O mundo de um youkai
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[1º Movimento]
Seus pais ainda estavam arrumando as coisas dentro de casa, a mobília estava sendo posta no lugar certo e os pertences eram enfim guardados, por isso ela ganhara liberdade de ir até o grande quintal para brincar. No momento juntava um montinho de neve gelada, queria fazer um boneco de neve, mas esta estava quase derretida, afinal, era só a primeira neve do ano, nunca durava muito… Estava um pouco decepcionada, porque viera da cidade grande e lá não podia brincar com a neve suja e amarela, só que a dali derretia antes que ela pudesse brincar direito. Ainda assim, estava encantada com a casa no campo, as colinas em volta, as árvores, as flores, os passarinhos… e a neve branquinha!
Foi naquele momento que o primeiro Weasley entrou em sua vida. Por mais incrível que parecesse nos anos seguintes em que analisaria aquela memória, não havia sido Ginny.
Primeiro, por sobre a cerca, ela viu surgir cabelos intensamente ruivos, seguidos por uma testa sardenta, depois, olhos azuis a encararam, assim que viram que eram observados voltaram a se esconder. A garotinha pôde ouvir vozes, uma delas em protesto, e risos.
Novamente surgiram os cabelos, testa e olhos, isso se repetiu umas três vezes, sempre que a cabeça desaparecia, ela podia ouvir novas risadas. Começou de fato a ficar irritada com isso, portanto, deixando o montinho de neve de lado, ela se levantou, colocou as mãos na cintura e disse em voz alta:
- Sabia que isso não é nada educado?
Ouviu mais risos, e enfim três cabeças surgiram pela sebe. Ela ficou surpresa ao notar que não era só uma pessoa que a estivera espiando, ambos meninos eram ruivos, sardentos e de olhos azuis, porém, bem diferentes, dois deles eram idênticos e o terceiro - que aprecia mais novo - tinha cabelos mais claros, nariz mais comprido e não realmente parecia com os outros dois. Talvez por verem que ela abaixara a guarda na surpresa, acharam que já não estava mais zangada.
- Olá garota nova. - disseram os gêmeos ao mesmo tempo.
- Eu não sou garot…
- Somos os Weasley.
- Seus vizinhos.
- É… - completou tolamente o mais novo.
- Me chamo Fred. - disse o da direita.
- George. - completou o da esquerda.
- Ahn…. meu nome é Ron. - o do meio ficou com as orelhas levemente rosadas, já que os gêmeos pareciam gostar de praticamente completar as falas um do outro, e ele parecia deslocado ali.
- E você, garota nova? - perguntou o tal de Fred, os três meninos riram. Só que Hermione não tinha paciência para criancices.
- Não me chame dessa forma! Meu nome é Hermione Granger. - respondeu com a voz severa, nariz empinado.
Os gêmeos trocaram um olhar, e o mais novo a encarou meio emburrado.
- Posso saber o que os três estav… - Hermione apontava o dedo acusadoramente para os garotos quando teve sua linha de raciocínio cortada por uma voz de criança vinda da frente do jardim.
- Um coelho, um coelho! Que lindo!
Ela se esqueceu momentaneamente do sermão para ver uma menininha ruiva - mais ou menos da idade dela - correndo alegremente, os cabelos balançando atrás de si.
O animal que ela perseguia fugiu com saltos incrivelmente rápidos, desaparecendo numa moita alta ao lado da casa de Hermione, a garotinha parou arfante e descontente, olhando por onde seu objeto de perseguição sumira.
Aquela foi a primeira vez que vira Ginny, as bochechas rosadas pelo cansaço, as mãos apoiadas nos joelhos, linda, como sempre. Mas Hermione era Hermione, ela esqueceu completamente dos meninos na sebe, se aproximou da grade da frente, onde a outra esta estava parada, encarou-a, e não se segurou.
- Era uma lebre - disse assim que chegou perto o suficiente para ser ouvida. Sentiu que sua voz saíra um pouco mais arrogante do que pretendera, mas não se importou, pelo menos não até a garotinha a encarar com seus olhos castanhos.
Parecia que não havia reparado na outra menina antes, por isso no seu rosto havia uma pergunta silencioso de quem era aquela outra menina.
- Quero dizer, você ficou chamando de coelho, mas era uma lebre, sabe, as pernas traseiras eram maiores, as orelhas mais compridas… - Hermione tentou se retificar, porém, o máximo que conseguiu da outra foi uma erguida de sobrancelha. Se sentiu um pouco tola, pela primeira ela vez corou. Quando já estava pensando em simplesmente se virar e sair correndo pra dentro de casa, a outra menina resolveu se pronunciar. Primeiro ela sorriu, um daqueles sorrisos puros e divertidos que Hermione viria a apreciar muito no futuro.
- Nossa, eu não tinha idéia! Você é muito esperta, aonde aprendeu isso?
- Ah…! - Ela se sentiu aliviada pela aparente sincera curiosidade da outra menina. - Bem, eu li por aí. - deu de ombros fazendo pouco caso.
- Uau! Você é muito inteligente - normalmente eram os adultos que lhe diziam isso, as crianças no geral preferiam rir dela ou ridicularizá-la por saber mais. - Bem, agora já sei que o animal que eu sempre persigo é uma lebre, obrigada.
- Por nada - disse Hermione em tom de fim de assunto, porém se viu falando antes que pudesse deter - Você teria descoberto isso por si mesma se lesse os livros da escola.
- É, talvez - a garota deu de ombros. – De qualquer forma… quem é você? - perguntou voltando a fazer um olhar intrigado. Hermione poderia ter corado até a alma naquele instante se não fosse orgulhosa demais para se permitir tal atitude. Como ela pudera cobrar educação dos meninos da cerca se nem ao menos demonstrava que ela própria tinha?
- Hermione Granger - respondeu sem demora.
- Ginny Weasley - disse a ruivinha sorrindo.
- Mais uma? - perguntou admirada, era filha única, criada na cidade, já achava que três filhos era uma quantidade imensa, mas quatro?
- Sim, mais uma. Nós temos muito mais “mais um” por aqui - disse um dos gêmeos da cerca aparecendo em frente a casa, ao lado da irmã. Hermione se surpreendeu porque tinha se esquecido que os garotos estavam por lá, mas não pôde evitar ficar curiosa. E isso deve ter aparecido em seu rosto porque logo a outra menina acrescentou:
- Somos sete ao todo. Eu sou a caçula.
- Ginny, você não devia estar aqui, mamãe disse que não podia sair de casa enquanto não se curasse, o que você faz aqui só com essa roupa? - o ruivo mais baixo e de cabelo mais claro também apareceu saído da casa ao lado, parecia zangado.
- Ah Ron, eu já estou quase boa. E o coelh… a lebre apareceu novamente, só queria agradecê-la, porque desde que ela surgiu eu me sinto melhor.
- Mesmo assim, volte já pra casa. - quando a garotinha pareceu que iria protestar o irmão acrescentou - Volte agora se não conto que você fugiu de casa sem agasalho e ficou correndo atrás de um coelho.
- Lebre. - acrescentou Hermione, mas foi terminantemente ignorada.
A menorzinha zangou, fechou o rosto e ficou corada, bufou, mas seguiu em direção a casa, escoltada de perto pelo irmão. Hermione ainda teria muito tempo para admirar a coragem de Ginny, que nunca se deixava levar pelo que lhe era imposto, pelo menos não sem protestar. Contudo, naquele momento, ela achou apenas… fofo, a forma como a outra se portou.
- Bem, creio que ainda nos veremos muito, não é? - perguntou o ruivo que restava.
- Sim, moro aqui agora. - respondeu apontando para sua nova casa.
- Então a gente se vê por aí.
- Sim.
O menino se virou e também foi pra casa, ela fez o mesmo. Afinal, qual a graça de brincar no jardim agora que praticamente toda a neve havia se derretido?
oOo
A primeira vez que ela viu a escola se sentiu deslocada.
Viera da cidade, onde estudava num colégio rigoroso só para meninas, usavam um uniforme padrão - bem incômodo por sinal. Ficava em uma mansão muito rica, bem decorada e limpa a ponto de se não achar um fio de cabelo fora do lugar. As aulas eram dadas por professores severos e o silêncio reinava no ambiente, mesmo no intervalo. As meninas eram ensinadas a ter etiqueta e nunca correrem ou gritarem.
Por isso, quando chegou naquele casebre simples, cheio de crianças barulhentas, meninos e meninas de todas as idades, sujos, alguns sentados no chão de terra batido, ela não se pôde evitar prender a respiração. Aonde havia ido parar? Aquilo lá era um inferno!
Vestira sua melhor roupa, a mais elegante. A ama a levara até porta, mas ela pedira pra entrar sozinha, sempre fora muito independente, porém agora, vendo aquele pardieiro de perto, queria apenas fugir de volta pra casa, e era o que estava quase fazendo quando alguém falou com ela.
- Garota nova! – suas narinas se dilataram e se virou procurando pela multidão de criaturas inquietas quem poderia ter gritado aquilo. Encontrou uma cabeça ruiva, nariz comprido, sardento, um Weasley.
- Ah, Weasley - respondeu com desgosto. Pensou em reclamar sobre essa mania de chamá-la de “garota nova” mas preferiu encarar horrorizada um menininho correr com uma barata na mão atrás de uma garota que gritava em pânico.
- Você está em que série, quantos anos tem? - o garoto perguntou empolgado.
- Tenho 11, no meu antigo colégio estava fazendo o…
- Ah, a minha idade! Vamos estudar juntos - terminantemente ela não gostava de ser interrompida, por isso torceu o nariz para a grosseria.
- Vamos ter aula ali, naquele canto - ele apontou para uma das quinas da sala.
Ela pode visualizar alguns panos postos no chão, uma cadeira bamba e a parede desenhada com giz. Aparentemente era ali que a matéria seria escrita, Hermione ficou chocada.
- Olha, o professor! - exclamou o menino apontando para um homem de trajes monastérios que entrava na sala, ele parecia estar gritando alguma coisa que ela não ouvia, mas as crianças da mesma idade dela e do Weasley se puseram a segui-lo.
Quando voltou pra casa Hermione correu para o novo quarto e se trancou lá. Escola não podia ser algo tão terrível assim. Ela poderia aprender mais sozinha, com os livros, do que com aquelas crianças tolas, o Weasley principalmente! Como alguém de 11 anos não conseguia fazer multiplicação com facilidade? E ainda tinha que ficar ouvindo comentáriozinhos azedos por simplesmente saber a matéria!
Porém, o que ela tinha de inteligente também tinha de cabeça dura, não iria deixar que alguns piolhentos mal educados a dissuadissem pela busca por conhecimento. De jeito algum.
Com o tempo ela foi aprendendo a forma de seguir naquela escola maluca, cheia de monges e freiras, sentar no chão deixou de ser problema, a falta de educação de algumas criaturas já não a incomodava tanto. Além de ter encontrado Minerva Mcgonagall uma ótima freira que parecia entender que a inteligência da menina não poderia ser desperdiçada no meio daquelas outras crianças, e sempre a emprestava bons livros, no fim, estava tudo certo.
Quase um ano inteiro se passou, e Hermione mal saía de casa. Os Weasley ao lado, no começo bem tentavam chamá-la para fazer alguma coisa, porém, educadamente ela recusava, descobrira na escola o quanto os gêmeos eram bagunceiros e Ron sempre pegava no pé dela desde a primeira aula quando ela corrigira uma conta errada dele. Por isso passava a maioria de seus dias em casa, eventualmente passeando pelo riacho ali perto, mas sempre fugindo do contato das crianças, preferindo os adultos, que pareciam entendê-la, ao menos um pouco.
Claro que o pai e a mãe perceberam que a filha, antes tão faladeira e empolgada, andava um pouco mais triste e amuada que o normal, mas deveram o fato à mudança da cidade para o campo, e preferiram dar tempo ao tempo, pois conheciam a jovem o bastante para saber que gostava de resolver seus problemas sozinha, e que quando precisasse realmente de ajuda, não hesitaria em requisitá-la.
Sendo assim, o verão chegou, e Hermione sentiu falta da viagem que costumava fazer para a França, mas aquele ano permaneceria em casa, e ela estava sentada na mesa de chá do quintal encarando sua boneca de porcelana preferida quando ouviu alguém pigarreando. Por um momento ignorou o que tinha ouvido, porém, se sentiu observada e não conseguindo evitar a curiosidade, ergueu os olhos.
Uma menina de cabelos ruivos estava parada na porta de casa, na mão um embrulho, quando seus olhos se encontraram a garota sorriu de forma meio tímida.
- Bom dia.
- Bom dia, Weasley - respondeu desanimada.
- Me chame de Ginny - disse a menina, simpática. - Trouxe biscoitos. Sabe, mamãe estava me ensinando a cozinhar, os meninos não querem provar, e eu vi você aqui, pensei se não gostaria de dividir eles comigo, se estiver muito ruim prometo que bato no Ron até ele se comportar direito com você - Hermione foi pega de surpresa pela proposta, e de certa forma tentada pela oferta. Mas o que a convenceu foi o olhar de Ginny. Descobriria dali para frente, que dizer-lhe um não seria sempre difícil.
- Tudo bem - se viu dizendo antes de pensar direito. Talvez devesse desconfiar, já que a garotinha podia ser como um dos gêmeos, tentando pregá-la uma peça. No entanto, Hermione soube - e nunca saberia dizer como - ler Ginny com muita facilidade, não havia más intenções ali.
Se levantou e foi até o portão, onde deixou a outra entrar.
- Ufa! Achei que você fosse me expulsar a ponta-pés, Ron fala sempre tão mal de você que comecei a achar que fosse uma bruxa. Mas sabe como é, nunca se pode confiar muito na palavra de Ron, por isso resolvi que confirmaria por mim mesma, achei que estes biscoitos fossem uma boa oportunidade.
- São os primeiros que você faz? - perguntou se sentando novamente, de alguma forma, gostou da vizinha, parecia alguém interessante.
- Na verdade, não. Essa é a terceira leva, a primeira saiu queimada, e quando os meninos foram provar acharam horrível, a segunda saiu doce de mais, e todos acabaram passando mal por uma semana. - ela disse pensativa, depois pareceu se dar conta do que estava dizendo. - Mas não se preocupe! Dessa vez eu tenho certeza que ficou bom, e os garotos só passaram mal porque comeram biscoitos de mais! - ela tentou remendar a situação e conseguiu como recompensa um minúsculo sorriso de Hermione, que se divertiu ao imaginar Ronald passando mal.
- Bem, vou experimentá-los de qualquer forma, se você diz que não ficaram tão ruins… - disse tentando desfazer o ar encabulado que a outra menina assumira.
- Oh, você não vai se arrepender, tenho certeza que ficou bom! - dizendo isso abriu o pacote e revelou biscoitos com formatos de pessoinhas, luas, estrelas e flores, ainda saia uma leve fumaça deles, não devia fazer muito que saíram do forno.
- Uau, parecem bons. - comentou antes de pegar um. Ginny sorriu e fez o mesmo.
Hermione mordiscou um pedaço, com um pouco de medo, experimentou, então deu mais uma mordida, a ruivinha a encarava em expectativa, o biscoito estacionado no meio do caminho para boca. Por algum motivo, Hermione resolveu fazê-la esperar mais, aquele rostinho em expectativa… saboreou e demorou a cada mordida para finalizar o biscoito, e só depois de engolir o último pedaço ela se pronunciou:
- Muito bom - disse enquanto já esticava a mão atrás do próximo.
-Uah! Sério?! - perguntou a recém cozinheira empolgada, enfim mordendo o próprio biscoito. - Que maravilha, consegui! Espere só até aqueles moleques verem!
Hermione riu da empolgação da outra, de repente, se sentia menos fechada, e sorrir já não era um esforço tão grande. Naquele momento, em seus jovens 12 anos, ela soube que arranjara uma amiga. Só não sabia, e nem poderia adivinhar, que eventualmente encontraria em Ginny muito mais que isso, muito mais.
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