O mundo de um youkai
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[Viver para sempre]
“Maybe I don’t really wanna know
How your garden grows
‘Cause I just wanna fly”
Godric estava com uma mão apoiada no rosto e a outra na espada. Observava o horizonte enquanto tinha a vaga noção de que Salazar continuava falando com ele. Falando e falando, incansavelmente. Às vezes Salazar parecia uma mulher de tanto que falava. Dia desses, uma sem-magia qualquer jogara excrementos pela janela e o acertara sem querer na rua, ele ficara no assunto por horas e horas, destilando milhares de insultos, falando como uma velha mal amada.
Agora ele estava falando de… de o que mesmo? Godric coçou a virilha enquanto pensava e viu um pequeno pomorim dourado voar para longe. Ah sim, o caso da jovem que acabara de se mudar para a vila. Salazar simplesmente não parava de falar dela.
Era uma bela jovem. Morena, grandes olhos inteligentes… Godric gostara daquilo. Mas Salazar parecia incomodado com ela. Provavelmente continuava tentando arranjar justificativas e motivos para maldizer a jovem. Era sempre assim. Salazar, ao invés de cortejar as belas mulheres, parecia adorar arranjar um motivo para desgostá-las.
Mais um pomorim voou de uma árvore próxima, uma pena dourada e brilhante se desprendeu do pássaro e veio despencando até Godric que, esticando a mão, pegou-a. Ele gostava de pomorins, o brilho dourado deles provocava um calor semelhante a magnitude do sol. Godric admirava tudo que fosse grandioso, capaz de reter admiração e temor nos homens. E aquela pena tom de ouro em sua mão era como uma pequena chama de sol capturada por um humano.
Seus olhos se dirigiram a Salazar e tentou voltar a prestar atenção no que o amigo dizia.
-…então poderíamos juntar nossas economias, já que é uma família muito rica. Meu pai conhece um mineiro que fornece todo o tipo de pedra, conseguiríamos uma boa quantidade delas por…
- Do que você está falando? – perguntou Godric abrupto. Esperava ouvi-lo falando sobre a tal Ravenclaw, contudo, o assunto parecia ser sobre… construção?
Salazar o olhou atônito por um segundo, antes de transformar os olhos em fendas, dilatar as narinas e crispar os lábios.
- Você não estava ouvindo nada do que eu estava falando, não é?
- Achei que você ainda estivesse falando da menina Ravenclaw – respondeu Godric curioso sobre o que então o amigo poderia estar falando.
- Eu não estava falando sobre ela – disse Salazar ofendido. – Bom, pelo menos não da forma que você espera que eu esteja falando.
- Então estava mesmo falando dela – afirmou Godric com um ar vitorioso.
- Sim, mas estava falando sobre como a nossa união com ela poderia ser vantajosa!
- Do que você está falando?
- De dinheiro, Godric – disse Salazar cansado. – Eu soube que os Ravenclaw são muito ricos, e que a jovem Rowena gosta de educar suas primas bruxas. Vê? Ela é perfeita. Então com o dinheiro dela, meu conhecimento de…
- Está falando sobre escola de magia que montaremos?
- Sim… – respondeu Salazar enfadado pela demora de Godric em entender aonde ele queria chegar.
- Tenho que falar com a Helga sobre isso.
- Eu não sei se devíamos deixar a…
- Não comece. Helga foi a primeira a nos dar força sobre a escola. Lembre-se também que ela é a única herdeira dos terrenos de Hogwarts, e prometeu que nos cederá uma parte deles para a escola.
Mal humorado, Salazar concordou com a cabeça, confessando a contragosto que Godric tinha razão.
- Como eu dizia, com o interesse e dinheiro dos Ravenclaw, nossa escola não será só a melhor, como a mais magnífica de toda Grã-Bretanha – continuou com um ar orgulhoso.
- Qualquer lugar ensinado por mim e por você será magnífico. O nome Gryffindor ainda tem renome por toda a bruxeidade, alunos interessados não nos faltarão.
- Slytherin e Gryffindor, os fundadores da maior e melhor escola de magia da Grã-Bretanha!
“Maybe you’re the same as me
We see things they’ll never see
You and I are gonna live forever”
- Godric… Godric! – Salazar corria pelos corredores de pedra do castelo atrás do amigo, que não diminuía os largos passos. – Eu preciso falar com você!
Após acelerar um pouco a corrida, conseguiu alcançar Godric e puxá-lo pelo braço.
- Você é um imbecil – disse para antes que pudesse se recompor. – E precisamos conversar.
- Eu não preciso conversar com você agora. Sei muito bem o que vai dizer e eu já tomei a minha decisão – respondeu Godric, ríspido.
- Você não pode estar falando sério. Pense bem…
- Eu já concordei com Helga e dei minha palavra.
Salazar encarou-o estupefado. Encarou o amigo por longos instantes, até que por fim soltou seu braço e deu um passo para trás.
- Retire essa sua palavra. Retire o que você disse para ela e podemos arranjar um jeito de nos livrar daqueles… daqueles seres e…
- Eu não vou retirar a minha palavra, Salazar. Conforme-se.
- E onde você pretende que os alunos tenham aulas? – perguntou Salazar irado.
- Estávamos mesmo com planos de construir uma outra estufa¹, não é? – respondeu sarcástico.
Salazar o encarou novamente por um longo momento, fulminando Godric com seus vivos olhos negros.
- Há mais de dez anos que você atende a todo e qualquer desejo de Helga. Isso não pode durar para sempre sem acabar nos causando problemas – e dizendo isso se virou com um extravagante rodopio de capa, voltando por onde viera.
Godric observou-o partir. Tudo poderia ser muito mais fácil se Salazar não fosse tão orgulhoso e cabeça-dura. Tudo seria simples se ele não implicasse tanto com Helga. Se ela queria proteger alguns elfos e outras criaturas indefesas da guerra, que mal havia nisso?
Salazar sempre fora uma pessoa muito prática, sabia colocar o que era melhor para a escola acima do que ele mesmo achava melhor. Godric estava fazendo exatamente isso. Se não permitisse às vezes que Helga desse vazão a seu lado caridoso, ela poderia um dia não querer mais a Escola em seus terrenos. Helga, claro, jamais faria isso sem um bom motivo, contudo, era melhor agradá-la sempre que possível. Salazar sabia disso, porém, se tornava irracional quando o assunto era Helga, mesmo que dissimulasse.
“Maybe I will never be
All the things that I wanna be
But now is not the time to cry
Now’s the time to find out why”
A neve caia fofa lá fora enquanto Godric observava da magnífica porta do hall de entrada do castelo. Era a época do ano na qual todos ficavam dentro de seus castelos, vilarejos e cidadelas, o mais próximo possível do fogo. Viagens a qualquer lugar mais longe do que o vizinho se tornavam quase impossíveis. Por isso ele não deveria ter esperanças, no entanto, permanecia inabalável no portal, aguardando.
Primeiro ele ouviu o barulho, passos arrastados e lentos pela neve. A sua frente continuava a ter apenas sombras. O som dos passos ecoavam pelas paredes externas do castelo, tornando impossível saber de onde vinham. Godric deu um passo hesitante na direção da escadaria, por onde quer que olhasse havia apenas branco e escuridão, se unindo em um só mais a frente, onde a fraca luz provinda das janelas do castelo não conseguia alcançar.
Então, mais a direita, uma figura encurvada e indistinta surgiu no seu campo de visão. Um amontoado de peles e roupas, se apoiando em um rústico cajado.
- Salazar? – gritou Godric descendo a passos largos a escadaria. – Salazar, é você?
Godric o alcançou abrindo caminho pela neve com seu corpanzil, o estranho abaixou o capuz de pele de veado e soltou o grosso cachecol, revelando um rosto fino, nariz pontudo e afinalado, ares aristocráticos e uma beleza perdida por debaixo de um cavanhaque cinza mal aparado e amassado.
- Salazar! – gritou Godric segurando o amigo pelos ombros e puxando-o para um abraço de quebrar os ossos. – Eu sabia que você retornaria. Nunca duvidei.
Salazar não disse nada. Parecia muito fraco e Godric apenas o guiou pelos ombros para dentro do calor do castelo.
- Você está parecendo um cocô de doninha – disse com um largo sorriso, observando o amigo sob um dos archotes do hall de entrada. – Sabia que você voltaria! As meninas mal podem esperar por isso – em um tom cúmplice acrescentou: - Eu não agüentava mais ficar apenas na companhia de mulheres…
Godric deu um tapa amistoso no ombro do amigo, enquanto gargalhava em sua voz expansiva. Fez um movimento que indicava ir até as outras contar a novidade.
Contudo, Salazar o segurou repentinamente pelo pulso. Godric virou os grandes olhos dourados para ele, um ar interrogativo.
- Eu só voltei porque o que criamos é grandioso demais para permanecer nas mão de imbecis. Eu quero que o meu legado possa durar mesmo eu não estando aqui, quero que continuem a ser educados na minha casa apenas os alunos merecedores.
Godric encarou-o por um longo momento, em silêncio.
- Você não voltou para ficar para sempre – comentou de forma inexpressiva.
- Isso não vem ao caso. Eu só quero ter certeza de que na minha casa continuem a entrar apenas os alunos de estirpe. Não vou deixar esse ideal desaparecer comigo.
Um longo silêncio se impôs entre os dois. Salazar soltou o pulso de Godric, que permaneceu no mesmo lugar. Olhavam-se nos olhos como se buscassem juntos uma resposta paras suas dúvidas díspares.
- Já sei! – exclamou Godric deixando transparecer um entusiasmo quase infantil em suas feições duras e retangulares. Tirou o chapéu lustroso e bem cuidado que usava e o ficou encarando-o por alguns instantes. Então alcançou a varinha no cinto, ao lado da extravagante espada, e realizou alguns feitiços complexos de diversas cores e intensidades sobre o chapéu, no rosto um misto entre concentração ferrenha e um ar risonho. Salazar, com seus olhos astutos, tentava descobrir o que Godric pretendia.
Por fim, passado longos minutos, a testa encharcada de suor devido a concentração, Godric segurou o chapéu pela ponta, e com um largo sorriso, estendeu-o na direção de Salazar.
- Pronto!
Salazar ia abrir a boca para soltar alguns de seus comentários irônicos, questionando a sanidade mental de Godric, quando abriu-se um rasgo na haste do chapéu que assumiu um formato bucal.
- Olá, posso aprender com a sua mente? Ponha-me em sua cabeça! – cantarolou o chapéu empolgado.
Salazar deu um passo para trás, surpreso. Em seguida olhou zangado e interrogativo para Godric.
- Vamos ensinar a esse chapéu tudo o que ele precisa saber, vamos mostrá-lo como escolhemos os estudantes que vamos lecionar e depois, quando não pudermos mais escolher nossos alunos, ele os fará por nós!
- Essa é a idéia mais imbecil que você já teve! E você já teve muitas idéias imbecis! – exclamou Salazar sibilante, indignado.
- Oh, você não entendeu a genialidade disto. Vamos usá-lo em nossas cabeças sempre que formos selecionar alunos, até ele entender perfeitamente bem como fazemos, então poderá escolher os alunos por si só, mesmo se um de nós… – não conseguiu completar a frase, não agora que Salazar voltara.
- Colocar um chapéu na cabeça das pessoas para selecioná-las é uma idéia absurda!
Godric o ignorou, passou o braço por sobre o ombro magro e ossudo do amigo, e guiou-o escadas acima, de volta ao lar. De volta aonde o amigo jamais deveria ter saído.
- Estou feliz que você tenha voltado, Salazar – disse com um tom profundo, indicando a sinceridade da afirmação.
Salazar apenas continuou olhando para frente, tomou o cuidado de retirar discretamente o grande ovo² que carregava por debaixo de todos as roupas e enrolá-lo no cachecol que tirara. Infelizmente Godric preferia dar sempre ouvidos a Helga do que a ele, melhor amigo desde antes de todos os outros. Se Hogwarts não poderia ser como Salazar queria, então ele faria de tudo para que seu ideal jamais morresse.
Deixaria naquele castelo mais do que um chapéu velho que soubesse escolher os alunos certos, deixaria uma possibilidade de extermínio aos nascidos sem magia. Godric não era mais o mesmo, esquecera de compartilhar com ele todas as visões de um mundo perfeito, todas as visões de grandiosidade. Salazar voltara unicamente para por alguns planos em prática.
Ainda assim, deixou-se deixar guiar, quase abraçado a Godric, pelos corredores frios e sujos de neve do castelo. Afinal, os dois ainda eram os fundadores das casas mais unidas da Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwats.
“Maybe I just wanna fly
I wanna live, I don’t wanna die
Maybe I just wanna breathe
Maybe I just don’t believe”
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