Sinfonia nº 3 - Capítulo 4

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[3º Movimento]

Ela estava sentada na cerca que separava o sítio dos Pallet da estrada, balançava as pernas para cima e para baixo; gostava daquele local, pois num canteiro daquele lado nasciam margaridas que ela simplesmente achava fabulosas. Além de ser logo de frente para o lago, e no instante, o sol - que começava a se pôr - tinha seu brilho refletido nas águas escuras. Ela adorava aquele cenário.

Poderia simplesmente ficar naquele local por horas, e sabia que no máximo uma ou duas pessoas passariam por ali. Menos no domingo, quando pessoas de todas as partes do vale iam na direção da igreja.

- Sabia que te encontraria aqui - ouviu a voz de Ginny. Gostava de ouvir a voz dela, sempre trazia alguma espécie de conforto, mesmo que não estivesse precisando ser reconfortada. Sorriu.

- Olá - respondeu brincando com uma margarida entre os dedos.

Ginny se aproximou e tomou seu lugar ao lado da morena na cerca.

- Ron estava perguntando por você…

Hermione ficou tensa.

- E por que ele perguntaria por mim?

- Não sei, mas ultimamente ele tem perguntando muito sobre você, embora fique sempre com as orelhas vermelhas quando o faz. - Ginny riu. Hermione sabia que a ruiva adorava rir do irmão, embora talvez essa não tenha se dado conta de que quando estava envergonhada fazia exatamente o mesmo que o outro.

- Não vejo por quê ficar perguntando por mim, se a única coisa que ele faz no colégio é rir da minha cara e ficar implicando por eu saber a matéria - sentiu o rosto queimar levemente, sua mão tremeu ao apertar a margarida com um pouco mais de força. Sua atitude roubou risos da amiga.

- Vocês dois são muito engraçados. São iguaiszinhos.

- Quê?! - perguntou escandalizada, de tudo que poderia ter ouvido, aquilo não chegaria nem perto de ser algo positivo. - Eu não sou parecida com um moleque ruivo que acha que é melhor do que qualquer um e só faz rir de quem sabe mais que ele!

- Não, mas vocês dois são cabeça dura, difíceis de dobrar e cheios de vergonha um com o outro. - respondeu a ruivinha. - Além do que, o Ron é tão monstro mal educado e grosseiro quanto você uma bruxa ranzinza e mal amada.

- O Ron me chama de bruxa ranzinza e mal amada?! - exclamou revoltada; sem perceber, deixou a margarida escapar de suas mãos quando se pôs a segurar a cerca com força.

- Não, mas é quase essa a idéia que ele faz passar de você. Assim como se qualquer um parar para ouvir-te falando dele, achará que se trata de um monstro bronco e grosseiro.

Hermione emburrou, mas não disse uma palavra. Sendo sincera consigo mesma, sabia muito bem que Ronald Weasley não era um monstro, havia reparado há muito que na verdade ele era sempre até bem prestativo e preocupado com os amigos. Além de ser meio tímido… mas com ela, ele sempre fora um bronco, um baita de um mal educado e…

- Sabe que alguns meninos não sabem como se aproximar das meninas que gostam e por isso implicam com elas? - Ginny a encarava com um olhar esperto de esguelha, como se esperasse a reação da amiga, que arregalou os olhos e se virou para ela no mesmo instante.

- O que você quer dizer com isso?

- Não se faça de boba! - Ginny riu, em seguida deu um soquinho no braço de Hermione, que corara loucamente.

- Ai! - protestou a morena passando a mão pelo local que Ginny acertara. - Acho que não é tão saudável assim para uma dama ser criada numa casa tão cheia de homens… - comentou torcendo o nariz.

- Não comece a desviar o assunto! - ainda sorrindo, daquele jeito que deixava seus olhos apertados e seu rosto sardento ainda mais encantador. - Vamos, confesse que você entendeu o que eu quis dizer, confesse, eu sei que você quer! - Ginny avançou na amiga, cutucando-a, ora com semi-soquinhos, ora com tentativas de cócegas; esta riu e começou a se debater.

- Ginny!… Não! Hahahhahaha, pare! Não…! Ahahahaha… Vou cair! - enquanto se contorcia com a brincadeira, seu corpo foi se inclinando para trás.

- Mione, pare! Assim você vai… - antes que pudesse completar a frase, Ginny viu a amiga caindo de costas da cerca. Tentou em vão segurá-la, porém acabou se desequilibrando e por fim, foi junto ao chão.

Por sorte, o mato crescia alto ali, e a queda das duas não pôde nem ser sentida, ainda que Hermione tenha recebido o peso da ruiva sobre si.

Primeiro houve o silêncio, respirações rápidas, como se quisessem primeiramente se certificar de que ainda estavam vivas. Depois gemidos.

- Aihn…

- Ugh…

Hermione então se deu conta dos lisos fios de cabelo da amiga escorrendo por seu pescoço, achou que eles faziam cócegas, porém, sobreposto ao cheiro de mato que havia por sob si, pensou sentir cheiro de flores. Imaginou se tratar do pé de margaridas que nascia ali do outro lado, contudo, tempos depois se daria conta de que aquela era verdadeiramente a primeira vez que se sentia acendida unicamente com o cheiro de Ginny. No futuro perderia-se naquele cheiro e deliraria com ele noite adentro.

Sentiu que a ruiva parecia soluçar por sobre si, estava levantando a mão para alisar-lhe os cabelos preocupada, quando se deu conta do som. Não era choro, era gargalhada. Sentiu-se um tanto quanto idiota. Claro que Ginny não chorara, ela jamais choraria. Pelo menos não por conta de uma queda idiota como aquela.

- Qual a graça? - perguntou mal humorada, ainda que não tenha feito esforço algum para se levantar.

- A graça?! - mais risos. Teria sido irritante se não fosse Ginny. - A graça é que você é muito desajeitada. Caiu da cerca!

- Mas eu não caí sozinha, não é mesmo? - perguntou zangada, odiava que rissem dela.

- Sim, só que eu caí unicamente porque tentei te segurar. Como dama educada e distinta, jamais teria cometido tal deslize - imitou uma voz empoada e anasalada, Hermione sorriu.

Sorriu porque não podia se evitar. Nunca poderia negar um sorriso à amiga, afinal ela era… Ginny.

- Não seja boba – comentou com um muxoxo. Tentou até evitar, mas não podia, a raiva passara fácil. Como sempre.

- Não fui eu que caí da cerca.

- Ora Gi… - antes que pudesse reclamar por completo, a amiga segurou seu rosto com os dedos gelados.

Segurar seria um eufemismo, pois Ginny apertou com os dedos os dois lados da bochecha da outra, obrigando-a a fazer um bico. Hermione soltou algumas palavras de protesto que soaram ininteligíveis.

Ginny a encarou por instantes que pareceram se arrastar, os lábios rosados entreabertos, as maçãs rosadas, o cabelo caindo a sua frente, estudando o rosto da amiga. Hermione até esqueceu de protestar, encarava a outra sem compreender nada. Se sentiu devorada. Não sabia se pelos olhos castanhos da amiga ou por seus próprios pensamentos e sensações.

Os lábios debilmente abertos de Ginny ganharam um ar divertido, algo que precede o sorriso. A morena sentiu várias coisas ao mesmo tempo: um vácuo frio em sua barriga, o calor ao seu redor e do barulho frenético de seu coração.

- Você fica engraçada assim, sabe, menos séria - comentou Ginny soltando o rosto da outra e se pondo sentada. Hermione não se moveu um centímetro, sentia-se estranha e descontextualizada. E mesmo assim, parecia estar um centímetro mais próxima do paraíso, flutuando. Seu lado racional achava tudo aquilo uma besteira descomunal. Mesmo assim ela queria poder prender o que sentia no momento dentro de uma garrafinha e guardá-la por toda a eternidade, só assim sentiria novamente aquele êxtase estranho.

Mal sabia que, na verdade, experimentaria ainda muitas outras novas e deliciosas coisas dali para a frente.

Quando mais velha analisasse essa primeira sensação - nem ao menos devastadora - entenderia o quanto ainda era ingênua. Nunca teria precisado guardar nada em um frasco, todas as células de seu corpo lembrariam dos mínimos detalhes com uma precisão incrível, mesmo muitos anos depois.

oOo

- Ginny, fique quieta, quero terminar a história, ou você já desistiu de ouvir? - perguntou zangada, enfim levantando os olhos do livro sobre mitologia grega.

A ruiva, jogada sobre as almofadas, bufou.

- Mione, essa história é… chata.

- Mas foi você mesma quem me pediu para ler de novo sobre mitologia! - A jovem tinha um ar afetado, detestava ser interrompida desta forma enquanto lia.

- Sim, mas eu achei que você fosse trazer outra história, não sobre… Ícorum.

- Ícaro.

- Que seja – disse fazendo um gesto como quem espanta uma mosca. - Nem como no primeiro dia, sobre Orfeu, no segundo, sobre o tal monstrengo, Minotauro (este foi até legal…), depois a história dos doze trabalhos do semi-deus (qualquer que seja o nome dele) e agora sobre loucos que constroem asas!

- Hércules, o nome do semi-deus - disse Hermione, Ginny suspirou exasperada. - Se você sabia sobre o que exatamente queria, devia ter avisado logo de uma vez! Assim eu não perderia meu tempo nem você o seu. Tentei unicamente ler sobre as grandes histórias, os grandes heróis, achei que você fosse gostar… - ela se sentiu decepcionada. Tudo que queria era que Ginny ficasse com os olhos brilhantes, e sorrisse feliz com a história, como sempre fazia quando ouvia histórias sobre grandes aventuras ou heróis.

Uma mão delicadamente quente passou pelo seu rosto, Hermione levantou os olhos e encontrou os da amiga.

- Desculpa - disse Ginny numa espécie de sussurro. Hermione se deu conta da extrema beleza da amiga, a cada dia que passava ela ficava mais estonteante no auge de seus treze anos. Os olhos da morena percorreram todo aquele rosto sardento de nariz fino e foram descendo até o colo, completamente exposto daquele ângulo. Engoliu em seco enquanto encarava os seios ainda não completamente formados da amiga. Isso não deveria fazer Hermione tremer ou suar frio, muito menos ter aquela sensação estranha em lugares ainda mais estranhos.

- O-o que… - e soltou o ar de uma vez, não havia reparado que estivera prendendo a respiração. - O que você queria que eu lesse?

Enfim, aquela mão macia foi tirada de perto do seu rosto. Ela sentiu alívio e consternação, percebeu que estivera desejando Ginny. Não sentia culpa, mas sabia que estava errado, tremendamente errado. Era melhor assim, ficarem afastadas. Mesmo que seu corpo desejasse aquela mão macia e quente passando por seu… Corou tão fortemente que achou por um instante que ia explodir de vergonha. De onde haviam surgido tais tipos de pensamentos?

- Sabe o que eu gostaria que você lesse pra mim? - a ruiva perguntou animada, encarando Hermione um pouco mais longamente, como se alguma coisa além da muda negação que a amiga lhe deu com a cabeça. - Tens aí algum livro com a história das Amazonas? Dizem que viviam sem homens. Queria saber como elas… se viravam sozinhas - riu, daquele jeito leve e solto. Hermione sorriu só porque gostava de Ginny rindo. - E também sobre Safo, já ouviu falar? Ah, para quem pergunto, é claro que já deve ter ouvido falar. Ela nasceu numa ilha, Ilha de…

- Ilha de Lesbos - completou Hermione, corando novamente. Percebeu por onde o assunto havia enveredado; parecia que Ginny tinha praticamente lido seus pensamentos. É claro que ela conhecia. - Safo foi uma das grandes poetisas de todos os tempos, chegava a ser tomada como o contraposto feminino para Homero…

- Interessante… - comentou Ginny se aproximando, inclinou de leve o corpo para a frente; Hermione pôde enxergar melhor ainda as formas do corpo da outra através do decote na roupa, umedeceu os lábios sem perceber. - Mas você não parece estar contando a parte mais interessante…

- Ginny, isso não é matéria de colégio, e você nunca ligou para a biblioteca, onde descobriu esta história…? - perguntou conseguindo voltar a ser dona de si mesma. Fechou o livro em seu colo com violência. Sentia perigo naquela conversa, um perigo que ela não sabia se teria forças para evitar.

- Ouvi… uma freira… comentando… - a cada pausa Ginny se aproximava, andando de joelhos para mais perto da amiga. - Sabe… achei interessante o que ela dizia - seu corpo encontrava-se muito perto do de Hermione, que não achou vontade em si para se afastar. - Então eu pesquisei, e encontrei algumas coisas. Você gosta tanto dos gregos… o que conta de Safo?

Hermione ficou alguns instantes com a boca entreaberta, seu corpo e sua mente divididos em sensações; a racionalidade perdia gradativamente contra alguma nova coisa, uma espécie de eletricidade que a percorria e a fazia sentir tudo a flor da pele. Mas ela sabia que não era certo, afinal, Ginny era sua amiga, só sua amiga, amiga de infância, uma amiga linda, que perguntava sobre Safo, com aquela voz, aqueles lábios tão próximos… Será que ela sabia do perigo, o perigo de o assunto se dirigir a…

- Safo foi uma poetisa nascida na ilha de Lesbos, de onde foi expulsa posteriormente. Ficou famosa por sua poesia, que diziam ser escrita para amigas. Fundou a primeira “escola” de poetizas apenas para mulheres. Há boatos de que ela era tão inovadora que chegava a ser apaixonada por suas alunas e que gostava de as… as… - o ar acabou, ela falara tudo rápido, como se a força com que dizia aquelas palavras pudesse afastar dela a verdade, a verdade absurda que tomava conta de si: ela queria ser Safo, e Ginny era sua amiga, amiga de Safo…

- Ela as beijava? - perguntou a ruiva, e de alguma forma sua voz saiu inocente e ousada. Hermione esticou uma mão trêmula na direção do rosto sardento da amiga, encostou as pontas dos dedos na bochecha dela. Ginny fechou os olhos, um sorriso brincando em seus lábios, inclinou um pouco o rosto; a mão de Hermione foi escorrendo para o pescoço, se reteve na altura do colo. Ginny sorriu, e em seu sorriso escondia-se a alegria sincera de quem enfim consegue algo que deseja.

Hermione sabia há muito tempo o que ela e a amiga queriam.

Ginny ia dormir na casa dela de tempos em tempos, passavam as noites lendo, conversando, e fazendo outras coisas de meninas.

Costumavam dar as mãos ao deitarem uma do lado da outra. Ginny às vezes deitava-se sobre ela, exalando o cheiro floral dos seus cabelos. Brincavam de se vestir de mulher e vez ou outra, quando a amiga ia colocar-lhe algum colar, seus braços espremiam os seios dela, Hermione sentia-se eletrizada. Certa vez, quando observava Ginny com o cabelo suspenso com as mãos, aparentemente imaginando um penteado, chegara a beijar-lhe o pescoço, de uma forma menos inocente do que o permitido. Há noites elas dormiam abraçadas, com os corpos juntos, falando sobre qualquer coisa, e ela, ela não podia evitar reparar que havia algo ali, algo que estava errado, algo que estava tão certo que a desesperava, precisava seguir em frente, em frente, até o fim, enfim…

Sua mão desceu pelo colo de Ginny, entrando por dentro do decote, alcançou os seios, tão macios… A ruiva inclinou o corpo, fazendo a mão de Hermione pressiona-los; as duas soltaram o ar numa rajada só.

Foi a vez de Ginny explorar o corpo da outra. Não hesitou, buscou a cintura de Hermione, puxando-a direto para um beijo. Começou com um selinho, temeroso, fraco. Um gosto macio, uma mordida leve, uma lambida, então as línguas se encontraram. Foi instintivo, foi saboroso, gostoso e logo uma mão foi dos seios para o corpo e a outra foi do corpo para os seios. Tudo soava apenas como uma brincadeira, elas estavam apenas se divertindo juntas, sentindo, apreciando a textura da pele, a leveza, a maciez, era tão bom… Caíram rindo no meio do beijo por sobre as almofadas, Hermione por cima. Era quase como a queda na cerca, praticamente a mesma coisa, só que dessa vez tudo estava perfeito, acontecia da forma certa. Elas estavam se abraçando como deveria ser. Pele contra pele, bochecha contra bochecha, e o cheiro de flores!

- Mio… - o resto no nome que Ginny pretendia chamar foi perdido no meio de um suspiro quando um beijo alcançou o pé de sua orelha, vibrando-a. Lábios se encontraram novamente e se afastaram em um rápido beijo.

Hermione ergueu o corpo e encarou Ginny por instantes, as duas coradas, arfantes, lábios mais avermelhados que o normal, os olhos oblíquos, um tenro sorriso se esparramando. Hermione se levantou de cima da amiga, jogando-se a seu lado, dedos se procuraram e se entrelaçaram.

- Ginny…

- Eu achei que você nunca fosse tomar coragem. Cheguei até a achar que não queria… mas eu sabia Mione, sabia…

Hermione riu, riu feliz como poucas vezes fazia: ela também sabia, desde sempre. Percebeu que desta vez flutuava mais um pouco acima do chão. Bobeira talvez, mas era aquilo que ela queria, estar acima do chão de mãos dadas com Ginny. Ainda teria muitas e muitas noites nas quais experimentaria outras coisas ainda mais fantásticas com a amiga. Ela sabia isso desde aquele primeiro beijo. Primeiro de muitos.


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