O mundo de um youkai
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[Meio]
A inocência… Ou eu faria melhor chamando de retardamento? Do Hugo às vezes me espanta. Sim, agora estou te chamando só de Hugo, então não faça essa cara e pare de ler por cima do meu ombro, eu não fiz isso na sua vez. Privacidade, Hugo. Privacidade!
Sobre o fim desse último texto, diferente do que ele no seu próprio mundo utópico pensa, as pessoas estão sempre atentas aos outros, fazendo questão de expor suas impressões para alguns amigos, ou seja, todo mundo nesse castelo já havia se dado conta que a reclusão social do Hugo na verdade é medo de revelar até a ele mesmo quem ele é. Além do que, basta não ser excessivamente ignorante para perceber que eu nunca saí com nenhuma garota e eventualmente fico amigo demais de certos meninos por um tempo. Parece nessas horas que Hugo viveu mais tempo do que o aceitável em seu próprio mundinho para notar essas coisas, inclusive, notar a si mesmo. É claro que as pessoas dizem que já sabiam, porque oh! Realmente, elas notaram antes de você!
Bom, eu não vim falar sobre isso. Na verdade só puxei o assunto porque ele é contextualizado e eu preciso me acalmar e descontar minha frustração de alguma forma, mesmo que seja na pessoa com a qual tenho convivido 24h por dia há uma semana. Contudo, devo me concentrar é em descontar a raiva em Albus Potter, o ser mais abominável que já pisou nesse mundo. Como, eu me pergunto COMO, alguém pode ser tão abissal? Meu pai sempre esteve certo quando avisou que grifinórios eram imbecis. Se eu o tivesse dado ouvidos metade disso tudo não teria acontecido.
Ok. Hugo está dizendo que eu não estou fazendo sentido, tenho que explicar as coisas. Calma, só preciso respirar um pouco antes.
Era uma manhã clara, fugindo dos padrões usualmente chuvosos desse outono, acordei contente comigo mesmo sem nenhum motivo em especial. Eu e Hugo estávamos nos dando realmente bem e começava a ser cada vez menos incômodo ter de ficar ao lado dele o tempo todo. Hugo estava inclusive tomando mais banhos do que o costume e deixando seu cabelo menos deplorável que o usual. Se me permitem dizer, a imagem de Hugo mudou aos meus olhos, não o imaginava como alguém minimamente interessante antes de vê-lo limpo e arrumado. O que um bom banho não faz com as pessoas?
Naquela manhã em especial eu me sentia muito bem, nunca se sabe o quanto rever o sol após quase um mês de chuvas torrenciais pode motivar alguém, portanto resolvi que era dia de vestir coisas confortáveis, coloquei minha veste mais folgada e minhas roupas de baixo mais antigas (as quais considero sensitivamente mais macias), minhas meias com dos dedos furados e o sapato mais surrado que eu me permito ter. Basicamente, eu estava terrível. Confortável. Contudo, terrível.
Hugo pareceu não ter sido atingido pelo humor matutino do sol enfim visível e continuava com o mesmo semblante levemente parvo que tem toda manhã. Ele chegou a tentar vestir umas vestes sujas, céus, sujas! Por isso que ninguém chega muito perto dele. Todavia, o convenci enfaticamente a tomar um bom banho e usar uma roupa limpa, ainda que sobre protestos.
Uma das coisas mais estranhas que demoramos a nos acostumar foi o banho. Tornara-se levemente incômodo, principalmente se o outro fica muito distante. Ou seja, um toma banho enquanto o outro fica em pé por perto fazendo absolutamente nada. Se quisermos sentar no vaso no intuito de descansar um pouco, já começa a faltar ar e a sensação de pressão na região do tórax, um incômodo completamente desnecessário.
Hugo diz que tomar banho sempre foi desconfortável, entretanto, tenho a impressão de que a cada dia ele vem apreciando mais esse hábito saudável. E seria hipocrisia demais eu negar que um dos motivos para essa súbita mudança de opinião, não é em parte minha culpa. Hugo adquiriu o hábito inconscientemente ganho de observar intensamente meu corpo nu. Acho que ele tem gostado do que vê, por isso os banhos passaram a ser interessantes. Um ambiente limitado no qual se tem um motivo para permanecer despido ao lado de outra pessoa atraente é sempre algo que agrada até a mais simplória das almas.
Eu sei que ele vai ler isso, então não custa dizer que também gosto do que tenho visto naquele banheiro. Entretanto, ainda acho absurdamente desnecessário o hábito que ele tem de corar quando o pego me olhando, digo, qual o problema, não é como se ele nunca tivesse visto outro menino nu em toda a sua vida, certo?
Como eu dizia, aquele era um bom dia, tínhamos sol, eu tinha a minha roupa confortável e Hugo tinha tomado banho e estava satisfatoriamente vestido, cabelo escovado e dentes limpos. Tudo para ser um bom dia, se não, ao menos um dia confortável. Quem sabe poderíamos até compartilhar alguns momentos ao sol nos intervalos? Fazia tempo que a chuva não nos permitia aproveitar devidamente o fato de estarmos do lado de fora do castelo.
O dia transcorreu tranqüilo, os primeiros tempos eram meus, aulas de aritmancia, Hugo conseguiu inclusive não roncar enquanto dormia na aula, uma melhora digna de reconhecimento. Os próximos tempos foram dele, uma aula dupla dividida com grifinórios de herbologia, como sempre, eu não tinha permissão de ajudar Hugo em nenhuma tarefa, afinal, já sabia a matéria, por tanto permaneci calado no meu canto enquanto o via acidentalmente incitar a videira brava e ser atacado por ela.
Hugo deve agradecer à prima dele, que foi rápida o suficiente para soltá-lo sem maiores danos. Inclusive, Lily Potter sempre me deixou desconfortável, ela tem essa estranha mania de me encarar fixamente às vezes, desde o quinto ano. Ela havia parado há um tempo, mas desde o incidente com o primo dela, os olhares retornaram, porém, surpreendentemente agora ela sorri para mim vez ou outra. Uma criatura curiosa ela. É uma das poucas que toleram e é tolerada pelo Hugo, isso deve valer alguma coisa em algum lugar.
Após aulas duplas de herbologia, ainda era a vez dele, e seguimos tranqüilos para uma aula (em minha opinião) inútil de adivinhação. Almoçamos na mesa da Sonserina e foi no caminho para a minha aula de poções que aquele bosta do Albus Potter surgiu.
Nada contra ele, afinal, é primo do Hugo (se bem que sendo um Weasley, é mais fácil perguntar de quem ele não é primo), e bom, somos do mesmo ano e tivemos um histórico de, ahn… Amizade. Mesmo a amizade tendo acabado desde o fim do sexto ano, mantínhamos um relacionamento razoável e tranqüilo. E é exatamente isso que não justifica o comportamento infantil, idiota e sem sentido dele.
O imbecil descabelado nos alcançou no corredor depois do almoço e seguiu para a aula conversando normalmente, o safado! Imagino se ele já não estava planejando tudo naquele momento. Não acredito que ele possa estar na Grifinória, ele é tão, mas tão não honrado e essas outras babaquices da casa vermelha.
Eu estava animado demais para notar algo diferente e Hugo é inútil quando se trata de reparar em qualquer coisa que seja. Então, nesse dia em específico, Albus sentou perto de nós e se pôs a conversar animadamente enquanto preparávamos a poção e eu me deixei levar. Hugo começou a cochilar na mesa assim que passamos pela porta, e confesso que uma companhia diferente não era de todo ruim. Como vizinhos de caldeirão continuamos conversando até o fim da aula, quando entregamos ao professor duas amostras perfeitas. Obviamente, foi nosso comparável talento nato em poções que desencadeou o começo da nossa… Amizade. Era bom poder trabalhar novamente com alguém que apreciava a aula tanto como eu.
Isso foi pura armação daquele dissimulado! Ele sabia muito bem que eu não saia com ninguém há algum tempo, e agora, grudado com o Hugo como eu estava, isso se tornara ainda mais impossível. Até porque, o próprio Hugo estava fora de cogitação. Eu não podia simplesmente pensar em ter algo a mais com alguém que tomava banho comigo há uma semana e ainda corava toda vez que me via sem roupa. Sinceramente, ele tem 16 anos com uma mentalidade de 12.
E o imbecil do Potter sabia disso, ele sabia que eu estava necessitado, carente e precisando relaxar um pouco da presença do Weasley. Mesmo se tratando de uma pessoa de fácil convívio, temos de convir que ser obrigado a dividir sua vida com alguém praticamente desconhecido nunca é como um fim de semana ensolarado em Hogsmead.
E ele me olhou com aqueles malditos olhos verdes que eu gostei por anos, sorriu para mim, aquele sorriso que eu conheci durante muito tempo, e fez uma proposta ao erguer as sobrancelhas sugestivamente e perguntar:
“De noite o sono do meu primo é ainda mais pesado.”
Obviamente entendi no mesmo minuto o que ele estava querendo dizer. Olhei rapidamente na direção de Hugo e o vi ressonando na mesa ao lado tranqüilamente.
“Meia noite ele já está dormindo com certeza.” eu respondi sabendo perfeitamente bem os horários do Hugo, afinal, eu sempre demoro a dormir (maldita insônia), não sou como um saco de bosta que cai em qualquer lugar e fica como ele.
Eu deveria saber, oh, como eu deveria saber que não se deve mexer com ex. Não existe sexo casual com um ex. Nunca. E mesmo assim a emoção, o desejo e a solidão falaram mais alto e eu marquei o encontro com Albus. Nunca me senti tão imbecil.
Claro que tudo inicialmente deu certo. Meia noite ele bateu na porta levemente, Hugo estava completamente apagado. Minha intenção era levá-lo para minha cama, jogar alguns feitiços que silenciassem o ambiente em volta do Hugo (haviam coisas que ainda era cedo de mais para ele saber) e poder curtir uma noite perfeitamente prazerosa. Entretanto, quando abri a porta, Albus voou em mim. Não houve nenhum cumprimento, aviso ou cordialidade, ele parecia ansioso pelo momento derradeiro.
Vai inevitavelmente soar estranho o que escreverei, no entanto, a verdade é que de repente, com a pessoa que eu gostara durante dois anos grudada em mim, corpo contra corpo, eu me senti sujo. Não foi excitação que senti com aqueles lábios, aquelas mãos ou com o contato, foi destacadamente uma sensação de sujeira. Como um ato de traição eminente, traição a mim mesmo.
Claro que isso não é normal, eu não estava traindo ninguém e não achava sujo sair com outros garotos, de forma alguma, por isso tentei expulsar essas sensações da minha mente e quando vi, as minhas vestes já estavam no chão. Albus parecia realmente estar precisando de um trato, eu não me sentia no direito de negar aquilo, mesmo sentindo a vontade de sair do abraço dele e me afastar.
Eu juro, juro que não o vi me arrastando, não percebi a distância que ele estava impondo, enquanto me empurrava de móvel em móvel, fazendo barulho e desarrumando tudo. Só fui perceber quando me dei conta de que a dor no meu tórax não era de prazer, nem devida ao contato físico apertado. Abri os olhos e me vi arfando no banheiro. E eu não estava arfando de prazer, meu pulmão estava realmente protestando, eu não conseguia respirar. Tentei me afastar do babaca, empurrá-lo, meus instintos me diziam para fugir, eu tinha que correr, eu precisava encontrar ele, encontrar ele, só ele importava, não esse estúpido beijando o meu pescoço, eu não estava tendo prazer, queria vomitar, me livrar, porém, meus braços pareciam geléias e eu não podia afastá-lo, eu não conseguia ir atrás dele.
Sinceramente, eu estava já desistindo de lutar, preferia desmaiar ou até morrer de uma vez, do que sofrer daquela forma, por isso eu me permiti um último suspiro antes de me render, naquele preciso instante a porta foi repentinamente escancarada.
Não sei até agora se foi efeito do feitiço que unia nossos corações ou algo mais profundo e assustador que a simples magia, porém, quando vi o rosto sardento de Hugo entrando no banheiro com uma expressão de dor que eu podia jurar ser idêntica à minha, meu corpo ganhou uma nova força desconhecida e imprevista. De repente empurrar Potter de cima de mim foi fácil e eu corri para o Hugo.
Agradeço veementemente ao fato dele ser a pessoa mais desatenta do mundo e por simplesmente não perceber (ou não ligar) que eu estivesse mantendo relações interpessoais com o primo dele no banheiro do nosso quarto. Naquele momento ele só correu na minha direção e eu na dele.
Quando nossos corpos se encontraram as minhas pernas falharam, a última faísca de força se fora. Eu caí lentamente puxando Hugo comigo, ele conseguiu no máximo nos manter de joelhos no chão, enquanto eu sentia o peito dele contra o meu e agradecia ao fato de estar seminu e ele só com uma camiseta, o calor era reconfortante. Foi a primeira vez que tive total percepção de que nossos peitos parecem se encaixar perfeitamente.
O alívio foi imediato. Novamente eu tinha lágrimas nos olhos e desejei nunca mais me separar dele, suas mãos, no geral desajeitadas, passaram pelos meus cabelos, aquele foi o primeiro ato de carinho que eu o vi realizar com qualquer pessoa. Me dei conta do cheiro característico dos cabelos cacheados de Hugo. Como eu não tinha reparado que eram tão cheirosos?
E foi nesse instante preciso que a merda do Potter resolveu rir. Eu sei que não deveria falar palavrões no texto, mas só de lembrar dele eu tenho úlceras de ódio e pouco me importa se vou pegar uma detenção por escrever isso. O Potter é um merda, um completo puto infeliz que eu quero matar.
Se você acha que o filhote de verme-cego com grindylow se contentou apenas em rir e ir embora (Ah, eu teria ficado muito feliz se ele tivesse simplesmente feito isso!), está muito enganado. Aquilo era só o começo. O Maldito começo.
Não lembro o que ele falou, sinceramente, eu estava ocupado de mais tentando fazer meu coração voltar a bater direito para isso. Por alto posso comentar que ele disse achar interessante a falta de espaço que podia ser imposta entre nós e o desgraçado riu, ele riu da cena! Só uma pessoa com o cérebro de uma fada mordente manca pode achar engraçado quase matar duas pessoas. E ainda falam que os sonserinos são os comensais inescrupulosos!
Claro que eu gritei tudo isso na cara dele, e Hugo, com os olhos ainda vermelhos, estava mais zangado do que eu já o vi. Foi assim que começamos uma briga.
Não sei como nem de que forma, eu e Hugo tínhamos levantado e já estávamos na sala com Potter, gritando e soltando farpas uns para os outros. No meio disso tudo eu tinha dado as mão com o Hugo. Esse fato inclusive teria sido desconsiderado se Albus não tivesse me dado um empurrão e feito com que eu caísse puxando Weasley comigo.
Eu sei que estávamos exaltados, e ainda não sei o que minha mão fazia dada com a do Weasley, o que significa que nada naquela noite estava fazendo muito sentido. Ok, eu xinguei Potter e disse algumas verdades, comentei o fato de não o achar mais atraente e Hugo também disse um bando de baboseiras, tanto para mim quanto para o primo, e alguma dessas coisas ofendeu Albus, eu concordei com o que foi dito e quando vi estava sendo empurrado com violência para trás.
Sorte minha que para trás naquele momento significava para a cama. Poderíamos ter ficado só nisso, e eu já teria motivos suficientes para odiar Albus por toda uma vida e mais um pouco além disso. Ele quase me matou!
Foi simplesmente ridículo, não é como se ele pudesse me culpar de alguma coisa ao ponto de a vingança ser a minha morte. Quem terminou o namoro foi ele, eu ainda fiz questão de aceitar excepcionalmente bem o fim, tínhamos um bom relacionamento impessoal e eu não estou andando com Hugo porque pretendia atingir ou irritar Albus. Foi um acidente! Meu mundo não gira entorno de Albus, nunca girou. Inclusive, essa foi uma das desculpas que ele usou para terminar tudo. Babaca egocêntrico de merda.
A questão, é que, não contente com toda essa lista de acusações horrendas contra ele, o imbecil ainda teve a audácia de achar que mais uma travessura não seria ruim para fechar a noite com chave de ouro. Após me empurrar ele sacou a varinha (céus, como eu odeio o fato de ele ser tão bom em duelos, malditos genes Potter!) e atacou desumanamente a mim e ao Hugo.
Se você não sabe o que ele fez, bem, ele simplesmente achou que seria uma ótima piada, ou sei lá o que (o irmão dele era famoso pelo senso de humor igualmente escuso), acorrentar eu e Hugo à cama. Não cada um a sua cama. NÃO! Ele conjurou uma algema prendendo Hugo a mim e outra corrente nos prendendo à cama.
Oh, claro, a piada do ano. Amarre dois garotos já totalmente ferrados por um feitiço a uma cama e vá embora os deixando sem varinha. A minha se encontrava naquele momento no meio das minhas vestes perto da porta e Hugo tem essa maldita mania de deixar a varinha dele na mochila, ao lado da cama dele.
Demoramos dois malditos dias para sermos encontrados pela irmã do Hugo. Veja bem isso, espalharam pelo castelo um boato de que queríamos privacidade! Por isso ninguém nos procurou, mas Merlin sabe como eu agradeço o fato de Rose Weasley ser sensata e esperta o suficiente para notar que Albus estava estranho e que Hugo não teria um final de semana privativo comigo. Ela veio até nós e nos libertou, e fez o favor de parecer preocupada e consternada e não divertida. Mesmo tendo a ousadia de perguntar se era algum tipo de fetiche. Por favor, tirem as revistas femininas das mãos das meninas. FETICHE?
Mas Albus vai pagar. Se vai. Ninguém tem o direito de fazer meu pulso ficar com uma marca ridícula e sair impune. E eu não vou dar ouvidos para o Sr. Hugo Pacifista Weasley. Eu sei que a marca é em parte culpa das movimentações que resolvemos fazer enquanto acorrentados, no entanto não existiram marcas se não houvesse algemas.
E em minha opinião não há males que vêm para o bem. Não mesmo.
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