O último pôr-do-sol – Capítulo 1

< Anterior | Menu | Próxima >

[Encontro]

Ele nunca mais havia visto um pôr-do-sol. Não que estivesse realmente triste com isso, nunca fora fã de pôr-do-sol mesmo. Coisa chata, ficar olhando o sol ir descendo…. descendo….

Tudo bem que também nunca mais vira o sol nascer… não que confessasse isso para qualquer um. Para os outros ele dizia que tinha visto três vezes o nascer do sol, de longe, antes que este o alcançasse. Mentira claro, ele nunca teria coragem de se deitar depois das 5hs da manhã. Não que ele fosse covarde, isso nunca. Ele só estava contente o suficiente com sua integridade física em perfeito estado. Além do que, ter a pele bem pálida era um charme mais do que bem vindo, ele era feliz sem estar literalmente tostado pelo sol. Mas isso não significava que não podia dizer aos outros que tinha visto o nascer do sol três vezes, afinal, não havia nada de mais em contar uma vantagem ou outra.

A questão é, ele não pensava em pôr-do-sol há anos, anos mesmo. Até que vira aquela menina insolente. Não que não visse muitas ruivas, mas o acaso a fez parecer…. diferente?

Estava chovendo, e bem, ele odiava chuva. Quem não odeia chuva? A chuva molha, estraga penteados, encolhe roupas, deixa tudo úmido e mais mofado que o normal, mas o pior, poucas pessoas saem na rua de noite quando está chovendo. Ele poderia passar horas falando mal da chuva, e passava mesmo, todos sabiam disso, não restavam muitos corajosos que se atreviam a ficar por perto quando ele começava a dissertar em como a chuva era algo inconveniente. Mas naquele noite estava chovendo, e começara do nada, ou seja, ele estava fora de casa, desprotegido e não tinha ninguém por perto para se queixar sobre a chuva. Uma péssima noite.

Ele estava andando, já estava molhado mesmo, então não custava nada andar, pelo menos assim podia ranzinzar em paz, não havia como ficar doente mesmo, então que fosse. Agora, por que ele tinha que ter escolhido andar? Podia ter ido direto pra casa, podia ter ido num dos pubs que ele sabia que mesmo na chuva ficavam cheios…. mas não, ele quis andar. Azar.

A rua estava deserta, afinal, era tarde da noite, e não estava exatamente chovendo, o céu estava desabando, talvez fosse o fim do mundo. Ele deu de ombros, iria pro inferno de qualquer jeito, então que fosse. Mas infelizmente o dia do juízo final ainda não havia chegado, o céu só estava temporariamente se desmanchando em uma chuva torrencial.

Ele estava provavelmente murmurando algo consigo mesmo, reclamando da chuva, pelo menos ele não sentia frio, quer dizer, ele sentia a pele molhada e gelada, mas isto era diferente de sentir frio.

Foi num desses momentos, em que estava murmurando consigo mesmo, reclamando da chuva, da sorte, do mundo e de tudo o mais que lhe passasse pela cabeça que ele a viu pela primeira vez. Nada de mais, ou era o que ele queria acreditar, mas o fato era, havia uma menina parada embaixo de um dos postes de luz, na chuva, e ela sentia frio, do jeito que tremia, ou era isso ou ela sofria de Alzheimer. Ele pouco se importaria com ela se não fosse um fato. A cor do cabelo. Era ruivo, e tinha a luz meio amarelada do poste sobre os fios de cabelo molhado, então na cabeça da menina havia um degradê que ia desde o quase vermelho do cabelo, passando por um laranja claro e chegando a um amarelo. Igual a um pôr-do-sol.

E ele se surpreendeu com isso, pois considerava que havia esquecido como deveria ser um pôr-do-sol, mas estava ali, na cabeça da menina que tremia feito vara-verde, o pôr-do-sol, igualzinho ao que ele se lembrava. Provavelmente o último pôr-do-sol que vira… ou o mais bonito. Fazia tanto tempo e era algo tão irrelevante que ele não lembrava, mas tinha consciência de que na cabeça molhada daquela menina tinha um pôr-do-sol.

Foi então que ela reparou nele. Menina esperta, a maioria das pessoas nem ao menos percebem ele, não que neste exato momento em que ela o pegara observando-a ele estivesse precisamente se escondendo, ok, ele estava parado no meio da rua, mas mesmo assim era difícil as pessoas lhe dirigirem um olhar assim, quase espontâneo. Foi quando ela o encarou, direto no rosto que ele percebeu que o rosto dela não estava molhado só de chuva, haviam lágrimas ali. Ele não pôde evitar sorrir com desdém, afinal ele não podia chorar, nem que quisesse, até porque, achava completamente fraco quem se deixava chorar, e em público!

“Tá olhando o quê cara de papel?!” a menina falou numa voz insolente, embora ainda tremesse de frio.

Ele não se dignou a responder, apenas alargou o sorriso de desdenho. Ela desviou o olhar, voltou a encarar algum ponto à frente, do outro lado da rua. Ele continuou parado a observá-la, avaliava se valia a pena ou não utilizá-la, pelo menos aquela chuva toda teria valido alguma coisa… Se bem que gente molhada assim desse jeito nem era bom…

Ela encarou-o de novo, ele reparou que os olhos dela eram muito bonitos, mas espantou esse pensamento da cabeça no segundo seguinte. Humanos são belos porque são frágeis, quando estão chorando, são o paraíso. Não foi isso que seu mestre havia dito? Ele não se lembrava com precisão, nunca realmente ligara para as abobrinhas que o mestre falava. No olhar da menina um desafio. Desafio a que? Ele riu, só rindo. Em que aquela menina o desafiava? Achava que ele não a pegaria? Provavelmente não era isso, muito provável ela nem sabia o que ele era.

“Você é um vampiro?” ela perguntou, ele sentiu que levara um soco no estômago, ainda bem que não sentia dor, não de verdade. Obviamente que antes que algo pudesse transparecer no seu rosto ele continuou a encará-la sem expressão, apenas soltou uma risadinha de escárnio. “Eu devo estar mesmo maluca para sair perguntando uma coisa dessas para o primeiro estranho que aparece na minha frente.” ela murmurou para si mesma, e ele só pôde ouvir porque não era humano.

“Algo contra?” enfim ele falou, ela estremeceu, e ele soube muito bem que não foi de frio.

De vagar a menina virou o rosto na direção dele, uma mistura de medo, descrença, desconfiança e curiosidade perspassou o rosto dela, ele achou interessante ela ser capaz de demonstrar tantos sentimentos em apenas uma expressão, ele não conseguia passar do nível ‘escárnio’, este era o máximo de expressão ou sentimento que conseguia demonstrar.

“O que você quer dizer?” ela perguntou, difícil – mesmo para ele – definir o que ela estava sentindo naquele momento.

“Se eu fosse um vampiro, você teria algo contra?” ele perguntou se aproximando numa velocidade que estava no limiar do humano, ela deu um passo para trás, mas ele já estava a um braço de distância dela.

“Então vampiros existem…” ela disse isso para si mesma de novo. Ele ficou irritado, só quem tinha direito de falar para si mesmo era ele, ela não tinha permissão de ignorá-lo e começar a falar sozinha.

“Eu não disse isso…” ele afirmou com veneno em cada palavra, mais um passo pra frente.

“Mas… você disse…” ela deu um passo pra trás.

“Eu não disse, eu perguntei. ‘Algo contra?’ Lembra?” dois passos para frente, ela só deu mais um para trás.

Por um momento a garota só manteve a boca entreaberta, não em terror, não em choque, apenas… surpresa?

“Você é?” ela perguntou, e dessa vez inclinou o corpo um pouco para frente, como se estivesse tentada a dar um passo na direção dele.

Ele avaliou-a, um olhar de cima a baixo, será que valia a pena? Meio magra… era bonita, mas estava molhada. Cabelos iguais ao pôr-do-sol… droga, ele não podia. Não por pena, isso ele nunca teve, apenas… não era o tipo de presa que ele gostava.

“Não é da sua conta.” dito isso ele deu mais alguns passos para frente, ela se encolheu por um momento, mas ele desviou dela, apenas roçando o ombro contra o dela, passou direto, seguindo seu caminho. Não tinha graça brincar com alguém que não fosse uma presa, afinal, ninguém podia saber do seu segredo, a não ser que ele a matasse, a consumisse, ou a transformasse logo em seguida, e bem, aquela garota ruiva estava fora de questão. Mas ela não ia desistir tão fácil…. não, ela não podia simplesmente agradecer aos céus por ter sido deixada de lado, não, ela tinha que ser ingrata, tinha que estragar mais ainda aquela noite chuvosa!

“Espera!” ela gritou, e segurou o braço dele logo em seguida, se tivesse deixado para fazer isso um segundo depois não o teria alcançado.

Ele virou-se para ela, e mesmo aquela garota insolente sentiu um frio na espinha, nunca era um boa idéia irritá-lo de mais. As presas dele foram instintivamente para fora, sua boca aberta num sorriso macabro, os olhos antes de um tom cinza gelo agora estavam escuros, como se não existissem pupilas, ele achou que aquela pequena demonstração de poder fosse o suficiente para espantá-la, mas não.

Ao invés de largá-lo e sair correndo, como era esperado que fizesse, ela apertou mais ainda o braço dele, não a ponto de realmente incomodá-lo, mas o deixou mais zangado.

“P-por favor…” ela ainda tinha forças para falar, pelo menos tivera a decência de gaguejar “Me… me trans-transforme.” ela tinha os olhos arregalados em choque “Me-me transforme…. e-em vampi-VAMPIRO!” e fechou os olhos com força, mas não largou o braço dele.

Não que ele não tenha se surpreendido com aquele pedido, ao contrário, sentira que pela segunda vez levara um soco no estômago, mas novamente isto nem por um segundo foi transmitido por qualquer parte de seu corpo, nem um fio de cabelo de alteração.

“Não.” ele respondeu, ela o soltou, pôs as mãos no rosto e de vagar foi quase escorrendo para o chão, chorando. E lá ele a deixou. Saiu o mais rápido (e sem perder a pose) que pôde, ainda deu uma olhada para trás, viu que ela ainda chorava sentada no chão chuvoso. Que garota estranha. Ele não queria mais vê-la nunca mais em sua vida, ou iria acabar matando-a, de uma forma humana e nem um pouco elegante. Ah, como ele odiava os humanos!

Ele só conseguiu se motivar a ir dormir exatamente as 5hs da manhã. Pensou seriamente em ficar acordado e ver o nascer do sol, mas seu amor à própria pele venceu novamente, e ele foi dormir no horário de sempre. Ele não pretendia prestar contas com ninguém pelo menos até o dia do juízo final. Mas a questão era… o que aquela menina maluca queria? Primeiro, como ela sabia que ele era um vampiro? Aquele não era o tipo de pergunta que um pessoa normal fizesse: Oi tudo bem, você é um vampiro? Depois, se alguém desconfiasse que outra pessoa era vampiro, hipoteticamente a pessoa sairia correndo, aquela esquisita não sabia o que era ser um vampiro não? Imagine ela sendo vampira! Se ele fosse católico teria feito sinal da cruz e dito: Deus me livre ter uma criatura daquela como pupila! Mas já era tarde, ele foi mordido pelo bicho da curiosidade. Por que? Essa pergunta povoava a sua mente com uma intensidade incompreensivelmente grande. Por que ela estava parada no meio da chuva daquele jeito? Por que ela estava chorando? Por que ela desconfiou que ele fosse um vampiro? Por que os cabelos dela lembravam um pôr-do-sol? Por que ele se lembrou de como era um pôr-do-sol? Por que… Por que…. POR QUE?

oOo

Ele sentiu quando o sol se pôs. Agora era uma questão de honra, ele tinha que descobrir o que havia de errado com aquela ruiva. Nada de mais, veria qual era o problema dela, só pra poder rir mais um pouco da cara da idiota e depois seguiria com sua vida, nada de pôr-do-sol, nada de nada. Sim, ele sabia que isso era potencialmente uma mentira, havia sido muito bem avisado pelo mestre que se aproximar de mais dos humanos e entender seus problemas era um passo para se matar, humanos são traiçoeiros, o calcanhar-de-aquiles de muitos de seu povo… mas o mestre já havia errado antes não é? E errado feio, o que significava que ele podia estar errado novamente, certo? Bom, não custava nada tentar, além de ele achar realmente muito difícil algum humano conseguir ludibriá-lo.

Ele levantou e…. sentiu o cheiro. Cheiro de pôr-do-sol. Não, calma aí, desde quando pôr-do-sol tem cheiro?…. Não que ele realmente se lembrasse por completo de como era o sol se pondo, pôr-do-sol tinha cheiro? Bom, ele estava sentindo um cheiro que o remeteu a pôr-do-sol, que o levou a pensar na ruiva da noite anterior… falando nisso, qual seria o nome dela? O cheiro de pôr-do-sol era meio fraco, meio instigante, como se fizesse seus sentidos se ligarem, o que ele tinha a perder os seguindo? Nada… realmente. Afinal, não tinha marcado nada com ninguém esta noite, então…

Quando ele deu por si já estava a meio caminho de encontrar a fonte do cheiro de pôr-do-sol, claro que, sendo ele inteligente, muito inteligente diga-se de passagem, já havia compreendido que o cheiro que ele perseguia provavelmente era da ruiva insosa que vira na noite chuvosa e, ainda bem, essa noite não iria chover, ele podia sentir isso. Umidade do ar, ele podia senti-la, noite anterior foi só um caso extremo de mudança de temperatura, o que causou uma eventual mudança no ponto de saturação do ar qu… por que ele estava pensando sobre umidade relativa do ar?!

Só mais duas quadras e ele alcançaria o cheiro, pensou que era melhor tentar não chamar a atenção, não queria que a ruiva esquisita o visse. Vai que ela dava outro ataque? Ele não queria correr o risco de ter que matá-la da forma “humana”, já que daquele sangue ele nunca iria tomar! E bem… ele realmente odiava matar da forma humana… tão deselegante.

Ele deu de cara com um cinema antigo. Parou na entrada, avaliando o aspecto carcomido do prédio. Ridiculamente decrépito, provavelmente seu mestre teria gostado, mas ele… bem ele preferia se adaptar aos tempos modernos, coisa velha era para museu, passado deveria ser destruído e dar espaço ao novo. Por isso que ele preferia ficar a eternidade sozinho do que ter pupilos, nada de novo substituindo o velho no caso dele, era simples, se não houvesse novo, o velho não teria que ceder espaço.

Ele observou dois ruivos idênticos deixando o prédio, os dois tinham a mesma cor de cabelo, mesmas sardas… deviam ser irmãos da menina maluca. Alguns minutos depois saiu um outro menino ruivo bem alto, magrela, sardas também, acompanhado de uma morena de cabelo cheio, o ruivo o encarou, um olhar desconfiado e desafiador. Ele apenas observou o ruivo, soltou um suspiro de exasperação, que cara mais insolente! Ficar encarando-o dessa forma! Isso exigia uma retaliação. Quando o ruivo magrela acompanhado da morena cabelo-de-espuma já iam longe saíram do cinema mais dois ruivos e sardentos, um mais largo e o outro com um rabo de cavalo. Quantos ruivos mais deveriam existir naquele cinema? Será que era um cinema só para ruivos?

Por sorte de seu instinto, ele deu um passo para trás, se escondeu nas sombras da viela ao lado do cinema, um segundo depois saiu uma mulher parecida com uma rolha de poço, bem gorda, ao lado o que parecia ser seu marido, alto, magro, meio careca, e adivinhe, ambos eram ruivos. O cheiro de pôr-do-sol rodeou ele, invadiu-o e consumiu-o, lá estava ela, a ruiva maluca, logo atrás do casal, o cabelo agora parecia um pouco mais claro, visto que não estava mais molhado, ela tinha um semblante triste. Ele a acompanhou com o olhar, até ela se distanciar bastante. Então ele viu que ainda tinha uma pessoa dentro do cinema, prestes a sair, sim, mais um ruivo, um tipinho meio nervoso, óculos de armação de tartaruga, ele trancou o cinema. De onde será que vinha tanta gente ruiva? Seriam todos da mesma família ou era só coincidência?

Intrigante… ver tanto ruivo o deixou ainda mais curioso, cada grupo de ruivo havia ido em uma direção distinta, seguindo seu caminhos, mas a única criatura ruiva que lhe interessava no momento era a garota da noite anterior, quanto ao ruivo magrela que o encarara tão isolentemente, este teria de prestar contas mais tarde. Vampiros têm boa memória para o rancor, boa memória mesmo, podiam guardar raiva e ódio por várias gerações humanas, era divertido perseguir os descendentes do seu desafeto.

Ele seguiu bem de longe a menina estranha, ela estava o tempo todo olhando para o chão… parecia tão diferente da criatura insolente e metida da noite anterior. À frente dela os pais iam conversando sobre qualquer trivialidade, que ele fez questão de ignorar, mesmo que pudesse ouvi-los com perfeição se fosse de seu interesse. Ele sabia que eram os pais da menina por causa do cheiro, irmãos eram um pouco mais difíceis de identificar, o cheiro se confundia um pouco com o dos primos… mas aqueles dois ele tinha certeza, eram os pais dela, um cheiro levemente semelhante unia-os.

E eles andaram, e andaram… e andaram mais um pouco. Mas que humanos pra gostar de andar! Porque eles não pegavam logo um táxi? Não que ele se cansasse, era muito mais resistente que os humanos, o que o impelia a reclamar era sua curiosidade e pressa, além é claro de ser quase de sua natureza nunca estar facilmente satisfeito. E então eles chegaram. Um prédio da periferia, nem rico, nem pobre, quatro andares apenas. Ele esperou na esquina. Os pais deram um beijo na filha, cada um de um lado da bochecha a mãe disse algumas palavras maternas como: se cuide. O pai apenas desejou boa sorte. A garota sorriu para eles, mas lá da esquina ele pôde ver que não era um sorriso de verdade, era um sorriso amarelo. Tchau, dissera ela. Então entrou no prédio, e ele viu que tinha duas opções.

Podia espiona-la de fora, ouvindo através das paredes de fora do prédio, de uma janela, caso tivesse uma no local aonde ela iria. Ou ele poderia optar por uma abordagem direta, ver o que ela fazia naquele prédio e entrar descaradamente lá como se fosse apenas coincidência ele estar ali. Bem, primeiro precisava descobrir o que aquela menina fazia lá. Depois veria se valia mais uma abordagem direta ou uma espionagem.

Parou em frente ao prédio, nada de mais, não era um prédio residencial pelo que pôde constatar, alguns cartazes anunciando o comércio que ali existia, dentistas, salões de cabeleireiro, modistas, professores de música… nada que lhe desse uma dica precisa de o que a ruiva ensandecida fazia ali.

Então lhe veio um cheiro de pôr-do-sol, ele sentiu o cheiro. Como se o cheiro pudesse toca-lo. Embora ele soubesse que a garota não estava por perto, só que junto desse cheiro, chegou aos ouvidos dele o som de piano. Ele revirou os olhos, odiava piano. Não o piano em si, mas o seu sou. Seu mestre adorava piano… na verdade, órgão. Amava aquele instrumento entediante e de som soprado. De tanto ouvi-lo tocar e discorrer sobre a beleza do som-de-funeral-da-época-da-pedra-lascada ele simplesmente ganhara ódio ao instrumento, que se estendeu ao seu primo, o piano. Insuportável, era isso que era. Horrível, mórbido, vazio, velho. O cheiro de pôr-do-sol estava intrinsecamente relacionado com aquele som irritante, e ele estava quase dando a volta e indo embora, dando a mínima para o que a ruiva maluca tinha a ver com aquele instrumento irritante quando ouviu o violoncelo.

Estancou naquele instante. Se virou e entrou no prédio. Simples assim, sem plano, sem idéia de o que iria fazer, seguiu apenas o som de violoncelo – o som de piano ele ignorava, inclusive, ele era realmente muito bom nisso, ignorar aquilo que lhe convinha. Dom inato esse. Entrou e subiu dois vãos de escada. Segundo andar, virou a direita e encontrou uma porta entreaberta, na verdade, haviam vária portas, mas a única que o interessava era aquela entreaberta, por isso ele nem enxergou as outras. Abriu a porta com a sutileza de sua raça noturna, ficou parado observando a cena, o sorriso de escárnio esparramado pelo canto de sua boca.

Quem tocava o piano era um moleque estranho, de óculos, meio descabelado. Tocava com uma paixão que talvez o mestre nunca tivesse alcançado, embora a precisão quase cirúrgica deste não estivesse ali nas mãos do moleque. A ruiva tocava o violoncelo, como se este fosse um instrumento capaz de rasgar os céus, fosse nos momentos trágicos ou em que ele soava notas alegres. Havia outras pessoas na sala, uma menina que tocava uma flauta transversal, um outro gordinho que tocava trombone, uma garota de maria-chiquinhas que tocava arpa, uma de cabelos sujos e olhos esbugalhados que tocava tambor e em um canto da sala haviam muitos outros instrumentos fora de uso, desde triângulos a pratos de percussão gigantes. Ele não saberia dizer quanto tempo ficara parado ao lado da porta ouvindo aquelas pessoas tocando os instrumentos, mais precisamente a menina ruiva, quando alguém o surpreendeu, e isto era algo realmente admirável.

“Posso ajudá-lo?” perguntou o garoto que tocava piano, o outro havia aplicado tão bem seus poderes de abstração e ignorara tão perfeitamente bem o piano que não percebera que este havia parado de ser tocado, não ter reparado que o piano não era mais tocado na verdade não o surpreendia, a questão é, ele não ouvira o moleque se aproximando dele, isto sim era algo mais que notável para um humano. Olhou-o de cima a baixo, avaliando, como adorava fazer e como sabia que irritava algumas pessoas, aquele moleque insolente, embora tenha se dirigido a ele de forma educada, não gostava dos cabelos despenteados nem dos óculos desleixados, por algum motivo, seu desgosto com aquele garoto foi imediato.

“Estou observando.” respondeu apenas, desviou logo em seguida o olhar, esperando que o outro lhe incomodasse mais uma vez ou ousasse expulsá-lo, para que ele pudesse humilha-lo. Não sabia porque mais queria provocar o outro.

“Você sabe tocar algum instrumento?” o descabelado perguntou, ainda de forma polida.

“Sei.” ele respondeu sem encarar o outro, seu olhar displicentemente pousado na ruiva que ainda não o notara.

“Então junte-se a nós, é só escolher um instrumento.” ele encarou aquele moleque descabelado que apontava na direção dos instrumentos na parede, avaliando as possibilidades… não viu nada de errado em demonstrar um pouco da sua superioridade, o garoto ajeitou os óculos na ponte do nariz, e deixou que fosse visto seus olhos, verdes bem vivos, bem característicos, desafiadores… era impossível não aceitar a proposta… era como se aquele moleque insolente o estivesse testando… duvidando…

Ele foi na direção dos instrumentos que o outro indicava, parou um tempo analisando o que daria um efeito melhor ao ser tocado com sua perfeição musical. Avaliou seriamente o violino, instrumento clássico, assim como o piano, e combinaria com o violoncelo tocado pela ruiva…. mas seria muito sem graça, todos ali pareciam ser apenas amantes da música tradicional, e isto o fez lembrar de seu mestre, o que definitivamente o convenceu a pegar outra coisa, avaliou a guitarra, seria uma boa quebra da harmonia clássica do local, mas daria muito trabalho ligá-la no amplificador, chamaria muita atenção por nada… ele queria algo mais…. pronto, achara o instrumento que procurava.

O moleque de cabelos rebeldes já havia voltado ao piano, parecia estar se concentrando para voltar a tocar, a menina ruiva dirigiu um olhar ao pianista, e com certeza ela era apaixonada pelo descabelado. Não que ela fosse tão deslavadamente óbvia, mas para alguém não-humano como ele era fácil constatar tais tipos de coisas, humanos eram como livros abertos…

Então ele começou a tocar a gaita, esquecendo por inteiro a ruiva e seus afetos e desafetos. Inicialmente a gaita pareceu destoar a harmonia da música primordialmente clássica, mas ele era um mestre e logo o instrumento estava incorporado aos outros. Começou a ensaiar algumas notas diferentes, mudou o tom, a harmonia se tornou maior, a gaita era agora o instrumento principal. Então veio o piano e… simplesmente o acompanhou sem problemas, inclusive nas mudanças de tom e na frivolias que o outro acrescentara à música com a gaita, agora haviam dois instrumentos liderando os outros, o piano se incorporara mais que perfeitamente a gaita.

Um fio de irritação passou pelo gaitista, como aquele moleque descabelado ousava ser bom a ponto de conseguir acompanhá-lo?

Só para testá-lo ainda mais resolveu ir terminando a música e começar outra, sem perder a harmonia, a ruiva errou uma nota no violoncelo, o trombone havia parado há muito tempo, a flauta tremia insegura, a arpa até conseguia lentamente acompanhar, e o tambor não havia nem tentado mudar de ritmo quanto mais de música, continuava a tocar a mesma coisa desde ele entrar ali. Porém, sem perder nem uma nota o pianista o acompanhou, como se só com a primeira nota tocada pela gaita ele já soubesse que música seria tocada. Só que de repente foi a vez do pianista mudar o tom da música, e ainda ousou mandar um olhar malicioso para o da gaita, que apenas respondeu com um sorriso enviesado, e acompanhou sem dificuldades. A flauta parou, estava destoando a música há muito tempo, logo em seguida foi a vez do violoncelo desistir de uma vez, seguido então pela arpista, que não tinha mais como se manter no ritmo, a arpa quase não era tocado mais de qualquer jeito, dando apenas uma nota ou outra, e o tambor continuava perdido ainda na primeira música, sem alterações, embora estivesse sendo tocado mais e mais suavemente, reduzido a um batucar irritante.

Então lá estava o som da gaita e do piano, uma combinação muito estranha, e eles estavam se completando, nenhum dos dois perdia o tom, era um desafio, estavam adaptando clássicos de uma forma que os dois instrumentos não poderiam estar melhor adaptados, mas o gaitista nunca fora acostumado a dividir os holofotes, por assim dizer, então nunca se conformaria em que seu instrumento dividisse atenções com um pianista meia boca de esquina, por isso dificultou tudo com uma aceleração do compasso, com a gaita era mais tranqüilo de fazer isso, mas o pianista ia ter que mexer as mãos mais que freneticamente para alcança-lo e se conseguisse não seria por muito tempo, pois sendo humano se cansaria logo, e a gaita acelerou, acelerou muito.

Porém, o pianista era esperto, ele não acompanhou a gaita, ele desacelerou o compasso, pulando algumas notas para não perder o ritmo, impressionante, tinha que conhecer muito bem a música para conseguir acertar as notas puladas naquele compasso mais lento que se integrava perfeitamente com o instrumento acelerado, eles tocaram a música dessa forma por um tempo, então o pianista começou a desacelerar mais a música, ficou claro que ele queria encerrar. O gaitista pensou em continuar…. mas não teria graça, até porque a noite ia a dentro e ele tinha outras coisas para resolver além de ficar numa competiçãozinha com um pianista descabelado de esquina. A música foi encerrada com um si bemol sustenido.

Aplausos, um viva. O pianista se levantou com um sorriso no rosto, o gaitista apenas deixou a gaita lentamente se distanciar de sua boca, nenhum sorriso, nem de sarcasmo, passava pelo seus lábios, afinal, ele não havia vencido… mas aquele pianista teria o seu tempo.

“Muito bem.” disse o descabelado insolente “Você toca muito bem.” esta frase foi procedida de outras vozes que concordaram.

“Eu sei.” ele respondeu.

“Harry Potter.” disse o pianista estendendo mão. “Prazer.”

“Claro.” respondeu ele se referindo ao prazer que o outro deveria ter em conhecê-lo, aceitou a mão estendia e a apertou.

“Seu nome é…?” perguntou o tal Potter sem lagar a mão do outro.

“Faz diferença?” perguntou ele com um sorriso irônico que sabia que era irritante.

“Aonde você aprendeu a tocar gaita assim?” perguntou a flautista. Ele analisou-a, penetrou os olhos nos da menina, a garota estremeceu e desviou o olhar, tremeu de leve. A mão do pianista que ainda segurava a sua deu uma leve apertada, houve um tensão entre os dois, ele se virou para o descabelado, os olhos verdes o encaravam com suspeita.

“Quem é você…?” dessa vez a pergunta foi lenta e incisiva.

O outro ia abrir a boca para responder algo que colocasse o pianistinha no lugar quando uma voz interrompeu.

“Ele está comigo.” reconheceu a voz na hora e virou para a ruiva que perseguia, ele ergueu levemente a sobrancelha numa expressão educadamente curiosa.

“Com você?” o pianista cismava em não soltar a mão do outro, ainda mantinha o olhar desconfiado.

“É, comigo. Ele veio me buscar não é?” disse a ruiva se levantando, pondo o violoncelo de lado.

“É?” mais perguntou do que afirmou o gaitista, um sorriso maldoso em seu rosto.

“Quem é…”

“Ele é meu…. encontro. Temos um encontro hoje, está na hora não é?” perguntou ela com um sorriso.

“Olha… ela tem um novo namorado.” a tamborista comentou com um ar meio aluado, os olhos esbugalhados, todos pareceram ignora-la, menos o tal pianista que apertou mais ainda a mão do gaitista.

Ele olhou para o tal Potter, viu ciúmes nos seus olhos quando encarou a ruiva, sua mão soltou lentamente a do outro, apesar de estar escrito mais que claro para o semi-humano que havia ali ciúmes, o outro apenas ajeitou os óculos na ponte do nariz e disse de forma displicente:

“Tudo bem, está na hora de encerrarmos mesmo.” e virou-se para os outros alunos “Vejo vocês na sexta.” disse com um sorriso e um aceno “Por hoje é só.”

“Professor!” o menino gorducho falou e foi na direção do pianista-professor.

“Sim Neville?” e os dois andaram na direção do piano, onde o professor começou a ajeitar e fechar ele, enquanto ouvia o que o trombonista estranho tinha a dizer.

“Vamos?” perguntou a ruiva, e o sorriso se alargou no rosto do visitante, era evidente que ela estava nervosa.

“Claro.” e ofereceu-lhe o braço, como um verdadeiro cavalheiro.

A ruiva ainda lançou um último olhar para o pianista que continuava entretido em fechar o piano e escutar o que o gorducho tinha a dizer. Eles saíram, desceram as escadas, chegaram a rua. A menina respirou aliviada.

“Obrigada.” disse com um suspiro de alívio.
“Você está…”

“Estou te devendo, eu sei. Tenho que te pagar o favor com a mesma moeda certo?” Certo. Mas ele odiava ser cortado no meio de uma frase. Quem aquela garota maluca achava que era para pode conhecer as suas regras tão bem?

“Meu nome é Gina.” disse ela com simplicidade.

“Um apelido?” ele sorriu, ela realmente sabia com quem estava lidando. “Será que ele se refere ao seu verdadeiro nome ou é só um apelido mesmo?”

Ela não respondeu, ele não insistiu, então começaram a andar pela calçada, seguindo o caminho oposto por onde tinham vindo mais cedo.

“Quem é você?” ela perguntou após alguns instantes de silêncio.

“Faz diferença?” ele perguntou, observando as pessoas que passavam, tentando identificar alguma presa em potencial.

“Bem, visto que esta é a segunda vez que nos encontramos, eu espero que você não me subestime tanto achando que eu acreditarei que foi mera coincidência…”

“Estais insinuando que eu te encontrei propositalmente?” perguntou ele, um quê de indignação em sua voz usualmente arrastada e sarcástica.

“Bem… ontem eu não sei. Mas hoje eu tenho certeza que não foi coincidência. Mudou de idéia? Resolveu que vai me transformar em vampiro?”

Ele soltou um esgar de sarcasmo.

“Dentre todas as pessoas do mundo, você seria umas das últimas que eu iria querer como pupila.”

“Hey, por que todo esse preconceito para com minha pessoa?” ela perguntou indignada, encarando-o. Ele se absteve de responder, apenas lançando um sorriso irônico.

Eles andaram mais um tempo em silêncio, ele podia sentir que ela se corroia por dentro pensando em dizer algo, mas sem coragem de pronunciar palavra, propositalmente ele não cooperava, estava olhando distraído para os transeuntes, não dando a mínima atenção à ruiva, quase que a ignorando, o que não era tão difícil, já que ela era uma cabeça de altura menor que ele, permitindo assim que ele pudesse virar a cabeça para ambos os lados sem encontrar os olhos dela.

“Eh..” ela hesitou, ele continuou a ignorá-la, mais uns instantes de silêncio, onde ele teve quase certeza que ela estava a um fio de desistir de falar, mas no último instante ganhou impulso. “Você… você sabe aonde estava se metendo?” com certeza não era a pergunta que ele esperava ouvir, por isso encarou-a, uma sobrancelha erguida numa pergunta muda. Percebendo que ele não entendera aonde ela queria chegar, a garota continuou. “Sabe, naquela loja de música, você sabia aonde estava se metendo?”

“Uhn… numa loja de música?” ele perguntou com um sarcasmo venenoso. Ela revirou os olhos e bufou.

“Não é isso. Você por acaso faz idéia de quem é o Harry?”

“Quem? O pianistinha de meia-tigela?” ele perguntou ironizando.

“Ele não é só professor de música… bom, ele usou o nome verdadeiro com você…” ela pareceu pensar por um instante, o seu acompanhante voltou a ignorá-la “Bem…creio então que você não deve ser um vampiro de classe lá muito alta.” ela estava murmurando mais para si mesma, ele arreganhou os caninos ao ouvir esta afirmação, sua aura de ódio podia ser sentida facilmente pelos humanos a volta, que instintivamente desviavam do casal, a ruiva sentiu um frio percorrendo a espinha.

“Eu acho que é você que não sabe com quem está falando…” sua voz era quase um sussurro, uma ameaça.

“Bem… é claro que eu não sei.” ela parecia chateada “Você não se apresenta… como eu vou saber com quem estou lidando?”

“Isso não é de graça…” ele disse, suas feições desanuviando novamente. A ruiva corou, fez uma cara séria, e ele tinha certeza que ela pensava no que poderia oferecer em troca. Por fim ela suspirou. “Eu te forneço tudo que eu puder sobre Harry Potter, e no fim, se você achar interessante pode pelo menos me contar seu nome.”

“E se… Harry Potter, simplesmente não me interessar nem um pouco?” sarcasmo máximo na pronúncia do nome Harry Potter.

“Então eu terei de pensar em outra coisa a te oferecer…” ela respondeu levantando os ombros. Ele sorriu enviesado, a garota parecia saber lidar com seres da noite, ele ficou curioso em saber aonde ela aprendera tanto…

“Pois bem, você tem a sua chance.” ele disse.

Os dois andaram ainda de braços dados até um pub chamado Três Vassouras, um que ele há tempos andava sondando, mas não freqüentava, um que ela conhecia de nome mas nunca nem se quer havia visto pessoalmente, seus irmãos (todos os seis) recomendavam que ela jamais fosse, muito embora eles também recomendassem que ela não usasse saias acima dos joelhos e que chegasse em casa sempre antes das 10h, não importando se ela já tivesse 19 anos ou não.

A garota maluca estava bebericando uma bebida adocicada e gaseificada com teor alcoólico baixo, ele não bebia nada. Odiava álcool. Eles estavam sentados há um tempo, ele não fazia questão de iniciar a conversa, e a garota parecia estar pensando no que dizer, aproveitando enquanto isso para balançar levemente a cabeça, acompanhando o ritmo do show acústico cantado por uma mulher de cabelos rosa chiclete que tocava um violão numa baladinha romântica. Ele observava as pessoas no pub, já avaliando se havia alguém bom o suficiente para ser sua presa, se ele encontrasse largaria aquela ruiva no mesmo instante, afinal, ele tinha mais o que fazer além de ouvir sobre um tal Harry Potter. Por um momento ele encarou a garota a sua frente, os cabelos cor de fogo – ou pôr-do-sol -, estava com a cabeça levemente abaixada, encarando o copo, os cabelos escondiam uma parte do rosto, ela balançava levemente ao som da música. Ela levantou o rosto e o encarou, ele percebeu que a estivera olhando com a boca entreaberta e no instante seguinte transformara a cara de contemplação em um olhar sarcástico. Ela continuou a encará-lo em silêncio por mais alguns instantes e ele temeu que ela tivesse percebido o que ele andara fazendo antes de ela o encará-lo.

“E então, o que você quer saber sobre o Harry?” ela enfim perguntou, quebrando o fio de tenção que ali se instalara, no qual ele pensava seriamente em matá-la para acabar de uma vez com essa tensão ridícula.

“Eu não quero saber nada. Você é quem tem que me convencer de que vale a pena ouvir sobre esse tal pianista descabelado super importante.” A sua voz ganhou novamente o tom de nível máximo em sarcasmo quando ele falou super importante.

“Então eu vou te contar a história do Harry.” disse ela, fazendo com que ele soltasse o ar em exasperação, inclinando-se logo em seguida para trás, encostando-se mais na cadeira, pronto para ouvir um discurso entediante sobre o tal pianista maluco.

“Os Potter descendem de uma família tradicional de caçadores de vampiros, esse é um conhecimento que sempre foi passado de pai para filho na família deles. Só que os pais de Harry foram assassinados quando ele ainda era um bebê, não sei se você já ouviu falar de Voldemort…” ele não demonstrou nenhuma reação ao ouvir o nome, muito embora por dentro todos os seus sentidos tenham sido ligados a menção desse nome, que ele não esperava ter que ouvir tão cedo… “Este vampiro, Voldemort…”

“Eu sei quem foi Voldemort.” ele respondeu de forma seca.

“Então, foi ele que matou os pais de Harry, que só sobreviveu por pura sorte, já que o dia estava quase amanhecendo, então o vampiro foi pego pela luz do sol…”

“Sim, eu conheço essa história.” ele disse impaciente.

“Então como nunca ouviu falar de Harry Potter?” ela perguntou surpresa.

“Porque o que nós sabemos é que Voldemort estava numa caçada a humanos quando por alguma sorte do destino ele foi pego numa armadilha onde foi atingido pelo sol, o que fez com que ele quase morresse. Os nomes Potter e Harry não significam nada, nós não valorizamos os humanos, mesmo os que nos perseguem.” a garota ergueu as sobrancelhas, surpresa por o vampiro ter fornecido essas novas informações a ela quase de graça. “E claro, essas informações lhe custaram uma história mais interessantes e com algo que realmente valha a pena.”

“Bem, ninguém sabe o que exatamente aconteceu naquela noite, só que Voldemort conseguiu enfim matar os Potter e pretendia exterminar a sua última linhagem: Harry, quando não conseguiu e ainda por cima foi pego pelo sol, entrando em uma semi-semi-vida.” a garota fez uma pausa para tomar mais um gole do drinke. “Harry então foi criado por Dumbledore.” ele se mexeu nervosamente na cadeira, afinal, quem – mesmo sendo criatura noturna – não ouvira falar de Dumbledore?

“Ele foi criado por Dumbledore…? Nunca ouvi falar que o velho biruta criasse pirralhos ridículos.” comentou ele com escárnio.

“Bem… ele não foi exatamente criado por Dumbledore…” se retificou a garota “Ele foi educado por Dumbledore, quando completou idade suficiente para ser introduzido no mundo sobre-natural Dumbledore o acolheu como discípulo.” ele levantou as sobrancelhas, nunca havia ouvido falar de um discípulo de Dumbledore. “Como você pode imaginar, para alguém educado por Dumbledore, tendo os pais mortos por um vampiro, Harry se tornou alguém extremamente poderoso. Por isso eu te perguntei se você sabia aonde estava se metendo quando entrou naquela loja, afinal, ele é capaz de identificar um vampiro mais rápido que qualquer um.” ele estreitou os olhos… talvez isto explicasse o momento em que o descabelado chegara perto dele sem ser percebido… então ele no final não era só um pianista despenteado de esquina… “Também creio que ele nunca falhou em uma caça de vampiro, e o que me surpreende de você nunca ter ouvido falar dele, é que foi o Harry que por fim destruiu Voldemort.” ele tentou evitar o susto, mas seus olhos instintivamente se arregalaram.

“O que você está falando? Voldemort nunca seria destruído por uma criança! Se Dumbledore em todos esses anos jamais conseguiu, o que dizer de um pirralho piolhento que nem saiu das fraldas ainda!” ele estava quase revoltado com a insolência da mentira daquela garota. “Até porque, Voldemort foi destruído há três anos, o que significa…”

“… que Harry tinha 17 anos quando o matou, exato.” completou a menina tomando mais um gole de sua bebida.

Ele esqueceu por um momento e fechar a boca. Era impossível imaginar que seu mestre havia sido morto por um moleque de 17 anos…. DEZESSETE! Como o nome Harry Potter nunca havia chegado a seus ouvidos? Dumbledore era muito famoso, e mesmo assim jamais havia conseguido matar Voldemort…. Se bem que ele não se surpreendia por completo por estar tão desinformado, estivera dormindo por 10 anos, e só acordara há 2 anos, sabendo logo em seguida sobre a morte do seu mestre…. não podia-se dizer que ele ficara triste, mas era uma regra básica entre os vampiros que se um pupilo tivesse o mestre morto teria de se vingar, obrigatoriamente. Porém, se um mestre tivesse o pupilo morto poderia se vingar, não sendo obrigado a tanto. Basicamente, ele teria de matar ou aquele moleque descabelado insolente, ou seus descendentes, exterminando de uma vez os Potter da face da terra. Inicialmente não se preocupara muito com essa vingança porque ninguém sabia ao certo quem havia matado o mestre, visto que ele fora encontrado com uma estaca e queimado no sol. Dumbledore é que não fora, já que disseram que havia sido morto pelo morcegão, o vampiro Snape, um ano antes. Para falar a verdade, ele não estava nem um pouco afim de perseguir alguém que fora educado pessoalmente por Dumbledore, conseguia se movimentar melhor até que certos vampiros e matara com apenas 17 anos um dos maiores vampiros dos últimos tempos… isso não parecia nem um pouco motivador.

“Essa informação valeu o suficiente para você enfim se apresentar?” perguntou ela depois de um tempo, vendo que ele ainda matinha os olhos arregalados e a boca aberta, a postura esnobe e arrogante esvaída completamente.

“Em parte, já que eu lhe forneci alguns conhecimentos também.” respondeu ele depois de um momento onde tentava se encontrar novamente.

“Bom, apenas me devolva com a mesma moeda o que lhe foi dado em troca…” disse ela com um suspiro cansado.

“Eu sou de classe 4″ respondeu ele, com um tom de que isso era tudo.

“Hey, isso não diz nada!” ela exclamou revoltada “Não é uma troca justa…”

“Claro que é, quantos de 4º classe você acha que ainda existem?” ele respondeu com um risinho irônico. A garota fez um muxoxo indignado.

“Mas eu te dei a informação toda mastigada, você me deve mais uma informação complementar!”

Ele pareceu avaliar as possibilidades.

“Na verdade…. eu venho com má fé da França, quem sabe não sou um dragão francês?” disse ele em tom de enigma. Ela olhou-o desconfiada, sabendo que naquela frase havia uma pista, algo que ele deixava escapar propositalmente. Mesmo assim ela bufou de mau humor…. provavelmente irritada por só poder pegar seu prêmio depois de pesquisar. Ele sorriu, era o que queria, ser pesquisado, obrigar aquela ruiva a se interessar por procurá-lo… mas não iria nem ter graça, afinal, ele dera tudo de bandeja pra ela…. se ela fosse esperta não iria demorar muito para descobrir quem ele era, claro que isso exigia algum conhecimento de francês e de latim, mas quem se importa? A dica era mais que óbvia.

“Bom… como anteriormente eu te dei algumas dicas e agora te dei todas as informações sobre mim ultra-mastigadas e fáceis de se encontrar, você deve a mim algo..”

“Mas eu sei que o que te contei foi bom o suficiente! Você até mesmo ficou boquiaberto!” Nesse momento ele não sabia o que desejava mais, bater a cabeça na mesa por conta de tamanha estupidez que ele próprio demonstrara ou bater a cabeça da ruiva na mesa por ela ser tão incauta. Ok, na verdade, ele não tinha muito o que escolher, era óbvio que preferia bater a cabeça da ruiva na mesa. A única coisa que o impediu de fazer isso foi pensar que ele poderia sujar suas roupas no processo…

“Veja bem…” começou ele, sem demonstrar ter se importado com o que a menina estúpida dissera “você me forneceu algumas novidades sobre coisas que eu não sabia… mas isso não foi o suficiente, já que foi irrelevante para mim…” obviamente era mentira, ele estava só jogando um verde para ver se ela pegava “Regras são regras… ou você me paga com algo de equivalência semelhante, ou então terá de arcar com as conseqüências…” um sorriso macabro despontou de seus lábios “Afinal, se você quer jogar com criaturas da noite tem que conhecer muito bem nossas regras, se não sofrerá com as conseqüências de um jogo mal feito. As peças podem começar a se mover antes do que você pensa…”

A pirralha mimada ficou pálida, o que pareceu tornar seus cabelos mais ruivos, algo que não passou despercebido por ele, que voltou a se lembrar do pôr-do-sol… Em compensação vê-la ficar pálida o fez perceber que ela provavelmente engolira o seu verde, por conta disso ele esboçou seu sorriso mais irônico.

“Quero dizer…. bem..,” o sorriso dele se alargou, ele adorava ver as pessoas sem jeito “o que eu poderia te dar em troca para nada te dever?” perfeito… assim como toda e qualquer humana ela não sabia jogar com um ser da noite, sendo facilmente ludibriada…

Ele deixou que o momento de silêncio tenso perdurasse pelo máximo de tempo, apenas observando a ruiva que se concentrara em beber sua bebida, parecia querer olhar para qualquer lugar menos para ele, que apenas se divertia imensamente com tudo.

“Bem…” por fim quebrou o silêncio “Assim como dei informações sobre mim, quero que me contes sobre você, quem é você?…. Gina. Não foi esse o nome que você me passou?” ela confirmou com um gesto de cabeça, tomou mais um gole da bebida e enfim o encarou.

Mas não disse nada, parecia apenas estar pensando. Ele tirou o momento para poder analisar o pub em que se encontravam, pensando se valeria a pena voltar ali um outro dia atrás de novas variações no cardápio.

Ele olhava tentadoramente para uma bela loira perto do balcão de bebidas quando a ruiva se pronunciou, desviando a atenção dele por um instante, que embora ouvisse o que ela dizia continuou observando de esguelha a loira.

“Então, o que eu posso dizer sobre mim é: Pesquise Harry Potter.” ele enfim a encarou, uma sobrancelha erguida… então até que ela sabia brincar um pouco, mas porque esse maldito Harry Potter tinha que ser enfiado na história novamente? Em resposta ele apenas fez um barulho a guisa de “ok” e voltou a encarar a loira, que parecia estar só esperando que alguém chegasse até ela…. e pelo porte da mulher não demoraria até que isso acontecesse, o que impacientou levemente ele, que começava a ficar mais que irritado com a presença da ruiva sentada na mesa com ele.

“Não está na hora de você ir?” perguntou de forma seca para a garota de cabelos cor de fogo ainda sem encara-la diretamente. Pelo canto do olho ele a viu olhar o relógio de pulso e em seguida fazer uma cara de pânico.

“Caramba, tá muito tarde! Eu preciso mesmo ir!” ela se levantou, tirou umas moedas do bolso e jogou-as sobre a mesa “Até a próxima Dragão Francês…” ela disse sorrindo. Ele não pôde evitar achar estranhamente interessante esta alcunha que acabara de ganhar, e também não pôde evitar achá-a extremamente bonita com sua simplicidade ruiva e suas sardas efêmeras.

Mas assim que ela saiu apressada pela porta do pub as atenções dele voltaram todas e unicamente para a loira do bar, e um sorriso nada angelical surgiu em seus lábios, que visto de perto mostraria caninos já proeminentes.


< Anterior | Menu | Próxima >

Leave a Reply