O mundo de um youkai
< Anterior | Menu | Próxima >
[2º Movimento]
Nervosa era pouco, ela estava quase tendo uma crise de histeria. Aquele seria seu primeiro baile, a festa de 15 anos. Há muito tempo não ia para a cidade grande, e agora, seria apresentada à sociedade como uma possível noiva em um baile, seu baile. Claro que fora permitido que chamasse alguns amigos do vilarejo em que morava desde os 11 anos, entre eles toda a família Weasley. Mas no geral, a festa seria constituída de completos estranhos.
Alguém bateu na porta, e ela quase deu um grito. Estava praticamente perdida sem saber o que fazer, e precisava de alguém capaz de apertar seu espartilho, porém, no nervosismo, dispensara todas as aias que lhe foram designadas.
- Entre! - Gritou torcendo as mãos, ainda faltava tanto e a festa era dali há instantes!
Pela porta adentrou uma jovem com mais ou menos a mesma idade que ela, seus cabelos ruivos presos no alto da cabeça num elegante penteado, estava completamente pronta para a festa; vestia um lindo vestido amarelo que fazia seus cabelos cor de fogo se destacarem ainda mais. Sorriu ao ver o estado da debutante, que correu até ela.
- Ginny, que bom ver você! - Exclamou agarrando a jovem em um abraço apertado, era exatamente dela que precisava. Deixou-se sentir o cheiro do perfume da ruiva… algo tão característico, algo que…
Antes que pudesse se evitar, beijou tenramente o pescoço da outra, que apertou o abraço.
- Mione, calma, vim te ajudar - disse numa espécie de sussurro reconfortante. Hermione se acalmou, algo que não fazia desde de manhã. - Soube que você expulsou todas as aias - comentou divertida, as duas se afastaram do abraço.
- Claro, aquelas criaturas ficavam cada uma dizendo uma coisa, só estavam me deixando mais e mais nervosa, prefiro me vestir sozinha a aturar aquilo! - Comentou enquanto fechava a porta do quarto que ocupava sempre quando estava na casa de sua avó, onde aconteceria a festividade. - Mas foi bom você ter chegado, não sei como faço para colocar o espartilho sozinha.
- Imaginei que acabaria tendo problemas, por isso, aproveitando que eu já estou pronta, vim te ajudar.
Hermione torceu o nariz para o último comentário.
- Isto é porque não é o seu baile de 15 anos.
Ginny sorriu e passou a mão carinhosamente pelo rosto da amiga, ela sempre costumava dizer que a achava linda assim, irritada. Hermione cedeu ao toque e apoiou a mão por sobre a que estava encostada em seu rosto.
- Hoje é o seu grande dia, por isso, acalme-se. - dito isto, deu um beijo na face livre da morena, que quase por instinto não deixou que a outra se afastasse, prendendo seus lábios nos dela. Primeiro um selinho, em seguida um beijo de verdade, um beijo que foi se prolongando, logo as mãos de Ginny se perdiam no mar de cabelos castanhos, Hermione puxava-a mais para perto, sentindo o gosto da ruiva, a maciez do corpo dela, os lábios sempre rosados, que lhe davam vontade de pressioná-los contra os seus…
Em instantes o beijo de tenro foi se tornando um pouco mais desesperado, Hermione arriscou o pescoço de Ginny, que se deixou levar no começo, contudo, logo afastou-se segurando o rosto da outra entre as mãos.
- Mione… seu baile. Hoje… hoje não podemos. - disse sem ar, o espartilho a apertando-a, dificultando a respiração.
Com um último selinho Hermione se deixou afastar, pôs-se novamente na busca frenética por estar pronta e arrumada para o baile.
- Soube que alguém de descendência nobre vai estar por aqui… - comentou Ginny enquanto apertava ao máximo a parte de baixo do espartilho da amiga, que gemia cada vez que a roupa comprimia ainda mais suas costelas.
- Aí! Sim… Urgh! Parece que alguém desse tipo virá… arfh… prestigiar esta pobre rica burgu… sa.
Vestiu em seguida a anágua, saia e todos os acessórios característicos da vestimenta, quando Hermione estava enfim completamente vestida e procurava as jóias que iria usar, Ginny comentou:
- Você está linda, parece a mais preciosa esmeralda dessa cidade - a morena se virou e sorriu. - Qualquer um se apaixonaria por você hoje - disse com um olhar que a companheira interpretou corretamente como algo entorno do melancólico.
- Não seja tão exagerada. - disse, e ao final da frase procurou ainda meio hesitante os lábios da outra, que segurou sua cabeça, tomando o precioso cuidado de não bagunçar o cabelo recém arrumado dela, e beijou-a com mais intensidade, como se fosse a perder a qualquer instante.
Dessa vez foi Hermione a afastar-se.
- Gin… não se preocupe, é só um baile - e sorriu, um sorriso nervoso e tímido, um sorriso muito apreciado pela amiga, que sorriu de volta, antes de afirmar novamente:
- Você está linda…
- Obrigada - ela cumprimentou como uma boa dama, segurando levemente a saia da roupa e fazendo uma leve reverência. A ruiva cumprimentou de volta, e de braços dados, ambas saíram do quarto.
- Srta. Hermione, que bom que já está pronta, achei que não fosse dar tempo, vamos vamos! A segunda música já está acabando, os convidados todos já chegaram e seu pai espera para poder levá-la escada a baixo. - a governanta falou enquanto puxava a debutante para longe, Ginny acenou e desejou com os lábios um “boa sorte” acompanhado de uma piscadela, em seguida se afastou procurando descer discretamente e voltar para o meio dos convidados.
A governanta ainda tentou achar algum erro ou defeito de última hora nas vestimentas da aniversariante, alinhou melhor o espartilho, afofou a saia do vestido e corrigiu a posição dos pequenos diamantes e esmeraldas que enfeitavam os cabelos bem arrumados e disciplinados da jovem, até que um dos rapazes responsáveis por trazer o Sr. Granger no momento certo apareceu seguido pelo próprio.
- Querida! - Ele exclamou beijando a testa da filha. - Você está simplesmente fabulosa!
Hermione sorriu, mas aquele friozinho estranho na barriga não a abandonava, esperava que tudo ocorresse bem. Ficou revisando mentalmente todas as instruções que recebera nas aulas: Descer as escadas bem devagar; deixar-se conduzir pelo pai; sorrir sem mostrar os dentes; acenar levemente com a cabeça para os convidados; ao final da escadaria, uma reverência simples para todos. Descer as escadas bem devagar; deixar-se conduzir pelo pai; sorrir sem mostrar os dentes; acenar levemente com a cabeça para os convidados; ao final da escadaria, uma reverência simples. Descer as escadas bem devagar; deixar-se conduzir pelo pai; sorrir sem mostrar os dentes; acenar levemente com a cabe…
A música terminou, e ela prendeu a respiração, a hora chegara, não podia fazer nada de errado.
O pai a guiou até o início da escada, num local em que permaneciam ainda, o som das luzes se apagando pôde ser entreouvido, ela sabia que agora a iluminação principal se concentrava na escada pela qual desceria em instantes, respirou fundo, abriu o sorriso que treinara por mais de um mês e se deixou guiar.
oOo
Ela já devia ter dançado com metade do salão, e a maior parte dos acompanhantes eram velhos barrigudos e fedorentos, além de primos e mais primos que surgiam não se sabe da onde, e outros parentes distantes. Estava cansada e enfadada, mas continuava a manter o sorriso toda vez que era tirada para dançar. Tinha noção que a cada instante parecia mais e mais falsa.
Tudo aconteceu de forma meio descoordenada. Os olhos dela encontraram os do seu pai, e fez o que pôde para demonstrar sua súplica, ele captou e se pôs na frente da fila para dançar com a jovem.
- Pai…
Ao mesmo tempo, não tão longe dali havia um jovem também com seus quase 15 anos, zangado, sendo incomodado pela mãe e pelo pai, que diziam-no para dançar com a debutante, ou seria uma tremenda falta de educação.
A questão era que ele não gostava de dançar. Já havia tido aulas, mas não achava interessante ficar dançando por aí com mais uma daquelas meninas tolas e cheias de risinhos. Mesmo assim, sabia muito bem que não poderia evitar para sempre o momento em que teria de tirar a menina, por isso se deixou - com seu olhar mais emburrado - ser guiado pelo pai até o local no qual os homens esperavam sua vez. Claro que o alto título de nobreza de seu pai foi o suficiente para que os burgueses se afastassem e permitissem que o menino fosse direto para o início da fila.
- Não agüento mais dançar, meus pés doem… e só parecem uns homens fedorentos! – comentou a debutante com o pai.
O homem riu do comentário da filha.
- Não seja tão exigente, vi vários jovens da sua idade. Não há nenhum que te agrade mais?
A menina ainda perdeu um tempo passando o olhar pelo salão enquanto dançavam, mas não encontrou nada parecido com algo que a agradasse. Por isso apenas negou com a cabeça.
- Pai… não posso simplesmente me retirar? - Perguntou esperançosa. - Amanhã tenho realmente que estudar, essa semana inteira mal pude tocar nos livros…
Ele sorriu para a filha, sempre tão esforçada e apegada aos livros. Não sabia de todo se isto era bom para ela, mas não podia evitar agradá-la quando parecia tão dedicada.
- Tudo bem, só mais uma dança e você estará liberada… - dito isto ele deu outro beijo na testa da jovem e cedeu-a para o próximo da fila.
- Agora, a última dança da debutante! - anunciou para os convidados.
O jovem, que era o próximo da fila, engoliu seco. Teria escapado daquilo por um triz, no entanto, teria era na verdade todos os olhos sobre si, afinal, era a última dança da debutante. Sentiu que mesmo os músicos tocavam agora com mais empolgação, as luzes voltaram a se concentrar mais na pista. Sentiu-se repentinamente tímido, não era bem o que tinha em mente quando se deixara convencer a ir dançar…
Hermione sentiu-se aliviada quando o pai pronunciou aquela frase em voz alta. Estava pronta para recepcionar mais um velho fedorento quando se virou e viu um jovem da idade dela: cabelos pretos e olhos incrivelmente verdes a encarando, parecia levemente contraído. Ela fez o cumprimento padrão, ele respondeu, se aproximaram e puseram-se a dançar.
Ela podia perceber que o menino estava um tanto quanto tenso, mesmo assim determinado, não errou um passo que fosse.
- Parabéns - comentou ele, e Hermione percebeu que era só por educação.
- Oh sim, mais uma burguesinha rica debutando, um grande evento - comentou em um tom que tentou fazer soar divertido, porém ela mesma percebeu a ironia mordaz em sua palavras.
O menino desviou os olhos da pista por um instante e a encarou de esguelha.
- Este deveria ser seu grande momento - comentou após alguns passos.
- Ah, é só mais um evento social. Se eu pudesse escolher estaria em casa, lendo algum bom livro.
O jovem riu, e ela gostou do riso dele. Descontraído, sincero… tão diferente dos que ela ouvira desde que começara essa história de festa.
- Acho que livros são aceitáveis – disse ele, dando de ombros. Foi a vez dela sorrir. Aparentemente não se tratava apenas de mais um puxa-saco. No máximo alguém completamente ignorante na arte de galantear.
- Livros, meu caro, são mais que aceitáveis. São a forma de sermos muito mais do que poderíamos ser sem eles.
O garoto deu-lhe um semi-sorriso, mas não disse nada, apenas continuou guiando-a pela pista. Quando a música estava próxima de terminar, ele comentou rapidamente:
- Vejo então que te trouxe o presente errado.
A música terminou, eles encerraram a dança.
- E o que viria a ser? - ela perguntou enquanto, de braços dados, cumprimentavam o público que aplaudia.
- Trouxe um vestido, mas se soubesse, teria comprado livros. - As palmas cessaram, e ele se afastou, se perdeu no meio da multidão. Hermione deixou que os pais, parentes e amigos a rodeassem, enquanto observava os cabelos pretos se afastando.
- Mione, você esteve linda! - comentou Ginny a abraçando apertado, ela enfim voltou a si mesma, sorriu, sentiu o cheiro de flores do campo que a amiga exalava. Sempre gostara daquilo… sempre.
< Anterior | Menu | Próxima >
Leave a reply