O mundo de um youkai
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[Capítulo 3]
No qual a verdadeira história tem início
Minha primeira varinha roubada: Mogno, fio de coração de dragão, 42 cm, maleável, boa para encantos.
Tudo começou com meu emprego de verão na loja de Herr Oliwand (n/a: esse é o Sr. Olivaras… eu não consegui achar na net como é o nome dele em alemão, por isso é esse o nome) O comércio ia bem apesar dos tempos, e minha mãe de criação era sobrinha de terceiro grau dele, sendo assim conseguiu o trabalho pra mim, podendo dessa forma ajudar nas contas de casa, já que sobrevivíamos das roupas que ela lavava e passava para os ricos da rua Molchin, visto que meu pai de criação não conseguia arranjar emprego e trabalhava esporadicamente como mecânico de vassouras, aquele dinheiro vinha sempre a calhar.
Lembro como se fosse ontem, eu tinha 12 anos, estudava magia há apenas 1 ano, e aquele era meu segundo verão com Herr Oliwand. Confesso que varinhas nunca verdadeiramente me interessaram, para mim eram apenas objetos mágicos que todo bruxo que se prezasse deveria ter. Mas Herr Oliwand não concordava comigo, para ele cada varinha era quase como um ente mágico dotado de personalidade e digno de admiração por conta de sua individualidade, pois não haviam duas varinhas iguais assim como não haviam unicórnios, dragões, nem fênix iguais.
Devo dizer que o fascínio dele por varinhas nunca verdadeiramente me convenceu completamente de que elas eram e são apenas pedaços de madeira muito úteis, e perigosos nas mãos erradas. Mesmo depois de virar um ladrão de varinhas (fato que demorei a me dar conta) eu ainda não superestimava estes objetos, mesmo hoje, tantos anos depois, ainda acho que varinhas são unicamente cotocos de madeira muito espertos. Desculpe se você é um fã destes artefatos, eu sei de sua importância, apenas acredito que mais importante que a varinha é o bruxo que a ministra.
Era um dia de temperatura amena, e eu estava na loja sentado atrás do balcão lendo O Pasquim, que estava de cabeça para baixo, revista muito engraçada que era comercializada por toda a Alemanha. Liesel Meminger era filha do editor desta revista e estudava na mesma sala que eu. Seu pai era viúvo e ela havia sido criada praticamente só por ele, até hoje me pergunto se isso foi para ela de todo saudável. (n/a: eis então que Liesel, a verdadeira ladra de livros, faz sua aparição :P)
Haverá um momento em que Liesel fará sua verdadeira entrada nesta narrativa, então não nos apressemos.
Lá estava eu apreciando mais uma edição de O Pasquim, que Liesel me emprestara, quando um cliente apareceu. Inicialmente não retirei meus olhos da revista, que tinha uma matéria sobre runas bem interessante (motivo este de eu a estar lendo virada para baixo), esperava que o possível freguês apenas desistisse de comprar qualquer coisa e fosse embora.
Coisa que ele obviamente não fez.
“Hem Hem.” era uma voz de mulher, ela deu uma espesse de tossezinha irritante para chamar atenção. Eu ergui a cabeça da revista, surpreso em como aquela tossezinha soara estranha.
“Pois não, em que posso ajudá-la?” perguntei prontamente deixando a revista de lado. Era Frau Umbridger, secretária e assessora do prefeito. Cargo que ela amava ostentar.
“Gostaria de falar com Herr Oliwand.” disse ela com a voz falsa e flautada, dando-me um sorriso bufonídeo, como se eu tivesse 5 e não 12 anos.
“Claro.” respondi com simplicidade querendo me livrar da presença dela o mais depressa possível, por isso fui o mais rápido que pude para os fundos da loja, onde Herr Oliwand geralmente gostava de ficar para poder desenhar mais e mais novos modelos de varinhas.
“Herr Oliwand.” eu disse de forma educada, tirando-o de sua concentração.
“Sim?” perguntou ele se virando e me encarando com aqueles olhos tão assustadores, os quais eu nunca gostei. Detestava ser encarado e analisado por aquelas orbes claras e grandes.
“Frau Umbridger deseja falar-lhe, lá na entrada.”
“Oh sim, claro claro.” ele imediatamente se levantou e foi ter com a sapa velha, eu me senti aliviado por enfim ser abandonado pelo olhar do velinho. Sempre que podia me mantinha no recinto em que Herr Oliwand não estivesse presente, então me demorei bastante na sala dos fundos, enrolando o tempo.
Mas naquele dia fui mordido pela curiosidade e depois de um tempo resolvi ver sobre o que ele conversava com a Sra. tão-importante-secretária do prefeito, afinal o que a traria ali, numa loja de varinhas?
Agora me veio a mente que talvez, quem esteja lendo este texto pense que por eu ter me tornado um ladrão de varinhas a primeira, ou primeiras, ou todas que eu já roubei fossem da loja de Herr Oliwand… percebo agora o equívoco que cometi. Na verdade eu nunca roubei uma varinha sequer do estoque de Herr Oliwand. Mesmo que eu quisesse, seria meio estúpido, afinal aquele velho conhecia cada varinha da loja, como se cada uma fosse uma filha inestimável. Bom, eu só pretendia deixar claro isto para que o leitor não fique na expectativa de “quando será que ele enfim surrupiará uma das varinhas da loja?” já que isto nunca irá acontecer, então apenas espere o decorrer da narrativa que tudo se encaixará…. ou não, visto que não tenho experiência em escrever.
Naquele dia, que não era um dia nem um pouco diferente de todos os outros, eu resolvi que ficaria no limiar entre os fundos e a frente da loja para tentar saber o que Frau Umbridger poderia querer. Eu não fazia isso o tempo todo, mas também não era a primeira vez.
“Eu já disse a Sra. e repito, a varinha escolhe o dono, não posso simplesmente fazer isso.” a mulher atarracada não parecia nada satisfeita, as narinas dilatadas (que a deixavam com mais cara de sapo) demonstravam isso com uma precisão incrível.
“Então o Sr. prefere ser deslocado junto com todo seu arsenal de varinhas?” ela tinha um sorriso perigoso no rosto.
“Melhor do que o quê me pedes.” Herr Oliwands era sempre um homem calmo e assustador, pelo menos para mim nos meus pouco vividos 12 anos, e mesmo naquela conversa ele parecia continuar calmo e animado, como se discutisse o tempo, ao contrário de Frau Umdridger que parecia inflar mais a cada momento.
“Espero que o Sr. esteja disposto a fazer ‘varinhas escolherem’ mais de 300 bruxos, e tudo da forma mais rápida possível.” ela tinha um ar sarcástico, como se propusesse algo que tinha certeza que o convenceria a fazer o que quer que ela quisesse dele.
“Podemos tentar.”
“Terás somente um dia para tal intento.”
“Em dois com certeza já devo ter conseguido, 300 você me diz?”
“Mais de 300.” reafirmou ela, os olhos espremidinhos, essa expressão dela sempre me lembrou a um sapo sonolento.
“Fechado. Desde que o partido nazista se responsabilize pelo transporte seguro da minha mercadoria.”
Os olhos dela se espremeram ainda mais, eu nunca entendi como ela conseguia fazer isso e ainda continuar enxergando.
“Dois dias. Se você passar desse prazo…” um ar de ameaça pairou no ar, Herr Oliwand pareceu não notá-lo, se não, fingiu muito bem.
“Certo.” ele respondeu com simplicidade.
“Amanhã, sem falta.” ela disse reassumindo sua voz flautada e seu tom pegajoso.
“Estaremos esperando junto com o nascer do sol.” disse ele com uma reverência, ela apenas se virou e foi embora, sem se dar ao trabalho de parecer educada.
Herr Oliwand soltou um suspiro exasperado assim que ela saiu da loja, passou a mão pela cabeça e enfim pareceu me notar.
“É Harry, vejo que teremos muito trabalho.” aqueles olhos me encaravam novamente “Aceitas fazer hora-extra hoje?”
“Claro, mamãe sempre diz que quanto mais dinheiro entrar em casa melhor.” eu não disse isso com empolgação, o que eu menos queria era ter de trabalhar além do tempo e ter de agüentar o olhar perscrutante daquele homem, mas se mamãe ou papai soubessem que eu havia negado-me a fazer um extra com certeza eu sofreria de uma boa sova e ficaria um bom tempo sem comer, afinal, eu tinha que prestar para alguma coisa.
Ficamos até tarde naquele dia trabalhando, pondo os mais variados tipos de varinhas dentro de caixinhas. Se tem uma coisa da qual eu preciso citar e agradecer a Herr Oliwand é que foi unicamente pelos seus ensinamentos e amor às varinhas que sei tudo que sei hoje em dia, o que me foi muito útil no ato furtivo de angariar tais objetos mágicos.
Até ser bem tarde ficamos aprontando tudo, todas as varinhas possíveis, tirando algumas que eu nunca entendi por quê, mas ele sempre deixava separadas. Naquele dia eu não queria nunca mais saber de varinhas em caixas, era insuportável, acho até que devo ter sonhado com varinhas voadoras que me amaldiçoavam constantemente. Terrível.
Quando cheguei tarde em casa, mamãe já me esperava com um rolo de macarrão na mão, ia ser uma sova das boas, já prevendo isso pedi que Herr Oliwand me adiantasse naquele dia mesmo a hora extra que eu ganhara, essa era a única forma de convencer mamãe e papai que eu estivera realmente trabalhando e não “vadiando por aí quando podia estar fazendo algo de útil”. Ainda bem, a sova daquela noite pôde esperar mais algum tempo para acontecer, porque mesmo naquele dia eu sabia que a sova só fora adiada, algum dia (não tão distante) eu a acabaria recebendo, era quase algo óbvio saber disso.
Só para que fique registrado, eu e Herr Oliwand não encaixotamos tudo em silêncio - como eu gostaria que fosse - cada varinha encaixotada era digna de uma descrição, qual madeira havia sido usada, o tamanho, qual era o elemento mágico usado no interior dela, sua flexibilidade e para o quê ela era melhor. Foi traumatizante. Nunca havia tido uma enxurrada tão grande de varinhas e suas descrições quase completas, acho que foi por isso que naquela noite fui acometido de pesadelos com varinhas, qualquer um teria sido.
No dia seguinte acordei mais cedo que o normal, na verdade, acordei no horário que eu acordaria para ir para o colégio, caso não estivesse no verão, conseqüentemente de férias, e por isso acordando mais tarde. Era uma madrugada cinza de verão, cheguei na loja de Herr Oliwand e este já estava de pé, arrumando os últimos preparativos.
“Hallo Harry.” cumprimentou ele assim que me viu “Chegaste bem na hora.”
Ajudei-o por uns cinco minutos quando enfim chegaram os nazistas, eram uns seis, todos montados em vassouras, e cada uma delas com um suporte na parte traseira.
“Guten Morgen!” disse um deles que parecia ser o chefe, pois o uniforme ao invés de ser pardo era verde e tinha mais patentes.
“Morgen.” respondeu Herr Oliwand, eu apenas fiz uma pequena reverência, nunca havia realmente gostado de nazistas militares… pelo menos não quando criança.
Ajudamos a prender todas as varinhas num suporte que seria suspenso por todas as seis vassouras, Herr Oliwand lembrando de tempos em tempos o quanto aquela mercadoria era importante e frágil, ralhando com os nazistas quando estes pareciam não tratar as varinhas com tanta sutileza quanto ele achava que era necessária.
Após uns vinte minutos tudo estava pronto, Herr Oliwand pegou a vassoura dele, nada muito profissional, uma típica vassoura de passeio, cheia de desenhos e frivolidades, um pouco lenta, mas estável o suficiente para um sr. de idade. Eu iria na garupa com ele. O que eu nunca gostei nestas vassouras tão rebuscadas era o fato de elas custarem tão ou mais caro do que vassouras profissionais de esportes bruxos. Por que alguém gasta dinheiro com uma coisa emproada como aquela quando pode muito bem pegar uma vassoura mais limpa e de velocidade imensamente superior?
Bem, acho que me desvirtuei um pouco da história… mas vassouras sempre foram a minha paixão, assim como quadribol, embora este assunto vá ficar de lado nesta curta narrativa.
Herr Oliwand pegou a própria vassoura cara e desnecessariamente adornada, eu iria na garupa dele, mesmo não gostando daquele tipo de vassoura me senti animado só de poder voar, principalmente por uma distância tão grande. Então sem demora partimos, eu e o dono das varinhas indo atrás dos nazistas, naquele momento apenas me importava com o vento batendo no meu rosto, a imagem do sol recém nascido no horizonte banhando o meu lado direito, a madrugada fria ia se tornando gradativamente num dia de tempo ameno, tudo perfeito para um vôo de vassoura.
Chegamos ao que me pareceu um século depois, não que eu tivesse realmente sentido o tempo passar, mas o sol já estava quase lá em cima do céu quando enfim as vassouras fizeram menção de aterrissar.
Acho que nunca senti meus glúteos doendo tanto, isto porque a vassoura de Herr Oliwand era acolchoada… mesmo assim não deixei de pensar que uma vassoura veloz era bem melhor do que esse tipo de conforto, já que chegaríamos bem mais rápido e não daria tempo para sentir dor.
O que aconteceu ao longo do dia eu não posso realmente relatar com precisão, além de ser desnecessário, minha mente de 12 anos não me permite recordar tudo com clareza. Sei apenas que Herr Oliwand passou o dia testando varinhas e mais varinhas com nazistas e mais nazistas e eu o auxiliei, já tinha experiência o suficiente para saber quando enfim uma varinha escolhia um bruxo, então Herr Oliwand ficava com uma fileira de nazistas e eu com outra. Foi algo semelhante a terrível, todos aqueles homens fardados com o mesmo corte de cabelo, expressões severas e duras passando um por um me encarando, ficando cada vez mais frustrados quando várias varinhas não lhes serviam, então Herr Oliwands era chamado e mudávamos de fileira, enquanto eu atendia aos clientes mais fáceis.
E assim passou o primeiro dia, sem nada de mais acontecendo, além de um menino loiro e arrogante (provavelmente um puro-sangue de realmente longa linhagem) que ficou depois do almoço sempre de longe me observando. Provavelmente ele era filho de um dos oficiais, mas desde o princípio eu não gostei da sua ar aristocrático, rosto pontudo e arrogante, principalmente porque ele ficava me observando descaradamente, parecendo sentir prazer em me ver sem jeito.
Mas lá se foi o primeiro dia e logo fizemos a viagem de volta, pelo menos Herr Oliwand se deu ao trabalho de me deixar em casa, poupando-me o longo caminho da loja até a rua Himmel. Lembro-me, ou posso estar enganado, que o velinho passou a viagem inteira falando sobre como precisávamos correr mais no dia seguinte, afinal, não daria tempo se continuássemos naquele ritmo, e acho que ele também falou alguma coisa sobre varinhas de alcaçuz, mas eu estava tão sonolento e tão cansado que não posso confiar inteiramente na minha memória.
O segundo dia se iniciou da mesma forma que o primeiro, tirando o fato não de termos sido escoltados por seis nazistas mais a carga de varinhas, afinal, as que não haviam escolhido seus bruxos continuaram lá na base nazista nos esperando para mais um dia de testes. Desta vez havia apenas um soldado para nos escoltar.
O dia havia se passado na mesma do dia anterior, eu testando varinhas em fileiras e mais fileiras de nazistas ao lado de Herr Oliwand, quando por volta da hora do almoço, nós fizemos uma pausa para comer.
“Muito bem Harry… muito bem. Sua ajuda está sendo muito importante, estamos quase terminando por aqui.” bem, lembrar dessa fala dele às vezes me faz pensar que talvez eu sempre tivesse guardado a impressão errada desse sr., mas era só ele me encarar, só ele perscrutar com aquelas orbes assustadoras que eu mudava de opinião na hora, eu realmente não era muito fã dele.
Almoçamos, tanto naquele como no anterior, um pouco afastados dos nazistas, numa mesa a um canto. Eu pessoalmente achava que assim estava ótimo, preferia ficar o mais afastado possível daqueles homens enfardados. A comida não era lá essas maravilhas, não saberia dizer se era melhor ou pior do que a de mamãe (ela tinha uma sopa de ervilha que…. bem, só provando para saber o quanto era ruim), mas exatamente por ter sido criado por minha mãe de criação e sua culinária, por assim dizer, excêntrica, eu estava comendo tranqüilamente aquela refeição, mas Herr Oliwand não. Ele mal tocou a comida e se levantou cedo, com a desculpa de ter de tratar certos assuntos com Frau Umbridger. Para mim não fazia a menor diferença comer sozinho, achava até melhor, por isso apenas continuei pondo para dentro aquela…. gororoba.
“Hallo. Wie geht es Ihnen?” perguntou uma voz de garoto para mim “Olá. Como tens passado sr.?” aquela era um jeito bem formal de se perguntar à pessoa se estava tudo certo com ela, e vindo de um garoto isso soava ainda mais estranho.
Fiquei um momento coma colher cheia de comida suspensa no ar, no meio de uma colherada até minha boca, encarei o garoto. Existem duas palavras que o caracterizaram naquele momento (e até onde posso me lembrar por toda a existência dele): puro-sangue. E arrogante. Até hoje percebo como essa primeira impressão não estava nem um pouco errada.
Como eu demorasse a responder a pergunta dele, o menino deu uma tossezinha afetada e ergueu uma sobrancelha, esperando eu responder. O problema era, como se respondia uma pergunta feita daquele jeito formal? Eu tinha 12 anos, não fazia idéia, mas deixá-lo no vácuo também não me apeteceu.
“Erm….. uhn…. Danke, gut.” sim, eu fiquei pensando um tempo antes de falar, e acabei respondendo o típico ‘Bem, obrigado.’ mesmo. Nada genial, mas melhor do que não responder não é?
“E você?” perguntei apressadamente, quase me esquecendo da educação, tão escassamente a mim ensinada no âmbito familiar.
“Também vou bem.” ele respondeu e se sentou a minha frente. “Você é um puro-sangue?” foi a segunda pergunta dele.
“Bom, eu estou aqui no meio dos nazistas não é?”
“Isso não responde a minha pergunta.” observou. Esperto ele.
“Bem… devo ser.”
“Deve ser…?” novamente ele ergueu uma sobrancelha, o que deu-lhe um ar completamente arrogante e afetado.
“Quer dizer, ninguém fala sobre meus pais, como eles estão mortos, eu não sei…”
“Ah, lamento.” ele não parecia lamentar nada. “Eu sou um puro-sangue.” até ali, nada novo, e tive uma vontade tremenda de perguntar: ‘Ah é? E daí?’ num tom nada simpático. “Por gerações e mais gerações, somos uma das famílias mais tradicionais.”
Eu continuei comendo, imaginei que se o ignorasse talvez ele desistisse de mim.
“Ah, que deslize o meu. Esqueci de me apresentar, Draco Malfoy.” talvez ele esperasse que a menção do sobre nome dele fizesse algum efeito sobre mim, não sei, mas ele disse-o com toda a pompa, com um olhar maligno… o único problema era, aquele nome nada significava para mim. Nadica de nada.
“Ahn…” reparei no olhar quase de desapontamento dele, como se eu não tivesse reagido como ele esperava. “Harry Potter, prazer.” continuei comendo. Mas parece que o meu nome teve algum efeito sobre ele.
“Potter?” ele perguntou, mais pálido do que ele normalmente já era.
“É, sabe, H-a-r-r-y P-o-t-t-e-r.” respondi soletrando o meu nome. Havia aprendido há pouco tempo a arte de soletrar rápido, era maravilhoso enfim poder mostrar minha nova especialidade.
“Eu ouvi Arshloch.” o pouco de cor que ele naturalmente tinha voltou ao rosto do nazistinha. “Espero que você não tenha orgulho de ser um Potter.” meu sobrenome na boca dele soou estranhamente…. estranho. Como se ele estivesse cuspindo o meu nome e não o pronunciando.
“Espero que você não tenha orgulho de se chamar Draco.” eu respondi, afinal, convenhamos, esse nome é ridículo.
Ele se levantou, os olhos espremidos, aparentemente ele pretendia parecer ameaçador.
“Aposto que você só é metidinho assim aqui, quero ver se seria tão corajoso assim jogando quadribol.” aparentemente a intenção dele era que eu me encolhesse de medo, me arrepiasse ou saísse correndo.
“Isso é um desafio?” perguntei me levantando também.
“E se for?” ele perguntou de volta.
“Eu topo.” larguei minha colher dentro do prato, posicionei-me que nem ele, da mesma forma arrogante. Obviamente não era isso que ele queria ouvir. Estava escrito no rosto dele, que voltou a perder a cor. Depois de alguns anos de convivência com Draco Malfoy, você percebe que ele é bem menos do que ostenta e bem mais do que parece. Ele adorava desafiar os outros, talvez porque achasse que todos fossem como ele, que morria de medo de desafios físicos, ele devia pensar que isto fosse o suficiente para fazer qualquer um desistir. Mas eu não era ele, e eu amava quadribol.
Por um momento pareceu que ele iria voltar atrás, afinal, o que ele menos queria era correr o risco de perder. Mas ele olhou novamente para mim, magro, sujo, aparência meio doentia, mal alimentado, roupas rotas e de segunda mão. Provavelmente sua avaliação foi negativa, deve ter pensado: “Esse moleque não deve nem se agüentar numa vassoura, isso vai ser fácil.”, mas foi aí que ele cometeu o erro. De fato, eu era tudo aquilo que ele avaliara, mas o problema é que eu sabia sim montar uma vassoura, e era muito bom nisso.
“Então, quando vai ser?” ele perguntou após sua errônea avaliação.
“Quando você quiser.” falei isso mais para dar um impacto mesmo, afinal eu tinha 12 anos, crianças adoram fingir que são mais do que realmente são.
“Assim que o sol se pôr então, sem falta.” ele disse estreitando os olhos “No campo de treinamento que tem aqui, traga sua vassoura, e esteja pronto para morrer.” eu descobria mais tarde que esta também era uma característica que fazia parte de Draco, ele gostava de exagerar.
E então encontramos um problema. Vassoura. Eu não havia trazido a minha, e mesmo que a trouxesse não sei se serviria para voar contra aquele nazistinha que provavelmente tinha uma vassoura de último modelo. Pensei em pegar emprestada a vassoura de Herr Oliwand, mas não sabia se ajudaria muito aquela vassoura tão cheia de parafernália e tão lenta, estável até de mais, demoraria muito a responder aos meus movimentos de reflexo rápidos. Eu caíra numa cilada. Na verdade, eu achava particularmente impossível que eu fosse reencontrar aquele nazistinha em algum outro momento da minha vida, talvez fosse até melhor furar com o encontro…
A questão era, e meu orgulho, aonde ficaria?
Para falar a verdade só pensei nessas coisas enquanto durava o horário do almoço, pois logo tive que voltar a ajudar Herr Oliwand e minha mente foi tomada novamente pela ocupação de fazer centenas de varinhas escolherem seus donos. Naquela tarde o nazistinha não ficou me encarando como ele havia feito no dia anterior (lembra do menino loiro, rosto pontudo, ar aristocrático…? Pois é, era ele mesmo.), ainda bem, ou eu poderia enfim sair de mim e acabar atacando-o. Não que eu fosse tão instável a ponto de sair atacando qualquer um, mas desde aquele primeiro dia ele me irritou mais do que qualquer outro menino poderia.
O dia foi passando e a noite foi chegando, talvez o leitor esteja no momento um pouco entediado se questionando por estou demorando tanto, fazendo tantas voltas, falando de um tal nazistinha aristocrático, sei que parece que estou enrolando, mas está se aproximando o momento que ocorrerá o primeiro furto, eu realmente precisava falar sobre o Draco, já que futuramente ele figurará com alguma intensidade por estas páginas e pensei logo em apresenta-lo, para que possa ficar mais claro os futuros acontecimentos e seu comportamento perante eles. Prometo que não falta muito para o primeiro furto.
A noite foi chegando e com ela o tempo frio, eu estava caçado, com sono… e feliz. O trabalho estava acabando e logo eu iria para casa… pelo menos lá era quentinho, talvez não tanto quanto eu gostaria…. mas era mais quem que uma base nazista ao ar livre. Obviamente eu sabia que a noite estar chegando significava também o duelo com o nazistinha estar chegando. E hora ou outra eu me pegava pensando em como arranjaria uma vassoura. Provavelmente teria que me virar com a de Herr Oliwand…. será que ele me emprestaria ela?
Então chegou enfim a grande oportunidade; havíamos acabado de conseguir fazer a última varinha escolher o último bruxo, perfeito! O sol ainda estava descendo, dava para ver a oeste a fraca luz laranja, o céu arroxeado, a leste tudo já era escuro, reluzindo apenas com a luz das cidades que por ali existiam. Herr Oliwand foi ter com Frau Umbridger e o Prefeito, Herr Fudger. Eu fiquei para trás, aguardando ele perto do refeitório. Assim que ele desapareceu de vista eu tive certeza que aquele era o momento certo, sua vassoura estava ali, amarrada a poucos metros de mim.
Claro, até pensei nos riscos, talvez Herr Oliwand ficasse realmente muito bravo, talvez me demitisse e então mamãe faria questão de me dar uma boa sova, provavelmente eu ficaria uns bons dias sem comer… mas aquele moleque esnobe tinha me desafiado, eu simplesmente não podia deixar barato. Desamarrei a vassoura o mais apressadamente que pude, meu coração batendo descompassado, aquilo não se tratava de um futo, vej bem, e ninguém tinha dito: Harry, não mexa na vassoura, não voe nela e não saia daqui. Então eu não estava verdadeiramente fazendo nada de errado certo? Bom, mesmo com 12 anos eu sabia muito bem que isso era uma mentira deslavada em potencial, o que em nenhum momento me impediu - mesmo com as mão suadas de nervosismo – de pegar a vassoura de Herr Oliwand e correr para a quadra de esportes dali.
A qual eu não fazia idéia de onde ficava. E eu não podia simplesmente perguntar para alguém, já que seria realmente suspeito. Mas não deveria ser algo tão difícil assim de se fazer, afinal, uma quadra de esportes é algo realmente grande e chamativo não é? Principalmente se for de quadribol… as balizas são bem visíveis.
Devo ter perambulado pela base nazista por uns bons 10 minutos, afinal, ela era maior do que eu esperava, mas enfim vi as balizas e fiquei contente, ignorando veementemente o aviso mental de que eu não fazia idéia de como voltar para onde eu tinha estado.
Cheguei na quadra e não vi ninguém. Nem uma viva alma, mas também, o sol havia acabado de se pôr não é?
“Posso saber o que você está fazendo aqui?” era um rapaz, devia ter o que, no máximo uns 17 anos, recém formado na escola de magia, um rosto cheio de espinhas. Ele tinha um olhar irritado, os braços cruzados na frente do corpo.
“Ah…” eu abri a boca para inventar alguma desculpa… a idéias me fugiram, então eu disse o óbvio, a única coisa razoável que eu poderia dizer num momento daqueles. “Eu me perdi!” não soei tão convincente como gostaria.
“Ah claro.” ele disse com um olhar desconfiado “Perdido com uma vassoura na mão ao lado da quadra esportiva?”
“É! Quero dizer… sim, claro. Não faço idéia de como voltar.” eu disso, e a última parte não foi de todo uma mentira.
“E posso saber o que você faz perdido com uma vassoura?”
“Não! Bem…. é um assunto particular.” eu disse tentando parecer ofendido “Coisa minha e do sr. Oliwand.”
“Oliwand? O cara que está selecionando as varinhas novas?”
“É, é, esse mesmo!” eu exclamei feliz por par4ecer que enfim estávamos chegando a algum lugar. “Eu sou o assistente dele”
“Uhn, claro…” ele parecia ainda desconfiado mais parecia estar engolindo tudo.
“Essa é a vassoura dele, tinha que resolver uns problema para ele, mas me perdi.” até que minha desculpa não estava ficando tão ruim assim não é?
“E o que você está fazendo ao lado da quadra? Recebemos informações de que alguns vândalos viriam aqui hoje ao entardecer sem permissão, e eu encontro você com uma vassoura.”
”Eu já disse, estou perdido!” comecei a ficar zangado com aquela história. “Se não acredita em mim então pergunte a Herr Oliwand se não sou assistente dele!”
“Não sei não… deveria era te levar para o meu chefe….” ele pareceu avaliar as possibilidades.
“Será que você poderia pelo menos me indicar aonde fica o refeitório?” perguntou Harry pensando em fugir, talvez montar na vassoura e sair por aí não fosse uma idéia tão ruim.
“Nada disso, vou te levar até lá.” parecia que eu havia conseguido meu intento, ser levado de volta para onde havia vindo. Dei uma última olhada envolta e não vi sinal do nazistinha arrogante…. então ele tinha me denunciado não é?
O rapaz se aproximou de mim e me tomou pelo braço, vislumbrei na fraca luz seu crachá Stanislau Schunpike. (n/a: o Lalau, o cara que atende no Nôitibus Andante e tals xP) Bom, eu não fazia idéia de quem ele fosse, e acho que mesmo se ele fosse alguma coisa muito importante eu ainda assim não o reconheciria. De qualquer forma, apenas me deixei guiar pelo rapaz e me menos de 2 minutos eu estava de volta ao refeitório, nem sinal de Herr Oliwand, achei que isso era um bom sinal, afinal, talvez ele ainda não tivesse voltado.
Me desvencilhei do tal Stanislau e coloquei a vassoura de volta no local que Herr Oliwand havia deixado, quem sabe eu ainda não conseguisse sair ileso daquela confusão?
Foi na hora que me virei de volta para Stanislau que aconteceu. A varinha dele estava displicentemente posta no cós da calça, ele se encostou em uma mesa próxima, a varinha ficou presa apenas pos um pedacinho.
Por um momento pensei em avisa-lo, mas algo me deteve, não foi ninguém, nem um desejo astuto de ficar com a varinha dele…. eu realmente n]ao sei o que houve, mas provavelmente fui acometido pelo rancor, estava prestes a me dar mal e ele era o arauto do acontecimento, por mim, não fazia diferença se ele perdesse a varinha ou não.
Eu me apoiei na mesma mesa que ele, um pouco mais distante, emburrado. Ficamos alguns minutos dessa forma, até que ouvimos vozes, a de Herr Oliwands entre elas.
“Vejam bem, são menos varinhas, então vai balançar muito, eu quero o máximo de cuidado possível.” ouvi ele dizer, antes de vê-lo chegar.
Stanislau, que mascava um pedaço de grama, do modo como só os caipiras fazem, largou o pedaço de mato e o tacou no chão, ficando em pé, logo em seguida fez uma posição de sentido. Herr Oliwand vinha conversando com outros nazistas, um de aparente patente alta.
“Então, se vocês puderem tomar cuidado e fazer aquilo que pedi…” o chefe dos nazistas confirmou com um aceno de cabeça bem militar. Herr Oliwand me notou.
“Ah Harry, que bom que ainda estais aqui, precisamos partir sem demora, já está tarde e sua mãe já deve estar zangada.” ele disse-me num tom divertido.
“Sr. esse menino é seu…” começou Stanislau.
“Meu assistente, sim sim. Agora,” Herr oliwand se virou para os outros nazistas “se puderem se apressar sim?” então virou suas orbes desconcentrantemente claras e inquisidoras para Stanislau “Você me dizia algo sobre Harry….”
“Ah, bem, é… sr. ete menino….”
“Schunpike!” um grito forte ecoou “O que você está fazendo aqui seu inútil?”
“Sr. sim Sr., eu estava… estava…” respondeu ele fazendo um aceno com a mão e entrando em guarda novamente.
“Não me importa o que você estava fazendo, saia, suma, você está atrapalhando, volte para o seu posto!” Stanislau se contraiu, vi um tremor passar por seu corpo e ele saiu dali o mais rápido que pôde, ninguém mais deu atenção para ele, ninguém a não ser eu. Quando ele sumia de vista, passando perto de uma amontoado de panos que havia em um canto, eu vi sua varinha caindo ali, quando ele passou apressado em uma marcha desajeitada.
E esta foi minha primeira varinha roubada. A mais sem valor de todas, porém a mais valiosa, pois foi a primeira.
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