em direção a rua principal, Ron a frente.

Apressados chegamos ao fim da rua Himmel, no encontro com a rua Munique, uma das ruas principais de Molchin (a cidade onde morava-mos), chegando na outra rua eu não fazia idéia de para onde Ron pretendia me levar. Por isso fiquei surpreso quando ele foi em direção ao campo de quadribol (que eventualmente servia também para jogar outros esportes bruxos).

Eu não podia deixar de me perguntar o que Ron queria ali, já que os meninos não havíamos trazido vassoura alguma, e qual a função de um campo de quadribol sem vassouras?

“Ron…” começei uma frase que nunca cheguei a perguntar, pois praticamente adivinhando o que eu iria perguntar, Ron, que estava chafurdando em uma moita próxima, se ergueu orgulhoso com algo que lembrava uma goles na mão e disse:

“Hoje vamos jogar Fussieball!” ele falou isso como se fizesse todo o sentido do mundo.

“O quê?” obviamente eu não entendi nada.

“Fussieball, um jogo muggel.” como Harry continuasse sem entender Ron continuou. “Lembra daquela loja muggel que tem perto da loja do meu pai?” obviamente eu me lembrava (como se Ron falasse maqueça época outra coisa que não envolvesse Hermione Wranger), por isso confirmei com um aceno de cabeça e me controlei para não girar os olhos “Então, uma vez achei com a filha deles, a Hermione, uma imagem tirada de um jornal direcionado aos muggel, e ele falava de Fussieball, e ontem a Hermione me explicou como se joga, a bola é parecida com a goles, por isso acho que essa vai servir, vamos?”

“Ron….. você tem certeza que sabe como se joga isso?”

“Claro! Hermione me explicou tudo.” dito isso Ron pôs a bola no chão. “Hermione disse que as bolas de Fussieball quicam mas, só que uma goles deve dar pro gasto, melhor que um balaço né?”

“Sim, bem melhor! Se fosse pra te acompanhar em uma de suas idéias malucas que pelo menos não seja com um balaço.” observei eu com sabedoria.

“Só que tem uma diferença, nesse jogo a bola é jogada com o pé e no chão, nada de voar.”

Arregalei os olhos o máximo de pude “Com os pés?!” aquilo estava fazendo cada vez menos sentido.

“Sim, não é divertido?” perguntou Ron empolgado. Eu ao contrário não via nada de divertido ou lógico em um jogo cuja bola era jogada com os pés…. como jogaria-mos a bola com pés? Foi o que perguntei a Ron.

“Chutando, oras!”

“Então o propósito desse jogo é ficar chutando a bola?” aquilo poderia fazer menos sentido do que já estava fazendo? “Qual o sentido nisso?”

“Não sei.” Ron sorriu “Mas os muggel parecem se divertir. Parece que eles têm campeonatos e copas assim como nós!”

Eu encarei a bola no chão, e incrivelmente senti vontade de chutá-la, só para experimentar. Não reprimi esse desejo por muito tempo, nunca fui bom em fingir que me importava com as normas ríspidas que me ensinavam, dei um bico na goles, ao que ela levantou um pouco no ar e voou longe. Sorri.

“Mas além de chutar… qual o objetivo do jogo?” perguntei a Ron.

Ele deixou a boca levemente entreaberta, enquanto pensava.

“Aaaahhh…. não sei, não tenho a menor idéia. Esqueci de perguntar.” e saiu correndo, eu em seu encalço, zangado com ele.

“Como assim você não perguntou o mais importante?! Se quando eu chegar em casa levar uma sova de mamãe você me paga maldito Ron Weaslmann” mas eu não estava mais zangado, estava rindo, Ron também, ainda assim continuou fugindo. Entenda, nós éramos crianças, e das mais levadas, não tínhamos o juízo realmente no lugar. No meio da corrida eu me abaixei e peguei uma bola de lama e neve e taquei no fugitivo, acertei em cheio, Ron protestou e se abaixou, fez uma bola e tacou de volta em mim que graças a meus bons reflexos consegui escapar.

Ficamos brincando um tempo de briga de bola de lama-neve, ao mesmo tempo que corria-mos um atrás do outro, até que chegamos perto da bola resolvi a chuta-la para cima Ron, com a intenção de acertá-lo, errei claro, mas Ron foi atrás da bola e chutou-a de volta, mirando em mim, errou também, e mesmo assim estávamos achando mais que divertido, então ficamos chutando a goles um para o outro, com a intenção de acertar, doía um bocado o pé, mas com o tempo aprendemos os pontos menos dolorosos e mais precisos de se chutar, até que Ron conseguiu mirar direito e me acertou em cheio nas costas. Corri atrás dele, querendo vingança, a goles havia sido esquecida, como era pequeno e mais leve consegui alcançar Ron e pulei sobre ele e nós dois ficamos num embate físico mais de brincadeira do que de briga de verdade, vendo quem conseguia imobilizar o outro primeiro.

Após uns quinze minutos estava-mos cansados e sujos de lama por conta da quadra não cimentada e do tempo úmido que fazia a terra estar meio pastosa, então deitamos um ao lado do outro olhando o céu cinzento, a respiração ainda agitada e o coração retumbando no ouvido.

Ficaram deste jeito durante mais tempo do que posso lembrar, só sei que foi algo memorável, insignificante e memorável, assim como são as grandes amizades. Até que minha mãe de criação apareceu, o sol começava a voltar para o horizonte.

“Seu Saukerl!” foi o comprimento dela “Seu porco imundo, o que você acha que está fazendo?!” segurando a bainha do vestido ela foi rebolando até onde eu e Ron estava-mos, no rosto uma expressão enfurecida. Eu me levantei empertigado assim que ouvi o primeiro xingamento, havia esquecido completamente da mamãe.

“Olha só pra você! Todo imundo, seu imbecil, o que você tem na cabeça?” fiquei de pé num salto, já esperando a bronca. “Já pra casa Arschloch!” dizendo isso ela deu um safanão em mim que quase me fez cair no chão, meus olhos marejaram de dor “E eu preocupada com você seu imundo! Como é que você sai sem falar nada?” apressei o passo em direção a casa, mas não fui rápido o suficiente, outro pesco-tapa foi acertadoem mim, quase cai no chão de novo.

Bis Morgen Harry.” disse Ron sentado na quadra, assistindo-me andar o mais rápido que podia para casa, tentando a todo custo evitar outros safanões da mamãe que continuava soltando seus chingamentos padrões.

“Não me venha com ‘Até amanhã Harry’! Você também, vá pra casa seus Saukerlzinho!” disse ela ralhando agora com Ron, que mesmo estando longe se encolheu de medo e preferiu sumir da vista dela. Nunca era boa idéia contrariar mamãe, principalmente se ela estivesse com raiva.

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² Muggel é como os trouxas são chamados de acordo com a tradução alemã para os livros de HP


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