O mundo de um youkai
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[4° Movimento]
Há um bom tempo que freqüentava bailes, e ainda assim não se conformava em como eles eram chatos. Principalmente quando não podia levar Ginny junto, pois pelo menos ela era sinal de diversão. Solitária, apenas com a companhia dos pais e de alguns primos e primas quase desconhecidos, ela se sentia perdida, entediada e invariavelmente obrigada a socializar - ou melhor, dançar.
Como se não bastasse, seus pais andavam dizendo que ela estava ficando velha. Por isso mesmo deveria freqüentar as festas da alta-sociedade, onde encontraria um bom moçopara enfim se casar. Obviamente Hermione ficava revoltada, principalmente quando ouvia outras pessoas falando que seus genitores eram complacentes demais ao permiti-la escolher seu futuro marido. Ora essa, quem disse que ela queria escolher alguma coisa, por quê tinha que escolher? Desde quando ter de escolher algo que ela não queria era uma boa coisa?
Talvez - e quando pensava nisto era só em última instância - ela devesse pedir para seguir a vida religiosa, ser freira. Levaria Ginny junto, e estaria tudo certo, todos os males teriam acabado. Com a amiga, os problemas pareciam sempre menores. Infelizmente Hermione jamais teria coragem de fazer isso, pelo menos não enquanto ainda lhe restassem alguma opção. Sabia que ela e Ginny tinham uma relação que ninguém jamais aprovaria, o que pouco a importava, afinal, era a relação apenas dela e da amiga, outras pessoas não tinham nada que ver com alguma coisa. Mesmo assim, Hermione não conseguia se imaginar profanando a casa de Deus, como se Ele não significasse nada. Havia também um limite para as loucuras que se poderia cometer.
Foi com a mente cheia de pensamento e devaneios que se pôs a sair da pista de dança, havia acabado de dispensar outro homem fedorento, gordo e provavelmente careca por debaixo do chapéu e da máscara. Pretendia sentar um pouco, até que o pai, uma das tias e tios ou mesmo a mãe surgisse com mais um “pretendente perfeito” que a obrigaria a dançar de novo, como se nunca bastasse.
Sempre que aparecia alguém da idade dela, de aparência minimamente interessante, era um ser metido a galanteador com típico ar de mulherengo. Ela odiava isso. Só não sabia se odiava mais ou menos os velhos fedorentos. Ambos eram completamente insuportáveis. Só Ginny era capaz de relaxá-la naquelas festas enfadonhas, regadas de homens sem valor.
Na verdade, mesmo se aparecesse na frente dela o pretendente perfeito, duvidava que fosse notar, de nada lhe serviria um marido…
- Desculpe!
Ela sentiu as mãos fortes a puxando antes de ouvir o pedido de desculpas, demorou alguns instantes para notar o que acontecia, seu corpo respondeu antes que seu cérebro. Ela já estava dançando quando se deu conta de que, sem pedir permissão ou licença, havia sido tirada para dançar. Chegou a abrir a boca para protestar a grosseria - como se ela fosse qualquer uma! - entretanto, ele a interrompeu:
- Me desculpe! Mesmo.
Pareceu-a tão sincero que instintivamente a revolta deu lugar a uma curiosidade. Ele nem chegava a olhá-la, parecia procurar o tempo todo alguém por sobre o ombro dela, ele era apenas alguns centímetros mais alto.
- É que… bem, me desculpe por pegá-la assim de surpresa. Você me pareceu desacompanhada no momento e eu, eu… - ele hesitou, corando levemente. Hermione instigou-o com o olhar, queria pelo menos ter uma boa justificativa para ter sido puxada tão bruscamente para dançar. - Bem, eu estava pensando em mentir e dizer que você me pareceu linda e eu não resisti e tive de tomá-la para a dança, ou que jovens tão formosas não deveriam permanecer desacompanhadas, mas a verdade é que quando eu te tirei, nem conseguir ver seu rosto, principalmente por estas máscaras (odeio baile de máscara, só serve para dificultar o reconhecimento das pessoas), então eu, bem… - ele parou novamente de falar, olhou para os lados, sem jeito, ela não pôde evitar notar que o jovem tinha olhos incrivelmente verdes. Sentiu a raiva se esvaindo, mesmo não gostando de toda a hesitação.
- Então você…? Achou que ia ser divertido ficar pegando para dançar a primeira jovem que visse pela frente? Sem nem ter o mínimo de educação, cordialidade ou…
- Não! Não é nada disso! - ele suspirou exasperado, mais uma vez hesitou. Seus olhos ansiosos a encararam, ele suspirou e se pôs a falar. - Tem… tem essa jovem, ela fica atrás de mim e eu não posso evitar sua presença sem ser rude. Na verdade, creio que mesmo sendo rude ela não desistiria tão fácil, e eu não faço idéia do que ela viu em mim. De qualquer forma, a verdade é que eu só buscava um modo de fugir, você estava bem na minha frente, sozinha… Desculpe.
- Então você não tem o menor pudor de confessar que não foram meus “lindos cabelos cacheados como as nuvens”, meus “olhos cor de mel”, ou meu “belo semblante delicado” que te atraíram? Ou que você não faz idéia de quem eu seja e que meu dote não te importa nem um pouco? Eu fui só a… primeira mulher que te apareceu no caminho?
- Ahn… sim, pode-se se dizer que foi isso mesmo. Mas você não podia esperar que eu começasse a inventar tantas desculpas ou elogios assim, do nada!
- É o mínimo que um rapaz normal faria, aproveitaria a chance da fuga para flertar com uma jovem dama, mesmo que no final não estivesse de fato interessado nela.
- Oh, jovem dama, então me desculpe por não ser um galanteador, mas se não percebeu ainda, eu não estou interessando em sair do nada com alguém que nem ao menos conheço.
Hermione riu. Ou ele realmente não sabia como agradar uma dama, ou aquela era uma forma muito inovadora e esquisita de flertar com alguém.
- Você existe mesmo? - perguntou num tom divertido.
- Ora, que pergunta mais sem cabimento - ele parecia irritado, aparentemente a situação não o agradava.
- Afinal, esta jovem é real? Esta tal que te persegue com tamanho afinco? Ou ela é só uma desculpa? - Hermione insistiu, porque apesar de parecer irritado, ele continuava a dançar com ela. Podia se tratar apenas de um bom ator, só mais um golpista.
- Eu já disse que não é uma desculpa - ela pôde ver que por baixo da máscara branca e simples, ele corara. - O nome dela é Romilda Vane se você quer saber, deve estar por aí em volta. Ou com alguma sorte, achou outra pessoa para perseguir.
- Ela é assim tão feia? - perguntou ácida. Não estranharia descobrir que aquele jovem havia feito de tudo para encantar o coração de alguma pobre moça e agora arrependia-se. Provavelmente seria uma jovem de beleza que escapava dos padrões. Detestava este interesse único em beleza e bens materiais que pareciam nortear os jovens e velhos da sociedade. - Ou será que tem mau hálito? O que faria um jovem fugir como diabo da cruz por conta de uma moça?
Hermione havia parado de olhar do rosto do jovem há tempos, mesmo ainda falando com ele, procurava encontrar alguma jovem mais simples, gordinha ou feia (mesmo por debaixo da máscara) rondando com um olhar cabisbaixo, triste ou irritada, por isto, ao final da frase, quando sentiu que o leve segurar de mãos do companheiro tornara-se um aperto, percebeu que o havia atingido de alguma forma. Voltou a encará-lo, e deu de cara com um olhar zangado. Ele suspirou exasperado, mas continuou sem dizer uma só palavra. Hermione começava a realmente se zangar, percebeu que ainda dançava com ele. Se sentiu idiota, por que aceitava continuar a valsar com este tão deselegante acompanhante? Claro que a música ainda não havia terminado, e não ficaria bem, mas ela tinha o direito de…
Sua linha de raciocínio foi cortada quando um de suas primas passou por ela dançando com o noivo e piscou-lhe o olho de forma muito significativa, além de pronunciar com os lábios algo como: Parabéns, e Boa escolha. Ficou ainda encarando a prima, que se afastava dançando e voltara a se distrair com outras coisas, tentou compreender por quê fora felicitada, e seu olhar voltou a encontrar a face emburrada de seu par. Pela primeira vez se perguntou quem seria ele…. Afinal, o tom de verde não lhe era estranho, já o havia visto em algum lugar, e era de fato, algo bem característico…
- Livros? - ele perguntou, ela saiu por instantes de seus devaneios e o encarou, sem entender. - Devo te dar no seu aniversário livros no lugar de vestidos?
Houve um momento de silêncio, Hermione reconhecera instantaneamente com quem dançava, era o jovem da última valsa dos seus 15 anos. Agora, com 18, ela reparava que o menino realmente crescera. Isso mesmo, era de lá que ela conhecia aqueles olhos incrivelmente verdes, há três anos atrás ouvira aquele comentário.
- É você…! - exclamou esquecendo por um momento que estava com raiva.
- Então foi mesmo você… - ele comentou pensativo.
- Ora, não devia confessar logo de uma vez que só me tirou para dançar porque me reconheceu? Pois sabia exatamente quem eu era… - a raiva voltava a ela.
- Como você supõe que eu fosse te reconhecer com toda essa parnafenalha de máscara, leque, roupas extravagantes…? Além do que, olha essa sua máscara, não tinha algo menor não? - Hermione soltou uma espécie de muxoxo indignado, o fato era que entre as opções dadas por suas primas, aquela foi a menos ridícula que encontrara. - Eu só a reconheci agora, esse nariz meio empinado, o ar de quem lê de mais…. e ainda me demorei para ter certeza que era você mesma.
- E como concluiu que era eu?
- Não conclui, por isso fiz a pergunta…
Aquele rapaz de fato não sabia flertar… como podia haver uma menina atrás dele? Perdera inúmeras chances de cortejá-la. Será que era mesmo apenas um grosseirão, ou a achara incrivelmente feia e não interessante? Seria impossível haver alguém tão…. direto ou desinteressado no mundo? Talvez… talvez ele já houvesse dado o coração para outra jovem, e era fiel a isto. Ou quem sabe Hermione andasse lendo romances de mais!
Voltou a se sentir emburrada, queria que a dança acabasse de uma vez.
Deram mais uma volta em silêncio, quando perceberam que a valsa se aproximava do fim, ela suspirou aliviada, quase não poderia haver algo pior que aquilo… ao menos não se tratava de algum barrigudo fedorento, e isto era um grande consolo…
O público aplaudiu ao som do último violino, os casais se cumprimentavam, ela fez uma reverência de qualquer jeito, queria só se livrar do fardo.
- Lorde Harry Potter - disse ele antes dos cumprimentos terminarem. Ela ergueu os olhos, surpresa, esqueceu de falar por alguns instantes.
- Hermione Granger. - e dessa vez abaixou um pouco mais a cabeça.
- Acho que fico te devendo um favor Srta. Granger, achei que você fosse sair correndo, ou me dar um tapa a qualquer instante…
- Uhnf! Pode ter certeza que estive a ponto de fazer isto. - ela voltou a se sentir idiota por não ter tomado uma atitude desde o começo, o que ele estaria pensando dela agora, uma qualquer, isto que devia achar.
- Lorde Potter, o senhor é muito gracioso quando dança…! - exclamou uma voz atrás de Hermione, ela se virou e deu de cara com uma bela jovem de cabelos e olhos escuros, uma máscara suntuosa no rosto, abanava um leque igualmente chamativo. - Agora… gostaria de saber por quê não me chamou para dançar.
E encarou com um olhar crítico de cima a baixo Hermione, que sentiu o rosto corar e o sangue ferver, que jovem arrogante! Aonde já se viu encarar alguém daquela forma?
- Srta. Granger aqui é uma exímia dançarina, não pude evitar tirá-la para dançar. Espero que compreendas, não danço a toa… - Hermione não sabia por que enfim ele resolvera mostrar que sabia soltar flertes, mas gostara unicamente pelo prazer de ver a outra jovem ficar com um semblante zangado, não gostara dela nem por um segundo.
- O senhor é muito cortejador Lorde Potter, no entanto, temo que seja a minha hora, e insisto que dance com tão encantadora jovem, não a deixe esperando. - dizendo isso com um sorrisinho, se virou e rumou em direção à sua família, sentindo que se vingara pelo menos um pouco, no mínimo o deixaria sem graça.
Ao chegar ao local que algumas de suas primas se sentavam, foi bombardeada por infinitas perguntas.
- Prima, é verdade que dançavas com o jovem lorde Potter?
- Eu vi, não foi? Como ele é?
- Dizem que é o par mais difícil de se tirar, como conseguiu?
- Jogou seu charme nele?
- Pode nos apresentar a ele, se não se importar?
- Ele é o mais lindo, rico e de alta estirpe pretendente que se poderia querer.
- Já enamoraram-se?
- Achas que consegue noivar com ele?
- Como conseguiu fisgá-lo?
- Foi a máscara não foi? Não disse que com ela ninguém te resistiria?
Se não estivesse já acostumada com a tagarelice das primas, teria se espantado, demorou pelo menos alguns minutos até que estas se acalmassem um pouco e a deixassem falar. Porém, ela não tinha vontade nenhuma de contar como fora pega de surpresa e com tamanha falta de educação, que ainda assim continuara dançando. Até porque, não ficaria nada bem para ela, por isto pulou a parte das perguntas de como conseguiu uma valsa com ele se foi direto ao como foi.
- Bem, impossível negar que ele sabe dançar, não pisou no meu pé uma única vez e…. - tentou ao máximo possível ser precisa e se prolongar, pois sabia que as parentas eram detalhistas e gostavam de saber sobre tudo, por isso teve de passear desde o cheiro até o hálito e descrever como sentira ser o corpo dele por debaixo dos panos e muitos outros detalhes, quando o assunto estava quase saturando voltaram a perguntar de como ela havia conseguido a dança.
- Dizem que é quase impossível conseguir ser tirada para dançar por ele, e que as mais belas, ricas e bem nascidas jovens já tentaram, sem no entanto alcançar a graça…
- Bem, adoraria contar mais a vocês, no entanto, a máscara começa a me incomodar e meus pés estão me matando, se me dão licença, acho que por hoje vou me retirar…
Houveram alguns protestos, entretanto, no fim ela conseguiu se retirar, e deu graças por seu pais aceitarem voltar logo para a casa da avó, na qual sempre se hospedavam quando vinham à cidade.
oOo
As noticiais do dia seguinte não foram nem um pouco agradáveis, ficaria na cidade ainda por duas semanas. Duas semanas inteiras sem Ginny, sem o campo, sem as árvores, o riacho, as fugas para o meio da floresta… Claro que zangou, tentou discutir, e pela primeira vez ameaçou seguir a vida religiosa num convento, no entanto foi dissuadida com um acordo: duas semanas a mais, e a promessa de que teria seis meses sem precisar ir a um evento social que não quisesse.
Talvez tivesse desistido do acordo se soubesse que teria de passar praticamente todos os dias das duas semanas em eventos sociais, almoços, jantares, festas, teatros. Nunca se sentira tão mal de ter de sorrir e fingir simpatia com pessoas que falavam apenas das coisas mais irrelevantes. Porém, no futuro, analisando essas memórias, Hermione jamais saberia se no final agradeceria ou não pela insistências dos pais.
Por um lado, foi graças a tais eventos que Harry de fato entrou em sua vida, por outro, foi quando ela começou a perder Ginny. Seu jovem coração já não era só de uma pessoa ao final daquelas duas semanas.
Reencontrou lorde Potter no terceiro dia do acordo com os pais, o que já parecia sere mais de uma semana de tortura. Hermione tinha a alma livre, podia suportar um ou outro evento, podia fingir sorrisos e agir como uma dama por algum tempo. Na verdade, acreditava que estaria até se divertindo se Ginny estivesse ali, mas não agüentava ficar tanto tempo longe do campo, longe da liberdade, longe da criatura que detinha suas atenções e desejos até aquele momento.
Não havia reparado nele durante o almoço na casa de uma das senhoras ricas e empoadas, afinal, haviam ali muitas pessoas e a mesa era simplesmente enorme. Estava agora sentada em uma das poltronas da sala de estar, a mais afastadas de todo o resto, ajeitava o sapato que começara a incomodar quando uma figura bem vestida parou a sua frente, um copo de bebida numa das mãos, ela olhou para cima, um pouco envergonhada pela situação em que se encontrava, no entanto, encontrou um sorriso. Um sorriso com olhos verdes.
- Ah, lorde Potter. – cumprimentou, um tanto quanto incomodada.
- Srta. Granger. Se me permite? – perguntou apontando para a poltrona ao lado da dela, não tendo saída, apenas sorriu como fora treinada. Ele se sentou, logo em seguida tomou um gole do próprio copo, e pela segunda vez a jovem pôde reparar o quanto ele não era convencional, afinal, qualquer outro cavalheiro, para pedir lugar ao lado de uma dama, no mínimo traria junto de sua própria bebida uma para ela, porém ele não fizera isto.
No futuro, quando conversassem sobre estas pequenas coisas, ela descobriria que não era necessariamente falta de educação, na verdade, ele havia reparado anteriormente que ela negava toda e qualquer bebida oferecida e sabia que iria bancar o papel de idiota indo-a oferecer o drink e tê-lo negado, tendo de voltar para a mesa com o copo a mais, por isso simplesmente chegara e se sentara.
- Achei que só fosse te ver de novo daqui há três anos…. não três dias. – comentou ele num tom entre o divertido e o casual.
- Pelo visto três é o nosso número. – comentou ela, fazendo-o sorrir.
- Bom, pelo que eu sei, você ao menos não tem que vir a esse tipo de festa o tempo todo… – o jovem pareceu levemente enfadonho. Hermione enfim percebeu que se identificara com alguém.
- Sim, eu sei que tenho “sorte”, mas serei obrigada a vir durante duas semanas a todos os eventos sociais da cidade. – tentou esconder o profundo desgosto por de trás de um leve sorriso, teve a impressão que Potter pegara no ar.
Hermione nem ao menos sabia por que estava tendo uma conversa civilizada com um grosseirão como aquele, não importa que ele viesse de uma das linhagens nobres mais puras por parte de pai, ou que já tão jovem ostentasse o título de lorde, ou que fosse um dos partidos mais cobiçados e tivesse um sobrenome que era conhecido até fora da Inglaterra. Ele fora completamente deselegante da segunda vez que a encontrara, por mais que fosse apenas uma burguesa rica, jamais aceitaria ser humilhada por isto.
Apesar de pensar tudo isso, ela não conseguia evitar sentir simpatia por ele, que mesmo parecendo gostar de ser tão inconvencional, sorria de forma… sincera, e a fazia sorrir de volta. Talvez ele lembrasse vagamente Ginny, a sua Ginny, que tinha o sorriso sincero mais irresistível para ela.
O sorriso de Harry seria o segundo em sua vida pelo qual se apaixonaria, se envolveria. Não sabia disso naquele momento, mas gostou por instinto.
- Seus pais também dizem que você precisa se divertir mais? - perguntou ele com um risinho enviesado. - Dizem eles que passo tempo de mais em casa, que devo ir mais a festas, socializar…. - comentou encarando a própria bebida, ainda sorrindo de forma que a Hermione pareceu levemente irritada.
Ela pensou em confirmar, e dizer que o seu caso era o mesmo, que era tão simples. Estava prestes a mentir quando aqueles olhos tão verdes a encararam questionativos, foi quando se pegou dizendo a verdade, naturalmente.
- Creio que o meu caso é um pouco mais grave. - e sorriu como uma dama deveria fazer, pretendia parar ali e deixar o resto no ar, entretanto, sentiu vontade de se expressar, já que não podia de fato conversar com muitas pessoas que parecessem levemente mais inteligentes que um molusco. - O meu caso lorde Potter, é que meus pais acham que já é tempo de arranjar um esposo.
O jovem encarou-a por uns instantes, ela sustentou o olhar, como que desafiando-o a dizer alguma coisa. Ele pareceu hesitar por alguns momentos, mas acabou por fim dizendo:
- É, cada pai com a sua esquisitisse. - e deu de ombros.
- Você acha que é esquisito pais quererem ver uma filha bem casada? - perguntou ela achando graça do comentário dele.
- Bom…. cada um casa quando quiser, não?
- Oh, você é muito gentil lorde Potter. - respondeu irônica.
- Bom, você não deve ter problemas para arranjar um noivo. - ele comentou tomando mais um gole da bebida. Hermione sentiu a língua coçar para perguntar de forma nada simpática para ele: “Em que momento desta conversa eu dei meramente a entender que quero casar com alguém?!”, no entanto, conseguiu se controlar a tempo.
- Por que diz isso lorde Potter? - pergunto com a voz falsamente doce.
- Bem… você não é feia. Além de ser inteligente. Não pode ser um mau partido. - disse com simplicidade. Ela riu.
- Desde quando os homens procuram mulheres inteligentes? Preferem muito mais alguém de mente simples que sirva para expor aos amigos, que cozinhe e dê vários herdeiros bem educados.
- Ora essa, nem todo homem procura isto! - exclamou ele revoltado, provavelmente com a paixão que ela usava para defender seu ponto de vista duro.
- Então me diga, o que um cavalheiro como o senhor tem em mente para a esposa perfeita?
- Uhn… - ele pareceu parar alguns instantes para pensar. - Acho…. acho que teria de ser alguém como a minha mãe. - comentou ainda reflexivo, Hermione bufou.
- Típico. - disse irritada. Estava mais uma vez provando como homens eram criaturas ridículas. Queriam apenas uma mulher submissa e que cuidasse das crias.
- Creio que você não conhece a minha mãe. - disse contrariado.
- E nem preciso. - empinou o nariz em desgosto.
- Ela é quase como você. Uma burguesa, sem sangue nobre algum, uma nova rica, de personalidade tão forte quanto, e que para dobrar as idéias dela, é necessário muito e muito tempo. Meu pai conta que conquistá-la foi um sacrifício, você também não parece fácil…
Hermione encarou-o por alguns instantes. Já tinha ouvido falar dos Potter, o casal era quase como um romance desses, que mais faziam sucesso na época: um nobre de longa estirpe, e uma burguesa recém ascendida, casados. Mas a jovem não sabia dos detalhes, achara sempre que fora tudo um jogo de sedução da jovem para com o nobre, interessada apenas no título. Porém, da forma como Potter colocava a história, nada mais fazia sentido, afinal, ele parecia defender com bastante afinco os pais… pareciam viver numa família regrada.
- Lorde Potter, creio que da forma como pôs as coisas, quase parece que estais a me cortejar, comparando-me com a sua mãe… - comentou risonha, esperando de alguma forma constrangê-lo, como ocorrera no baile.
- É, talvez. - comentou de forma quase casual, levando novamente o copo aos lábios. Hermione sentiu o próprio rosto queimando. Não podia ser verdade. Ele tivera todas as chances do mundo e mais um pouco de cortejá-la, e agora, lá vinha ele com o seu jeito inusitado de ser, pegando-a desprevenida, quando ela já tinha se convencido de que ele nada queria. Como podia existir alguém assim?
Permaneceram por um tempo em um silêncio confortável, no qual a moça ficou tentando encontrar alguma lógica em toda aquela maluquice, o que aquele jovem nobre poderia estar querendo com ela? Seria alguma espécie de truque, um tipo de brincadeira, a qual o prêmio seria de alguma forma ludibriá-la? Ela não podia crer. Pois algo a dizia, e isso só se confirmava quando olhava dentro daqueles olhos que pareciam de uma natureza tão simples a ponto de espantar, que o jovem lorde Potter estava sempre sendo sincero, ela conseguia lê-lo, tão fácil quanto… tão fácil quanto à doce Ginny.
Se espantou ao pensar nisso. Não poderia haver no mundo para ela, alguém tão encantadoramente fácil de ler e compreender como Ginny, não, principalmente um nobrezinho grosseirão e nada conven…. Desde quando Ginny se portava de forma convencional?
Hermione acreditava que a pessoa era feita para apenas se encaixar perfeitamente com uma única outra alma, e ela tinha certeza que encontrara a sua alma irmã em Ginny, era sempre tudo perfeito, natural e completo. Era besteira pensar nesse belo jovem a sua frente de forma diferente a de alguém que a cativara em um período de tédio. Só isso. Nada de o ficar comparando com sua encantora Ginny, ela, diferente dele, a era muito especial e inestimável, não um desconhecido qualquer.
Aquele resto de evento inteiro a jovem passou calada e zangada consigo mesma, percebia que quase se deixara levar por uma bobeira, deveria tomar cuidado. Foi o que pensou. Tempos depois chegaria a conclusão de que o cuidado de nada serve quando o coração está envolvido, e o coração dela costumava acertar.
oOo
O céu estava azul. Um azul límpido e claro pontilhado por fofas e cheias nuvens brancas. O vidro começava a ganhar um aspecto embaçado, e balançava eventualmente, noticiando que do lado de fora ventava. Hermione esticou a mão em busca de sua xícara de chá. Estes eram um daqueles raros momentos nos quais tinha um tempo livre e calmo para apenas descansar e fazer o que quisesse.
- Deve nevar ainda esta semana. - disse para si mesma repondo a xícara na bandeja e apertando o robe contra o corpo, tentando se proteger do frio que a atingia mesmo dentro do quarto.
Pensou na primeira neve do ano. A neve mais rala, que chegava sem viso no meio da noite ou de manhãzinha e logo desaparecia. Queria estar no campo quando esta chegasse, era sempre algo muito bom, algo que se acostumara a compartilhar com Ginny após dormirem com os corpos unidos nestas noites frias.
Com esse pensamento saudoso, a jovem se aconchegou mais dentro do próprio robe, e se afastou da janela. Logo teria mais um almoço chato, na casa de outra pessoa chata e importante.
Dois dias de eventos completamente enervantes se passaram antes que ela o reencontrasse. E deveria confessar que já sentia falta da presença dele, pois pelo menos com lorde Potter por perto, não faltavam surpresas. Além de se tratar de uma presença agradável. Era um jovem grosso, mal educado e inusitado, completamente sem noção de cordialidade e nem um pouco galanteador. Entretanto, parecia que a cada dia esses ‘defeitos’ de personalidade importavam menos e menos.
Se reencontraram no teatro, na noite do 5° dia.
As idas ao teatro eram o que de longe mais lhe agradava. Podia permanecer sentada e não tinha de conversar com ninguém, além de quase sempre se emocionar nas peças, óperas e concertos.
Foi só no final, quando todos se reuniam nos grandes salões comentando o evento que ela esbarrou os olhos em cabelos escuros e levemente despenteados, fugindo dos padrões da sociedade londrina. Como sempre.
Ficou encarando aqueles cabelos por mais tempo do que poderia supor, lorde Potter se encontrava de costas, participando de algum grupo distinto que discutia provavelmente a apresentação.
- Hermione….. querida? Srta. Granger? - A jovem levou um leve susto. Não percebera que alguém a chamava, estava divagando sobre coisas tolas, como se perguntar se aqueles cabelos tão rebeldes eram ou não macios como supunha.
- Sim, madame Northonm? - perguntou educadamente, com um daqueles sorrisos treinados.
- Esses jovens de hoje, parecem que estão sempre desatentos… - comentou uma das senhoras com um ar entre a repreensão e a indiferença.
- Estávamos falando, senhorita Granger, sobre o senhor Gustav, e comentei que qualquer jovem gostaria de desposá-lo, mesmo não tendo muitas possessões. Como ator, tem seu charme, e perguntei sua opnião de jovem, que tem a idade certa para tanto.
- Ah… - Hermione se pegou surpresa com a pergunta. Havia reparado sim que o ator principal era muito belo, porém, nem ao menos sabia que ele se chamava Gustav e odiava imaginar que teria de desposar alguém assim, tão desconhecido e sem cabimento. - Imagino que a maioria das jovens caiam de amor pela beleza do sr. Gustav, mas uma jovem não deve pensar só nisso.
- Exatamente. Srta. Granger é uma menina com a cabeça no lugar. Essa história de amor é de muito mal gosto. Amor não sustenta um casamento, uma mulher decente jamais desejaria se casar com um pobretão quando pode desposar um partido melhor! - Hermione se pegou surpresa em como suas palavras foram interpretadas, pensou em corrigir e dizer que se referia ao fato de jovens se apaixonarem pela beleza de um homem e não de achar errado pensar-se em amor na hora de casar. Afinal, amor era o que a movia tão incessantemente a resistir a casamentos. Ela amava Ginny.
Seguiu-se a isso uma longa discussão contra o amor daquelas velhas senhoras mal amadas, como gostava de pensar, portanto voltou a se distrair, procurou pelo fios despenteados de orbes verdes novamente, pensando em como pelo menos com ele haveria algo de interessante a se dizer.
Estava procurando-o longe, lá pelo outro lado do salão, por isso se assustou quando alguém pigarreou a sua direita e ela deu de cara com o objeto de sua procura há menos de dois metros de distância. Ela evitou sorrir, pois sabia que pareceria tola, apenas o cumprimentou com um delicado aceno de cabeça, ficou envergonhada só de imaginar que ele havia percebido que estava sendo procurado.
- Boa noite, Srta. Granger. - disse ele fazendo uma leve reverência.
- Boa noite, lorde Potter. - Dizendo isso ela se virou para as damas com as quais conversava a pouco. - Se me dão licença, vou até ali cumprimentar um conhecido.
- Claro minha jovem, claro. - respondeu madame Northonm dispensando-a com a mão e voltando a atenção para o grupo de amigas.
- Já estava quase desistindo de encontrá-la novamente Srta. Granger. Pelo menos até completar-se três dias desde que nos vimos. - Hermine se pegou surpresa por descobrir que o jovem lorde a havia procurando. - Achei que te encontraria no jantar da família Danton.
- Ah, não somos íntimos deles, fomos neste dia à casa dos Truman.
- E depois, no almoço beneficente de laide Marshall, achei que fosse a sua cara.
- Nem soube deste evento. - comentou a jovem de fato interessada. - Ele se prestava a ajudar o que?
- Creio que o próprio bolso dos Marshall, dizem que vão mal das pernas.
- Ah, nesse tipo de evento beneficente não vou mesmo. - comentou torcendo o nariz. Odiava esses metidos a nobre que só pensavam em suas próprias riquezas. Potter sorriu daquela forma que só Hermione poderia entender como a atingia, era um sorriso tão…. especial. Muito embora ela não tivesse visto graça alguma no que dissera.
- Já visitas-te a biblioteca da catedral?
- Não. Afinal, o acesso é restrito não é? - comentou displicente. Claro que teria amado conhecer a tão famosa biblioteca da Catedral, desvendar seus mistérios e livros, isso desde que ouvira falar dela, quando ainda menina.
- Amanhã a tarde, algum evento marcado?
- Provavelmente… por que? - ela perguntou desconfiada.
- Eu poderia te levar até lá.
A jovem congelou. Quantas vezes não havia tentado acesso à biblioteca e vira seus pedidos negados? Foram tantas tentativas que se conformara há anos que jamais conseguiria entrar lá.
- Como? - perguntou tentando esconder a ansiedade crescente dentro dela. - Ou isso é só mais uma das suas esquisitices e fingimentos?
- Quando foi que eu fingi alguma coisa pra você? - ele perguntou contrariado.
- Não sei, mas o senhor é muito inusitado, nunca se sabe.
- Ora, eu tinha em mente unicamente pagar o favor que me fez no último baile. - Hermione se surpreendeu, não esperava que o jovem fosse realmente se preocupar em gratificá-la, principalmente com uma ida à biblioteca… aquela que ela sempre sonhara. Lorde Potter não poderia existir de verdade, não mesmo. - Pensei que fosse gostar da idéia, já que dizes gostar tanto de livros.
- Claro que eu… eu… ficaria honrada em poder ter acesso a biblioteca da Catedral. - disse sabendo que deixara aparecer mais ansiedade na voz do que seria aceitável.
- Amanhã meu pai insiste em me levar para lá, vai reencontrar o arcebispo, que é próximo a ele. Por mim não iria, o local é imenso e meio triste. Não me apetece. Mas lembrei que você gosta de livros, e quase ninguém tem acesso às bibliotecas de lá… já havia até perguntado a meu pai se poderia levar companhia para passar o tempo, e como a resposta foi positiva…
- Você já entrou na biblioteca? - perguntou ela completamente excitada, sabia que a voz ficou um pouco mais esganiçada que o normal, entretanto não conseguia se conter.
- Já… digo, acho que pelo menos duas vezes. É bem grande. - comentou ele parecendo surpreso com a pergunta e ainda meio sem jeito. - Bom, mas você disse que tinha eventos marcados…
- Oh, tenho certeza que meus pais não vão se importar se eu não for. Principalmente por uma causa tão nobre quanto fazer um passeio com o senhor, lorde Potter.
Foi assim que no sexto dia de eventos, três após reencontrar Potter, que Hermione realizou um sonho de infância.
Ele e o pai foram até a casa dos Granger, conversaram com a família, tomaram um chá. E quando deixaram o local com a jovem, todos em praticamente unanimidade concordaram que o jovem Potter era de longe uma ótima escolha, os empregados comentariam por dias que enfim a menina havia tomado rumo na vida e conquistado a pessoa certa. A avó diria emocionada que chegara a pensar que Hermione se tornaria uma solteirona, e os pais, eles apenas sorririam contentes, desde que a filha fosse no caminho certo, estava tudo bem.
Depois do dia na biblioteca, Hermione não saberia mais dizer direito a quem seu coração pertencia. Ela sabia que com Ginny teria sempre algo especial, algo tão puro, simples e… crescera descobrindo tudo com a amiga, havia se conformado que jamais formaria uma família ou algo do tipo, havia evitado até aquele momento todos os rapazes que apareceram na vida dela. Um por um.
No entanto, se pegava agora simplesmente não conseguindo evitar lorde Potter, afinal, ele não parecia estar de fato cortejando-a, era como se fossem bons amigos, ou conhecidos. E ainda assim ela se via engolindo seco quando era encarada por aqueles olhos verdes sorridentes, sentia aquele frio estranho na barriga quando andava de braço dado com ele, e procurava-o o tempo todo nos eventos sociais com os olhos, ansiando por sua presença.
Talvez ela tivesse sobrevivido a isso tudo, voltado para casa e simplesmente esquecido do rapaz após reencontrar sua doce Ginny, que a exorcizaria de todos os fantasmas que puseram-se a afastar seu coração da amada. Talvez o futuro tivesse sido diferente, um pouco mais difícil, um pouco mais mágico ou só um bocado diferente, se, e apenas se ela não tivesse caído de amores por lorde Potter depois daquele dia, uma semana e meia de eventos, estava quase sobrevivendo ao leve balançar que encontrara seu coração.
Porém o destino quis que a balança se desregulasse, e ganhasse peso para um lado. Um lado diferente.
Hermione passeava com a tia pela rua do comércio. Ela já se acostumara a passear por lá, visto que freqüentava o local sempre que ia para a casa da avó na cidade, por tanto, conhecia alguns feirantes e freqüentadores, bem como moradores da redondeza, os quais sempre fazia questão de cumprimentar e conversar brevemente sobre assuntos da época, tempo, família ou o que viesse.
Havia inclusive aqueles que ela simplesmente não suportava. Como Fritze Hermman, o comerciante dono do Empório Royale, um homem com cabelos brancos que ainda eram manchados de ruivo, uma careca que existia desde que a jovem se lembrava, olhar suíno que gostava de perscrutar todas as pessoas, uma barriga que daria inveja aos maiores beberrões de cerveja, um hálito de matar, além de ser extremamente arrogante, nada simpático e notoriamente pão-duro.
Hermione havia arranjado problema com ele aos exatos 13 anos.
Passeava de mãos dadas com Ginny, haviam fugido da ama que deveria acompanhá-las no passeio pela rua, porém, com os protestos de Hermione, a ruivinha conseguira escapar de toda a vigilância da ama, e as duas passeavam distraídas pelo local.
Hermione ficara muito chocada enquanto passeava, ao ver tantos jovens como ela e a amiga, sujos, de roupas rotas, as meninas vendendo flores e fósforos e os meninos tentando arranjar dinheiro de qualquer forma, mesmo roubando. Se lembraria por toda a vida do olhar daquelas crianças, tinham a mesma idade dela!
Quis comprar uma flor, um fósforo, o que fosse! No entanto, a ama ficara com o dinheiro, sentira-se quase prestes a chorar vendo a cena, quando Ginny, percebendo o estado da amiga, a guiara para a parte mais rica do comércio. Onde viu pela primeira vez o Empório Royale.
Na frente, uma banca cheia de frutas, as mais diversas e belas frutas que Hermione já vira, uma freguesa no afã de pegar sua recheada sacola de compras, deixara cair um pequeno cacho de uvas no chão, no mesmo instante, um jovem que passava por perto pareceu ter notado o fato, se abaixou e pegou o cacho, a jovem pode perfeitamente bem, mesmo a distância, ver seus olhos brilhando, a língua sendo passada pelos lábios, ele tinha fome. Sua mão já estava rápida e habilmente guardando as uvas, quando Fritze Hermman apareceu pela primeira vez na vida da jovem, e foi repulsa a primeira coisa que sentiu ao ver aquele homem grande e feio fazendo uma careta de raiva enquanto empunhava uma vassoura como um bastão.
O sangue da menina esquentou, quando Hermman alcançou o menino, arrancou da mão dele as uvas, jogando-as no chão, e em seguida pisoteando-as ao puxar o jovem para uma sova. Foi quando ela ferveu de vez. Se soltou de Ginny e correu para o homem, soltou impropérios para ele, brigou e tanto fez que o menino fugiu. Público se formou em volta do evento. Foi a primeira vez que arranjou briga e detestou aquele homem.
Nos cinco anos que se passaram, nada realmente mudaria. Hermione continuaria odiando aquele homem rico que podendo, jamais movia uma palha para ajudar os necessitados. Preferia perder uma cacho de uva pisoteado do que doá-lo a uma das crianças esfomeadas “E reproduzir esses ratos pestilentos?!” dizia com seu sotaque forte e asqueroso, como todo ele.
No entanto, quem diria que dentre todas as pessoas no universo, que deveria ser tão imenso… e supunha-se até infinito, seria Fritze, o feio, barrigudo, arrogante e egoísta a fazer Hermione pela segunda - e última - vez em sua vida se apaixonar?
Ela e sua tia estavam quase se aproximando da rua do Empório Royale quando os primeiros sinais de uma confusão começaram a aparecer: pessoas passavam por Hermione e sua tia correndo, algumas vinham correndo opostas ao caminho delas, e na esquina seguinte o som as atingiu primeiro que a visão - encoberta inicialmente por curiosos que se amontoavam.
- O senhor não tem pode…!
- Pouco me importa qual o seu berço, ou quem é o seu pai. Não tens direito algum de se meter nos assuntos da minha loja!
- Ora homem, seja razoável! Ele não teve culpa! Fui eu que esbarre…
- Não me importa!
Hermione odiava pessoas que se amontoavam como abelhas sobre o mel em cenas de brigas, violência ou morte. No entanto, sua atenção foi automaticamente tomada quando reconheceu no meio do círculo de curiosos os cabelos sebosos de Fritze Hermann, aquele velho repugnante parecia ter arranjado outra pessoa com quem brigar. Quem seria o corajoso da vez?
Foi por isso, e só por isso, que ela esticou o pescoço e ficou na ponta dos pés, queria unicamente saber quem era a outra pessoa.
- Este rato merece ser preso, desrespeitou minha loja!
- Eu já disse que pago o prejuízo! O senhor poderia por favor ser menos suíno?!
Enfim viu quem era o homem que gritava de volta para Hermann. Seus olhos viram cabelos pretos e rebeldes, olhos verdes, viram lorde Potter. Instintivamente soltou o braço da tia e começou a abrir caminho entre o público, chegando a extremidade da roda.
- Não quero o seu dinheiro pivete! Quero ele preso e morto, já!
- O senhor tem esterco de veado na cabeça? - lorde Potter parecia extremamente contrariado, Hermione jamais o vira tão zangado. Ele tinha qualquer coisa de uma aura de poder ou determinação que jamais encontrara antes. - Estou te falando que pagarei o prejuízo que EU causei ao pobre homem, te pago o triplo se isto o fizer feliz, agora, simplesmente o-deixe-em-paz! Santo Deus! - enquanto falava sobre o tal terceiro homem, apontou para algum lugar no chão à esquerda, onde um homem de no máximo 30 anos estava abaixado com uma mão sobre a face, que parecia sangrar; olhava aterrorizado para os outros dois em pé.
- Não é uma questão de dinheiro! - disse Hermann gesticulando zangado.
Lorde Potter fez um gesto brusco de levar a mão a parte interna do colete que usava, a multidão instintivamente se afastou, alguém soltou um semi-grito/exclamação, e o dono do Empórium deu um passo para trás. No entanto, não foi uma arma que o jovem tirou de dentro da roupa, foi um maço de dinheiro.
- Isso aqui dará para o senhor comprar duas vezes tudo que tem nessa lojinha imunda. - e jogou o dinheiro displicentemente no peito gordo do homem, algumas notas voaram no caminho, contudo, Hermann pegou o grosso do bolo. Hermione viu aqueles olhinhos suínos se injetarem de cobiça. A garota se sentiu mal, perguntando-se como poderia haver alguém tão desprezível e nojento no mundo inteiro.
Após uma ou duas olhadas no maço, ele se virou para o ex-empregado no chão.
- Você tem sorte seu porco imundo. Sorte do menino Potter ser um bundão cheio de titica de galinha no lugar de cérebro. - se virou voltando na direção da a loja, entretanto, som de sorrida, um grito bélico, uma pancada na cabeça, como se tivesse sido acertado por algo semelhante a um bastão. O corpo gordo de Fritze Hermann rodopiou quase noventa graus e caiu no chão, perdeu a consciência por alguns segundos e seu mundo girou.
- Seu MONSTRO! - gritou Hermione apontando a sombrinha que usara para bater no homem como se segurasse uma espada.
Aproveitou que ele ainda estava atônito no chão, e segurando a barra do vestido ela passou por cima daquele montanha de carne humana, se dirigindo ao empregado ainda caído.
- Você está bem? - perguntou com uma voz tremida que pretendia ser caridosa se abaixando para ficar da altura dele. Percebeu que tinha um leve corte no topo da cabeça, estava em busca do lencinho que sempre guardava no vestido quando ouviu lorde Potter gritar:
- Não ouse! - Hermione se virou em tempo de ver Fritze atrás dela em uma posição predadora, como se fosse atacá-la, no entanto lorde Potter se entrepôs encarando o homem. - Se o senhor não quiser ser preso e condenado à morte, não ouse fazer nada contra a srta. Granger!
- Essa vaquinha imun.. - ele parecia não disposto a abandonar a luta, no entanto, um olhar mais duro do jovem o fez recuar. Balançou o maço de dinheiro e sorriu como um monstrengo prestes a devorar uma presa. - Ainda bem que existem pessoas imbecis pelo mundo, esse empregado não me valia um penny furado.
Dito isso, entrou para sua loja, e o público explodiu em comentários. Alguns em apoio, outros criticando o comportamento dos dois jovens.
- Bela guarda-chuvada. - disse o jovem risonho enquanto ajudava o empregado caído a se levantar. Hermione riu, subitamente envergonhada de seu comportamento.
- Eu estava para fazer isso desde há realmente muito tempo.
- Você é incrível. - disse ainda rindo, ela corou.
Foi quando ajudaram o homem a caminhar - os dois o segurando pelos ombros - que Hermione percebeu a sua pulsação acelerada, o rosto corado e um desconforto confortável em algum lugar do tórax. Foi ali que uma flecha do cupido brincalhão a acertou. Para todo o sempre.
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